Empreendedorismo é totalitarismo

Empreendedorismo: a nova face do totalitarismo

Maurício Moura

Imagine acordar e, antes mesmo de escovar os dentes, checar suas métricas: horas de sono, tempo no celular, lista de tarefas. Você não está mais vivendo, está gerenciando um negócio. Esta não é uma distopia futurista, mas o presente vendido como ‘o único caminho’.

Um mantra que se repete em todos os cantos: “seja empreendedor”. Esta palavra mágica aparece como solução para o desemprego, para crises econômicas e até como caminho para encontrar propósito na vida. Mas o que parece um conselho inofensivo esconde uma das operações ideológicas mais poderosas de nosso tempo. A filósofa Marilena Chauí nos ajuda a enxergar o que está por trás desse discurso: o empreendedorismo é a expressão mais pura do que ela chama de totalitarismo neoliberal1.

Diferente dos velhos totalitarismos que usavam a força bruta, este novo tipo age de maneira sorrateira. Ele não impõe pela violência, mas pela sedução. Vai transformando tudo em negócio, da educação aos relacionamentos, da cultura aos nossos sonhos mais íntimos. Aos poucos, todas as esferas da vida vão sendo dominadas pela lógica do mercado, onde só valem as regras da eficiência, produtividade e competitividade.

A engrenagem ideológica

Você realmente acredita que a precariedade é uma escolha livre, ou uma escolha forçada num jogo sem alternativas?

A ideologia, como explica Chauí, funciona virando a realidade de cabeça para baixo2. Ela pega coisas que foram criadas por interesses humanos concretos e as apresenta como se fossem leis naturais, inevitáveis. É exatamente isso que faz o discurso empreendedor: nos convence que a mercantilização de todas as esferas da vida não é uma escolha política, mas um destino inexorável.

No Brasil, esse discurso cai em solo fértil. Nossa herança cultural autoritária, com sua cultura da cordialidade (que disfarça hierarquias sob tapete de falsa harmonia), personalismo (que troca o público pelo privado) e mito da democracia racial (que naturaliza desigualdades), facilita a aceitação passiva do “empresário de si mesmo”3. A autoexploração vira “realização pessoal”, a precarização vira “oportunidade”.

Três mecanismos principais sustentam essa engrenagem: a dissolução da política na economia (transformando cidadãos em clientes e debates públicos em questões de gestão), a culpabilização individual (fazendo cada um se sentir único responsável por seus fracassos) e a naturalização da precarização (vendendo insegurança como “liberdade”)45.

Totalitarismo no quotidiano

Esta ideologia não vive apenas no mundo das ideias, mas se materializa concretamente em instituições e práticas que transformam esferas da vida em extensões do mercado.

A escola virada negócio

A educação virou alvo prioritário dessa ideologia. A reforma do ensino médio, por exemplo, incorporou “componentes empreendedores” que substituem a formação humanística por competências de mercado. As escolas viram fábricas de “capital humano”, formando jovens para competir, não para pensar criticamente. O direito à educação vai sendo trocado por “investimento individual”.

A precarização como “liberdade”

A uberização é o exemplo mais claro. Trabalhadores viram “microempreendedores”, palavra mágica que transfere todos os riscos para eles enquanto os convence que estão “livres” da escravidão do emprego formal. Os direitos trabalhistas, conquistados com décadas de luta, viram “custos operacionais”. A exploração é embrulhada em papel de presente com o nome “autonomia”.

A fabricação do homem-empresa

A operação mais insidiosa acontece dentro das nossas cabeças. Revistas, cursos de coaching e redes sociais constroem diariamente a figura do “jovem empreendedor” como ideal a ser seguido6. Internalizamos a competição como valor supremo. Transformamos autocuidado em auto-otimização, relações humanas em networking. Quando não damos conta, a culpa é nossa: o fracasso é medicalizado como depressão, nunca como resultado de uma estrutura social doente.

Se o empreendedorismo é tão bom assim, por que nos sentimos tão exaustos? Por que a promessa de liberdade soa como uma pressão constante?

Desmontando os argumentos

“Mas o empreendedorismo emancipa!”, dizem alguns. Na verdade, ele converte direitos em dívida. A promessa de mobilidade social esconde que o jogo está viciado: quem tem capital e network leva vantagem. A precarização vira “escolha livre”, enfraquecendo a ação coletiva que sempre foi a verdadeira fonte de conquistas.

“É um motor de inovação!”, alegam outros. Mas essa inovação serve ao lucro do grande capitalista, não às necessidades sociais. A tal “eficiência” frequentemente significa precarizar trabalhadores e cortar serviços públicos, aprofundando desigualdades7.

“É sobre livre escolha!”, insistem. Ignoram como nosso desejo é fabricado por um aparato midiático que nos convence que a autoexploração é a única via de realização. Num contexto de alternativas escassas, “escolher” empreender é muitas vezes só uma estratégia de sobrevivência.

O que estamos perdendo no caminho

Quando foi a última vez que você se encontrou com amigos sem pensar em ‘networking’?

A democracia vai sendo esvaziada. Conflitos políticos são transferidos para o Judiciário, onde técnicos tomam decisões que deveriam ser debatidas publicamente. Parlamentos perdem importância para bancos centrais e agências reguladoras não eleitas. A política vira gestão técnica.

Psicologicamente, a conta é pesada. A exigência de auto-otimização permanente gera narcisismo e depressão. Criamos expectativas irreais de sucesso e, quando não atingimos, nos culpamos. Laços de solidariedade se rompem, substituídos por redes de contato calculistas. Os outros viram obstáculos ou oportunidades, nunca companheiros.

Quantas das suas escolhas são realmente suas, e quantas foram moldadas por uma máquina de desejo que vende a autoexploração como empoderamento?

É possível resistir

O primeiro passo é desnaturalizar essa lógica. O empreendedorismo não é destino inevitável, mas projeto político que pode e deve ser contestado. Precisamos resgatar a noção de bem comum contra a competição generalizada, repolitizar espaços que foram tomados pela gestão técnica.

Alternativas existem e resistem: na luta histórica dos sindicatos por direitos coletivos, na força contestadora do movimento estudantil, em movimentos pela defesa do serviço público e em experiências educacionais que formam para a cidadania crítica. O desafio permanente é fortalecer essas iniciativas contra a cooptação pela lógica mercantil.

Outra sociedade não só é possível como necessária. Cabe a nós construí-la, reafirmando a dignidade humana contra a tentativa de transformar cada sonho, cada relação e cada minuto da nossa vida em uma mercadoria a ser otimizada e monetizada.

Leia o artigo completo:
Empreendedorismo e totalitarismo: a erosão da democracia no neoliberalismo


Referências

  1. CHAUÍ, M. Neoliberalismo: a nova forma do totalitarismo. A Terra é Redonda, São Paulo, 06 out. 2019. ↩︎
  2. CHAUI, M. O que é ideologia. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, v. 13, 2001. ISBN 978-8511010138. ↩︎
  3. CHAUI, M. Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007. ISBN 978-8586469275. ↩︎
  4. PUELLO-SOCARRÁS, J. F. A Chamada “Acumulação” Empreendedora: o Estado Empreendedor do Novo Neoliberalismo no século XXI. Revista Educação e Políticas em Debate, Uberlândia: Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia, v. 11, n. 3, p. 1133-1155, 19 maio 2022. ↩︎
  5. CASTRO, M. R.; GAWRYSZEWSKI, B.; DIAS, C. A. A ideologia do empreendedorismo na reforma do ensino médio brasileiro. Revista Trabalho Necessário, v. 20, n. 42, p. 1-25, 22 jul. 2022. ↩︎
  6. TOME, A. S. Identidades e representações sociais na construção do “jovem empreendedor” nas mídias de negócios. Revista Comunicação Universitária, Belém, v. 3, n. 1, 2023. ↩︎
  7. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2017. ISBN 978-8575594964. ↩︎

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