100 anos do dia internacional da mulher trabalhadora

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Adotado pela ONU em 1977, a ideia de designar um dia para que todo o Planeta pense sobre a condição da mulher vem de uma longa tradição socialista. Foi proposto, originalmente, pela marxista alemã Clara Zetkin em 26 de agosto de 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhague, na Dinamarca, como forma de unificar os vários atos promovidos pelos socialistas em todo o mundo no ano anterior.

A proposta de Zetkin foi aprovada e adotada por todos os partidos e agrupamentos socialistas, que passaram a comemorar o dia, mas sem uma data definida (geralmente no final de março, como lembrança da Comuna de Paris).

Em 1917, as operárias do setor têxtil de Petrogrado (Rússia) marcaram uma grande greve para o dia 8 de março (23 de fevereiro no Calendário Juliano usado na Rússia). Além das reivindicações por melhores condições de trabalho, as operárias russas clamavam por paz e pão. O Czar havia afundado o País na Primeira Guerra Mundial, arrastando os homens trabalhadores para o front, onde morriam aos milhões. Nas cidades, a fome e a miséria reinavam.

Nesse dia, 90 mil operárias pararam de trabalhar e tomaram as ruas da cidade com suas bandeiras vermelhas. A mobilização foi tão impressionante que os próprios soldados se negaram a reprimi-la.

Nos dias que se seguiram, várias outras categorias de trabalhadores se somaram à mobilização, num crescente que culminou na chamada Revolução de Fevereiro, que derrubaria o Czar e instituiria a república. Esta foi a primeira parte da Revolução Russa, cuja segunda parte, a Revolução de Outubro, instituiria um Estado Operário no País.

Hoje, portanto, comemora-se os 100º 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

Há uma lenda inventada pelas feministas burguesas de que a data se referiria a um incêndio em uma fábrica em Nova Iorque onde morreram mais de uma centena de mulheres. O incêndio ocorreu, mas em 25 de março de 1911. A fábrica chamava-se Triangle Shirtwaist e o incêndio acidental vitimou 149 pessoas das quais 123 eram mulheres.

O texto a seguir foi escrito pela socialista alemã Rosa Luxemburgo por conta da comemoração do Dia da Proletária de 1914, que abriu a Semana Vermelha do Partido Social-Democrata, que na época agregava os socialistas alemães.


A Proletária

Rosa Luxemburgo

O Dia da Proletária inaugura a semana da Social-Democracia1. O partido dos deserdados coloca a sua coluna feminina no front ao partir para a dura luta pela jornada de oito horas, a fim de espalhar a semente do socialismo sobre novas terras. E a igualdade de direitos políticos das mulheres é o primeiro mote que ela levanta, ao se prestar a recrutar novas seguidoras em prol das reivindicações de toda a classe trabalhadora.

Hoje, a proletária assalariada moderna pisa no palco público tanto como a protagonista da classe trabalhadora quanto, ao mesmo tempo, de todo o gênero feminino, a primeira protagonista em milhares de anos.

A mulher do povo teve de trabalhar pesado desde sempre. Na horda bárbara ela carrega o peso, coleta alimentos; no povoado primitivo, planta e mói o cereal, faz panelas; na Antiguidade, como escrava, serve os senhores e amamenta os rebentos; na Idade Média, fiava para o senhor feudal. Mas, desde que existe a propriedade privada, na maioria das vezes a mulher do povo trabalha separada da grande oficina na produção social, ou seja, separada também da cultura, encurralada na estreiteza doméstica de uma pobre existência familiar. Foi apenas capitalismo que a arrancou da sua família e a colocou sob o fardo da produção social, empurrou-a para as lavouras de outrem, para as oficinas, construções, escritórios e lojas. Como mulher burguesa, a mulher é uma parasita da sociedade, sua função consiste apenas em auxiliar no consumo dos frutos da exploração; como pequeno-burguesa, ela é o animal de carga da família. E apenas na proletária moderna que a mulher se toma um ser humano, pois e apenas a luta que produz o ser humano, a participação no trabalho cultural, na história da humanidade.

Para a mulher burguesa proprietária, sua casa e o mundo. Para proletária, todo o mundo é a sua casa, o mundo com o seu sofrimento e sua alegria, com sua atrocidade fria e seu tamanho. A proletária vaga com o trabalhador do túnel que liga a Itália a Suíça, acampa em barracas e seca, enquanto cantarola, a roupa dos bebês ao lado de rochas explodindo. Como trabalhadora sazonal do campo, no início do ano, ela encontra-se no barulho das estações de trem, sentada sobre os seus humildes pertences, um lencinho cobrindo o penteado simples aguarda pacientemente para ser transportada do leste para o oeste No deque do navio a vapor ela se desloca com as ondas que levam a mi séria da crise da Europa para a América, em um amontoado de e idiomas de proletários famintos, para, quando a onda de ref1uxo uma crise americana se fizer presente, retomar para a miséria familiar da Europa, para novas esperanças e decepções, para uma nova caça por trabalho e pão.

A mulher burguesa não tem nenhum interesse real em direitos políticos pois não exerce uma função econômica na sociedade, pois usufrui dos frutos acabados da dominação de classe. A reivindicação, por igualdade de direitos femininos é, onde ela se manifesta nas mulheres burguesas, mera ideologia de alguns grupos fracos, sem raízes materiais, um fantasma da oposição entre a mulher e o homem, uma esquisitice. Por isso, o caráter anedótico do movimento das sufragetes2.

A proletária precisa de direitos políticos, pois exerce a mesma função econômica que o proletário masculino na sociedade, se sacrifica igualmente para o capital, mantém igualmente o Estado, e igualmente sugada e subjugada por ele. Ela tem os mesmos interesses e, precisa, para sua defesa, das mesmas armas. Suas reivindicações políticas estão profundamente enraizadas no abismo social que separa a classe dos explorados da classe dos exploradores; não na oposição entre o homem e a mulher, mas na oposição entre o capital e o trabalho.

Formalmente, o direito político da mulher insere-se harmonicamente no Estado burguês. O exemplo da Finlândia, dos Estados americanos, de comunidades isoladas, prova que a igualdade de direitos das mulheres ainda não derruba o Estado, não toca na dominação do capital. Mas como o direito político da mulher e, hoje, uma reivindicação de classe puramente proletária, então, para a atual Alemanha capitalista, ele e como o sopro do juízo final. Como a república, como a milícia, como a jornada de oito horas, o direito de voto das mulheres apenas pode vencer ou sucumbir junto com toda a luta de classes do proletariado, apenas pode ser defendido com os métodos proletários de luta e os seus meios de poder.

Defensoras burguesas dos direitos das mulheres querem adquirir direitos políticos para então tomarem parte na vida política. A mulher proletária apenas pode seguir o caminho da luta trabalhadora, que, inversamente, conquista cada palmo de poder efetivo para, apenas assim, adquirir os direitos escritos. No princípio de toda ascensão social era a ação. As mulheres proletárias precisam fincar pé na vida política por meio de sua participação em todos os domínios, apenas assim e que elas criam um fundamento para os seus direitos. A sociedade dominante lhes recusa o acesso aos templos de seus fóruns deliberativos, outra potência dessa época lhes escancara as portas — o Partido Social-Democrata. Aqui, em fileiras e membros da organização, estende-se diante da mulher proletária um campo incalculável de trabalho político e poder político. Apenas aqui a mulher e um fator no que se refere a igualdade de direitos. Ela e introduzida na oficina da história por meio da social-democracia, e aqui, onde agem forças ciclópicas, ela alcança a igualdade de direitos efetiva, ainda que o direito escrito de uma constituição burguesa lhe seja negado. Aqui, ao lado do homem, a mulher trabalhadora sacode as colunas da ordem social vigente e, antes que esta lhe conceda um direito aparente, ela ira ajudar a pôr em ruínas essa ordem social.

A oficina do futuro necessita de muitas mãos e de bastante fôlego. Um mundo de lamúria feminina aguarda libertação. A mulher do pequeno camponês suspira a beira do colapso sob o fardo da vida. Ali, na África alemã, no deserto do Kalahari, permanecem os ossos de mulheres Hereros indefesas, que foram levadas pelos soldados alemães a pavorosa morte de fome e sede. Do outro lado do oceano, nos altos rochedos de Putumayo, perdem-se, inaudíveis para o mundo, gritos de morte de mulheres indígenas torturadas nas plantações de borracha de capitalistas internacionais.

Proletária, a mais pobre dos pobres, a mais injustiçada dos injustiçados, vá a luta pela libertação do gênero das mulheres e do gênero humano do horror da dominação do capital. A social-democracia concedeu a você um lugar de honra. Corra para o front, para a trincheira!


  1. No ano de 1914 o Dia Internacional da Mulher, 8 de março esteve sob o signo da luta pelo direito de voto e pela igualdade de direitos da mulher. Com esse dia da mulher social-democrata, foi inaugurada a “Semana Vermelha” do partido de 8 a 15 de março de 1914, que serviu à agitação da social-democracia e da sua imprensa. Como resultado, pôde ser registrado um crescimento significativo de membros e de um aumento do número de assinantes da imprensa.
  2. Como “sufragetes” ficaram conhecidas, na Grã-Bretanha, em primeiro lugar, as lutadoras pela igualdade politica de direitos das mulheres e, também, as seguidoras do movimento de direito de voto das mulheres.
LUXEMBURGO, Rosa. Textos escolhidos Vol. 1 (1899-1914). 1ª Edição. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
Publicado originalmente como Die proletarierin em Sozialdemokratische Korrespondenz, n. 27, 5 de março de 1914.
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