Pintura no estilo da arte grega antiga mostrando Sócrates sentado à esquerda, em uma cadeira simples, com túnica branca e expressão atenta, dialogando com Teodoro, um homem mais velho de barba grisalha, e Teeteto, um jovem ateniense, ambos em pé à direita. A cena ocorre em um pátio de pedra com colunas dóricas ao fundo, onde outros cidadãos gregos aparecem desfocados, e, ao longe, vê-se a cidade murada de Mégara sob um céu claro mediterrâneo.

O Diálogo Teeteto: teoria do conhecimento em Platão

Maurício Moura

O que é o conhecimento? Essa pergunta, aparentemente simples, é o epicentro de uma das investigações mais profundas e desafiadoras da filosofia ocidental. O diálogo Teeteto, atribuído a Platão, não oferece uma resposta definitiva, mas sim um mapa meticuloso do terreno minado em que qualquer tentativa de defini-la se aventura. Através do método socrático, o texto nos conduz por uma jornada intelectual que desmonta uma a uma as definições mais intuitivas de saber, revelando as contradições escondidas sob a superfície do senso comum.

Continuar lendo →
Demarcação científica: a ilusão da neutralidade

Demarcação científica: a ilusão da neutralidade

Maurício Moura

Neste quarto e último capítulo da nossa série sobre demarcação científica, enfrentamos a pergunta crucial: será possível encontrar critérios universais para distinguir ciência de pseudociência?

Ao compararmos a eficácia dos modelos clássicos e contemporâneos nas diferentes áreas do conhecimento, que padrões emergirão? A falseabilidade popperiana, tão eficaz na física, mostrar-se-á igualmente válida na antropologia? Os paradigmas de Kuhn e o modelo sistêmico de Bunge conseguirão superar as limitações dos critérios tradicionais?

Mais importante: que custos políticos e epistemológicos carregam as tentativas de estabelecer demarcações rígidas? E que tipo de ciência queremos construir – uma que hierarquiza saberes ou uma que celebra a diversidade cognitiva?

A jornada que concluiremos aqui questionará não apenas como definimos ciência, mas para quem e para que fins o fazemos.

Continuar lendo →
A questão da demarcação e os vários saberes

Demarcação científica: modelos sistêmicos e justiça cognitiva

Maurício Moura

Se as abordagens histórico-sociais revelaram a natureza política da ciência, os critérios contemporâneos buscam operacionalizar essa complexidade sem abandonar o rigor metodológico. Este capítulo examina três eixos fundamentais: o modelo sistêmico de Mario Bunge, que propõe dez dimensões interligadas de cientificidade; a abordagem híbrida de Carvalho, que articula critérios epistemológicos e políticos; e a análise dos fatores sociorraciais que desvelam como hierarquias étnicas estruturam a produção do conhecimento.

Continuar lendo →
O caleidoscópio da demarcação cientifica

Demarcação científica: a politização do conhecimento

Maurício Moura

Se os critérios clássicos de demarcação falharam em estabelecer padrões universais, as abordagens histórico-sociais emergem precisamente para reconhecer que a validação científica nunca ocorre no vácuo. Continuando nossa série sobre a demarcação científica, este capítulo examina como Thomas Kuhn, Imre Lakatos e pensadores sociais deslocaram o debate da lógica formal para as dinâmicas concretas de produção do conhecimento, um movimento radical que revela a ciência como prática humana, intrinsecamente ligada a contextos históricos e relações de poder.

Continuar lendo →
Critérios de demarcação científica. O que é e o que não é ciência

Demarcação científica: a ilusão da certeza no verificacionismo e na falseabilidade

Maurício Moura

O problema da demarcação científica, esse espinho cravado na carne da epistemologia desde os gregos, permanece tão atual quanto urgente. Em tempos de negacionismo climático, terraplanismo ressuscitado e medicalização seletiva, a pergunta “o que é ciência?” transformou-se de exercício acadêmico em arma de guerra cultural. O Círculo de Viena e Karl Popper ofereceram as respostas mais influentes do século XX, armados com a convicção de que a lógica e a empiria bastariam para traçar uma linha nítida entre conhecimento válido e superstição. Sete décadas depois, suas soluções mostram-se não apenas incompletas, mas perigosamente enganosas quando aplicadas como critérios universais.

Este artigo desmonta os alicerces desses modelos clássicos, demonstrando por que verificacionismo e falseabilidade falham redondamente como critérios absolutos de demarcação. Suas limitações não são meras curiosidades filosóficas: são falhas estruturais que perpetuam hierarquias epistêmicas, excluem saberes legítimos e instrumentalizam a ciência para projetos de poder. Nas trincheiras do debate público, onde se decide desde políticas de vacinação até currículos educacionais, entender essas limitações é questão de sobrevivência cognitiva.

Continuar lendo →
Ontopsicologia, Campo Semântico, Monitor de Deflexão, Em Si Ôntico: Pseudociência

Anti-intelectualismo: a farsa científica da ontopsicologia

Maurício Moura

A ontopsicologia, fundada pelo italiano Antonio Meneghetti na década de 1970, apresenta-se como “ciência da subjetividade humana” através de três pilares teóricos: In-Sé ôntico (núcleo psíquico “puro”), Monitor de Deflexão (mecanismo de desvio existencial) e Campo Semântico (comunicação telepática). Sua classificação como pseudociência é consensual entre as entidades profissionais de psicólogos, como o Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRP-RS), que rejeitam sua base empírica e metodológica (OLIVEIRA, 2016; JORNAL NACIONAL, 2002). Este artigo analisa criticamente como essa corrente sintetiza tendências anti-intelectuais contemporâneas, apropria-se seletivamente de narrativas pós-modernas e replica estruturas autoritárias, configurando risco à integridade epistemológica e à democracia. A relevância social do tema radica na expansão global de movimentos pseudocientíficos que minam instituições democráticas e exploram vulnerabilidades socioeconômicas.

Continuar lendo →

Pós-Modernismo e fascismo: anatomia de uma síntese reacionária

Maurício Moura

O ressurgimento global de movimentos autoritários no século XXI, paralelamente à crise dos paradigmas racionais, demanda análise das relações entre pós-modernismo e o que Umberto Eco denominou “fascismo eterno” 1. Este artigo examina como elementos do fascismo histórico ressurgem em discursos que instrumentalizam críticas pós-modernas à razão e à verdade objetiva. Partindo da premissa de Jameson 2 sobre a crise estrutural do capitalismo em sua etapa imperialista, argumenta-se que ambas as formas de consciência social emergem como respostas mediadas por esta crise sistêmica. A tese central sustenta que o esvaziamento das críticas pós-modernas de seu potencial emancipatório permite sua cooptação por projetos autoritários, criando sínteses perigosas no campo discursivo contemporâneo.

Continuar lendo →
Limites da Ciência epistemologia fronteira do conhecimento

Limites do método científico: o que a ciência não estuda (nem quer)

Entenda as barreiras epistemológicas e técnicas da investigação científica

Maurício Moura

O método científico moldou nossa compreensão do universo desde a Revolução Científica, oferecendo um antídoto contra dogmas e superstições. Sua aplicação rigorosa permitiu desde a cura de doenças até a exploração espacial, consolidando-se como pilar do pensamento racional. Contudo, sua eficácia não equivale à infalibilidade.

Este artigo sustenta que o método científico é ferramenta indispensável porém delimitada, operando dentro de fronteiras que definem tanto seu poder quanto suas restrições.

Continuar lendo →

Estudando a ciência da ciência

* Jane C. Hu

Em teoria, o método científico funciona assim: pesquisadores formulam uma questão, constroem hipóteses, coletam dados, avaliam seus resultados e – ta da! – o mundo ganha conhecimentos científicos valiosos. Na prática, é claro, isso nem sempre funciona desse jeito e alguns cientistas estão trazendo isso pra si e indo além de suas áreas de pesquisa principais para estudar onde o sistema pode estar errando.

Continuar lendo →

Um manifesto pela ciência reprodutível

* Marcus R. Munafò, Brian A. Nosek, Dorothy V. M. Bishop,
Katherine S. Button, Christopher D. Chambers, Nathalie Percie du Sert,
Uri Simonsohn, Eric-Jan Wagenmakers, Jennifer J. Ware & John P. A. Ioannidis

Melhorar a confiabilidade e a eficiência da pesquisa científica aumentará a credibilidade da literatura científica publicada e acelerará descobertas. Aqui nós defendemos a adoção de medidas para otimizar os elementos chave do processo científico: métodos, relatório e divulgação, reprodutibilidade, avaliação e incentivos. Há evidências tanto de simulações quanto de estudos empíricos que suportam a efetividade dessas medidas, mas sua ampla adoção por pesquisadores, instituições, financiadores e publicações exigirá avaliação e melhorias iterativas. Nós discutimos os objetivos dessas medidas, e como elas podem ser implementadas, na esperança de que isso vá facilitar ações que aumentem a transparência, reprodutibilidade e eficiência da pesquisa científica.

Continuar lendo →