Maurício Moura
Se as abordagens histórico-sociais revelaram a natureza política da ciência, os critérios contemporâneos buscam operacionalizar essa complexidade sem abandonar o rigor metodológico. Este capítulo examina três eixos fundamentais: o modelo sistêmico de Mario Bunge, que propõe dez dimensões interligadas de cientificidade; a abordagem híbrida de Carvalho, que articula critérios epistemológicos e políticos; e a análise dos fatores sociorraciais que desvelam como hierarquias étnicas estruturam a produção do conhecimento.
“A ciência não é apenas metodologia: é uma prática social profundamente enraizada em contextos históricos e relações de poder.”
— Mario Bunge, Philosophy of Science (1998)
Multidimensionalidade como resposta
Mario Bunge oferece talvez a resposta mais sofisticada ao problema da demarcação através de seu modelo sistêmico, que propõe dez princípios epistemológicos interligados para avaliar a cientificidade1. Diferentemente dos critérios unidimensionais, Bunge exige que teorias atendam simultaneamente a múltiplas dimensões ontológicas, metodológicas e éticas.
No plano ontológico, destaca-se o materialismo, que rejeita entidades imateriais ou sobrenaturais; o sistemismo, que exige análise de fenômenos como redes interconectadas e o emergencismo, que reconhece propriedades novas surgidas de interações complexas.
No âmbito metodológico, o cientificismo estabelece a ciência como forma superior de conhecimento, porém aprimorável; o realismo vincula teorias à realidade mensurável; o racionalismo garante rigor via lógica formal e matemática; o objetivismo busca imparcialidade mediante controle de vieses e a testabilidade exige falseabilidade ou verificabilidade empírica.
Complementam o modelo dois pilares transversais: a coerência lógica, que assegura compatibilidade interna e com teorias consolidadas e a ética cognitiva, que impõe compromisso com honestidade intelectual e correção de erros. Esta estrutura CESM (Composition, Environment, Structure, Mechanism) opera holisticamente, exigindo que teorias satisfaçam múltiplas dimensões simultaneamente para serem consideradas científicas1.
A estrutura CESM e aplicações práticas
O coração do modelo bungeano é o esquema CESM (Composition, Environment, Structure, Mechanism), que analisa sistemas concretos através de quatro dimensões1:
- C – Composição: Elementos constituintes
- E – Ambiente: Fatores externos interativos
- S – Estrutura: Relações entre componentes
- M – Mecanismo: Processos geradores de propriedades emergentes
Em ciências ambientais, por exemplo, o modelo avalia ecossistemas combinando dados físicos (composição), pressões antrópicas (ambiente), interações bióticas (estrutura) e ciclos biogeoquímicos (mecanismos), superando abordagens fragmentadas.
Apesar de sua abrangência, o modelo enfrenta três críticas fundamentais1:
- Complexidade operacional: Exige recursos analíticos intensivos para sistemas de grande escala
- Subjetividade na ponderação: A hierarquização dos princípios varia conforme a área
- Tensão com perspectivas decoloniais: Ignora críticas ao eurocentrismo na hierarquização de saberes
Epistemologia e política indissociáveis
Robson Rodrigues Carvalho (2022) avança além de Bunge ao propor uma abordagem híbrida que integra explicitamente dimensões epistemológicas e políticas na demarcação científica. Essa dupla análise responde à incapacidade dos critérios tradicionais em explicar fenômenos como o negacionismo climático, onde evidências robustas são rejeitadas por interesses ideológicos.
A abordagem opera através de duas avaliações complementares1:
Dimensão epistemológica: Aplica os princípios sistêmicos de Bunge para avaliar solidez teórica, priorizando testabilidade, materialismo e coerência lógica.
Dimensão política: Examina condições sociais de produção científica, identificando:
- Epistemicídio (supressão de saberes não ocidentais)
- Assimetria institucional (influência de financiamentos corporativos)
- Vieses raciais e de gênero na validação do conhecimento
A operacionalização dessa abordagem revela-se em casos concretos21:
Negacionismo climático:
- Análise epistêmica: Rejeita modelos que violam princípios sistêmicos
- Análise política: Expõe lobbies de indústrias fósseis que financiam pseudociência
Medicalização educacional:
- Análise epistêmica: Identifica falhas metodológicas em diagnósticos de TDAH
- Análise política: Revela medicalização seletiva de crianças pobres e negras
A principal inovação da abordagem híbrida é redefinir a demarcação como processo dialético que1:
- Critica o universalismo ingênuo: Demonstra que critérios puramente metodológicos falham ao ignorar relações de poder
- Desvela pseudociências estruturais: Identifica que certas pseudociências são instrumentos de dominação
- Reconhece pluralidade epistêmica: Incorpora que a validação deve considerar quem produz e para quem se produz conhecimento
Quando a raça determina a verdade
Os fatores sociorraciais revelam como hierarquias étnicas estruturam a produção e validação do conhecimento científico. Três eixos fundamentais emergem das análises contemporâneas23:
1. Medicalização Seletiva
Estudos demonstram que diagnósticos de transtornos comportamentais são aplicados desproporcionalmente a crianças negras e pobres, convertendo desigualdades sociais em patologias individuais. Esse processo opera através de2:
- Viés diagnóstico: Sintomas idênticos recebem interpretações racializadas
- Farmacologização: Prescrição 2,3 vezes maior de metilfenidato para crianças periféricas
2. Barreiras à Mobilidade Educacional
Estudantes negros enfrentam obstáculos epistêmicos no acesso à pós-graduação3:
- Hierarquia de saberes: Temas sobre cultura afro-brasileira são marginalizados como “não científicos”
- Mecanismos sutis: Orientadores desencorajam pesquisas sobre desigualdade racial, classificando-as como “militância”
3. Epistemicídio na Saúde Pública
Políticas de saúde mental privilegiam modelos eurocêntricos, desconsiderando práticas tradicionais de cura e evidências sobre racismo como determinante de saúde3.
Rumo à justiça cognitiva
Os critérios contemporâneos demonstram que a demarcação científica precisa evoluir de juízo técnico para prática de justiça cognitiva. O modelo de Bunge oferece multidimensionalidade, a abordagem híbrida reconhece a politicidade inevitável, e a análise sociorracial expõe os mecanismos concretos de exclusão.
No próximo e último artigo da série, exploraremos as críticas fundamentais ao próprio projeto de demarcação — de Laudan e Feyerabend às perspectivas decoloniais radicais — e propostas concretas para políticas de ciência e tecnologia centradas na emancipação epistêmica.
“O maior risco não é a falta de demarcação, mas sua instrumentalização para silenciar vozes dissidentes.”
— Robson Rodrigues Carvalho, As três fases do problema da demarcação (2022)
Leia aqui o artigo completo em Academia.edu
Notas:
- CARVALHO, R. R. As três fases do problema da demarcação. Griot: Revista de Filosofia, v. 22, n. 1, p. 227-250, 2022. ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎
- COLLARES, C. A. L.; MOYSÉS, M. A. A. A transformação do espaço pedagógico em espaço clínico. In: ALVES, M. Cultura e saúde na escola. São Paulo: FDE, 1994. ↩︎ ↩︎ ↩︎
- RIBEIRO, C. A. C. Classe, raça e mobilidade social no Brasil. Dados, v. 49, n. 4, p. 833-873, 2006. ↩︎ ↩︎ ↩︎