A extrema-direita e a mentira como estratégia política

Maurício Moura

A desinformação tem sido frequentemente tratada como um subproduto inevitável das redes sociais: um vírus digital que infecta ecossistemas midiáticos e corrói a confiança nas instituições. No entanto, um estudo pioneiro publicado no International Journal of Press/Politics, analisando 32 milhões de tweets de parlamentares em 26 países entre 2017 e 2022, demonstra que a desinformação não é um fenômeno generalizado: é, sobretudo, uma estratégia política articulada por partidos populistas de extrema-direita 1 2.

A pesquisa, conduzida por Petter Törnberg (Universidade de Amsterdã) e Juliana Chueri (Universidade Livre de Amsterdã), revela que a propagação de informações falsas está intrinsecamente ligada a um projeto político específico: aquele que combina populismo, ultradireitismo e hostilidade às instituições democráticas 1 3.

Big Data e ciência política comparada

A força desta pesquisa está em sua abordagem metodológica inovadora, que combina análise de big data com técnicas rigorosas de ciência política comparada.

Base de dados sem precedentes: os pesquisadores coletaram e analisaram 32 milhões de tweets de 8.198 parlamentares de 26 democracias, incluindo Estados Unidos, Brasil, Alemanha, França e Reino Unido. Os dados incluíam 18 milhões de URLs compartilhadas, permitindo rastrear a disseminação de fontes de baixa credibilidade 1.

Integração com fontes consolidadas: os dados do Twitter foram cruzados com bases consolidadas da ciência política:

  • ParlGov: para posicionamento ideológico partidário
  • V-Dem: para indicadores de qualidade democrática
  • Media Bias/Fact Check: para avaliar a factualidade das fontes

Análise multinível com pontos de interseção aleatórios: para isolar o efeito de variáveis contextuais, os pesquisadores usaram modelos estatísticos multinível com pontos de interseção aleatórios por país. Essa abordagem controla diferenças nacionais não observadas e permite generalizações mais robustas 1.

Pontuação de factualidade: cada partido recebeu um “factuality score”: uma medida agregada da confiabilidade das fontes compartilhadas por seus parlamentares. Quanto menor a pontuação, maior a propensão a disseminar desinformação 1.

A extrema-direita como epicentro da desinformação

O estudo identificou que partidos populistas de extrema-direita são os principais disseminadores de desinformação em todos os 26 países analisados. Essa correlação mostrou-se consistente e estatisticamente significativa 1 3. Enquanto a direita mostrou forte associação com desinformação, as correntes de esquerda com viés populista não apresentaram correlação significativa com a propagação de informações falsas. A direita não populista também não se destacou nessa prática 1.

A pesquisa demonstra que a desinformação é instrumentalizada estrategicamente por partidos radicais de direita para desestabilizar instituições democráticas, cultivar narrativas de ameaça cultural e reforçar identidades grupais exclusivas 1

Fiabilidade

O trabalho se baseia em uma série de premissas que o tornam fonte altamente fiável:

Amostra unívoca e representativa: com 32 milhões de tweets de 26 países, a pesquisa evitou viés amostral e generalizações apressadas, representando um avanço frente a estudos focados em casos isolados1.

Abordagem comparativa sistêmica: a integração de dados comportamentais com indicadores políticos permitiu isolar o efeito de ideologias específicas—e não apenas de variáveis contextuais1.

Robustez Estatística: os modelos multinível com interceptos aleatórios controlaram variações entre países, garantindo que os resultados refletissem tendências transnacionais1.

Transparência e reprodutibilidade: Os dados e metodologia são publicamente acessíveis, permitindo escrutínio e replicação: um marco para estudos na área 1.

Para além do diagnóstico

Expor o fato de que a extrema-direita mente e usa a mentira como método não basta. É preciso uma estratégia de defesa da democracia e da Ciência.

Reorientar o combate à desinformação: se a desinformação é estratégia política e não mero “vírus digital”, políticas de moderação de conteúdo são insuficientes. É necessário enfrentar incentivos políticos e econômicos que a alimentam 3.

Responsabilização partidária: partidos radicais de direita devem ser publicamente responsabilizados por sua instrumentalização sistêmica da desinformação 2.

Regulação de ecossistemas midiáticos: o estudo destaca a simbiose entre direita radical e mídias alternativas, que amplificam narrativas falsas e criam bolhas ideológicas 4.

Revitalização da democracia: a desinformação extrema-direita é sintoma de uma crise de legitimidade democrática mais profunda, alimentada por desigualdade e concentração de poder1.

Desinformação como projeto político

A pesquisa de Törnberg e Chueri desloca a discussão sobre desinformação do campo técnico para o político. Não se trata de um “defeito” das redes sociais, mas de uma arma ideológica empunhada por atores específicos: aqueles cujo projeto depende da erosão da verdade factual e da institucionalidade democrática.

“A desinformação não é universal ou uma condição geral de nosso ecossistema midiático. Em vez disso, está especificamente associada a partidos populistas de direita radical que a espalham como uma estratégia política” 3.

Para além das respostas técnicas (checagem de fatos, moderação de conteúdo), este estudo exige respostas políticas: reforço do jornalismo público, regulamentação de plataformas e, sobretudo, reconstrução de pactos democráticos que restaurem a confiança social e a autoridade dos fatos.

A desinformação não é um acidente: é um projeto. E só com outro projeto democrático, igualitário e baseado em evidências poderemos vencê-la.


Referências

  1. TÖRNBERG, Petter; CHUERI, Juliana. When Do Parties Lie? Misinformation and Radical-Right Populism Across 26 Countries. The International Journal of Press/Politics, 13 jan. 2025.
  2. HENLEY, Jon. Far-right populists much more likely than the left to spread fake news – study. The Guardian. 11 fev. 2025.
  3. UNIVERSITY OF AMSTERDAM. Radical right populists deliberately undermining democracy with misinformation. 20 jan. 2025.
  4. DOLAN, Eric W. Political lies have a pattern – and radical-right populist parties are leading the charge. PSYPOST. 16 abr. 2025.

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