Close-up realista de uma prensa hidráulica com um cifrão dourado esmagando uma cabeça humana. Da mente pressionada, extrai-se um fio neuronal dourado que é transformado pela própria máquina em um cristal bruto. Metáfora visual crítica sobre como o capitalismo neoliberal pressiona a saúde mental e depois mercantiliza o sofrimento através de pseudociências.

Ansiedade pós-pandemia e o negócio da pseudociência

Maurício Moura

A pandemia de COVID-19 expôs, de forma brutal, a fragilidade das estruturas sociais e a vulnerabilidade da mente humana diante da incerteza radical. O isolamento, o luto, o medo da doença e a instabilidade econômica global geraram um aumento alarmante nos casos de ansiedade e depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25% apenas no primeiro ano da crise sanitária 1.

Em um cenário onde a saúde mental se tornou uma crise de grandes proporções, e onde os sistemas públicos de saúde frequentemente falham em oferecer atendimento adequado e acessível, surge um vácuo. E é nesse vácuo que floresce um mercado lucrativo de pseudociências, pronto para explorar a dor e a busca desesperada por soluções rápidas e milagrosas. O sofrimento psíquico, antes uma questão de saúde pública, é rapidamente transformado em mercadoria.

A crise inerente do Capitalismo e o adoecimento

Não podemos dissociar o aumento da ansiedade da lógica capitalista que precariza a vida e exalta a performance individual. Como aponta o sociólogo Elton Corbanezi, o sistema exige um indivíduo cada vez mais performático, que não apenas cumpra metas, mas as supere, gerando um esgotamento total dos recursos psíquicos 2. A pandemia apenas intensificou essa pressão, somando o trauma coletivo à insegurança financeira e social.

Essa falha estrutural do sistema, que adoece o trabalhador pela exploração e pelo medo do descarte, é o terreno fértil para o charlatanismo. As terapias pseudocientíficas não buscam resolver as causas sociais do sofrimento (desigualdade, precarização, isolamento), mas sim vender uma solução individualizada e mágica para o sintoma, promovendo uma perigosa despolitização da dor.

Este mercado, no entanto, não explora apenas uma carência material ou uma falha institucional. Ele se alimenta de uma profunda crise epistemológica e de sentido agravada pelo capitalismo tardio. A descrença nas instituições, a erosão dos laços comunitários e o colapso de grandes narrativas de progresso (um terreno fértil para o que alguns filósofos caracterizam como um niilismo pós-moderno) criam um vácuo existencial. As pseudociências, com suas promessas de significado fácil, conexão cósmica e controle sobre o destino, oferecem uma metafísica de boutique para preencher esse vazio. Elas são a mercadoria perfeita para uma época que, tendo destruído todas as certezas, se vê ávida por novas mitologias, mesmo que estas venham embaladas em jargão científico e sejam vendidas a preço de ouro.

A retórica quântica e a desonestidade intelectual

Dentre as pseudociências em ascensão, destacam-se aquelas que se apropriam indevidamente da linguagem científica, como o notório “coaching quântico” ou a “terapia de frequência”.

A física quântica é uma área complexa que lida com o comportamento da matéria nas escalas atômica e subatômica. Não possui qualquer aplicação comprovada no campo da autoajuda, desenvolvimento pessoal ou da saúde mental para além dos equipamentos médicos baseados em princípios físicos, como o raio-X ou a ressonância magnética 3.

A apropriação do termo “quântico” por charlatães é um ato de desonestidade intelectual. Ele é usado para conferir uma aura de complexidade, modernidade e inevitabilidade mágica a métodos que, na melhor das hipóteses, se baseiam no Efeito Placebo e, na pior, podem retardar ou substituir um tratamento médico e psicológico baseado em evidências científicas.

Essa retórica se baseia em uma falácia simples e sedutora: se somos feitos de átomos e átomos obedecem às leis da física quântica, então nossos pensamentos, sentimentos e destino podem ser alterados por uma “vibração” ou um “salto quântico” da mente. Essa é a base de um idealismo perigoso que ignora a materialidade da doença e a complexidade do cérebro, vendendo a falsa ideia de que a “cura” depende apenas da força de vontade individual.

A fuga racional e a importância do rigor

A busca por soluções fáceis e rápidas é compreensível em um momento de tanto sofrimento. Contudo, a função do pensamento crítico é justamente expor o mecanismo pelo qual essa busca desesperada é cooptada pelo mercado.

A demarcação entre ciência e pseudociência não é sempre um abismo, mas um campo de disputa. O próprio Sistema Único de Saúde (SUS), em uma decisão política complexa, incorporou Práticas Integrativas e Complementares (PIC), como a acupuntura. É vital, porém, não confundir essa incorporação, que para algumas práticas é respaldada por evidências limitadas para condições específicas (como dor lombar), com um aval genérico para o vasto mercado de curas milagrosas. Esta inclusão reflete, em parte, o que o filósofo Ivan Illich chamou de “expropriação da saúde”: a transformação do mal-estar da vida em um domínio técnico de especialistas, sejam eles médicos ou gurus.

O perigo está na medicalização da existência por ambos os lados. Enquanto a pseudociência vende soluções mágicas, a indústria da pseudociência é o sintoma de que a saúde pública, estrangulada por cortes de verba e pela lógica da mercadoria, está falhando em oferecer um cuidado verdadeiramente integral e baseado em evidências robustas, abrindo espaço para que o capital preencha o vazio com seus placebos de luxo.

A pseudociência, em última instância, é uma fuga da racionalidade. Ela oferece certezas dogmáticas onde a ciência apresenta probabilidades e incertezas. Ela oferece controle ilusório onde a realidade é caótica. Ao fazer isso, não apenas drena recursos financeiros de quem já está vulnerável, mas, de forma mais perversa, culpabiliza o indivíduo pelo seu fracasso: se a “terapia quântica” não funcionou, a culpa é sua por não ter vibrado na frequência correta.

A antítese verdadeira, portanto, vai além da defesa abstrata da ciência. É uma práxis – uma ação reflexiva e transformadora – que une a luta por um SUS 100% público e estatal, baseado em evidências, com a organização coletiva para transformar as condições materiais que adoecem. A saúde mental coletiva não será alcançada em um consultório de ‘coaching quântico’ nem apenas no divã de um psicanalista, mas sim na ação política organizada que combate a precarização do trabalho, a especulação imobiliária que gera insegurança e a destruição ambiental que alimenta a angústia ecológica. Cuidar de si, nesta perspectiva, torna-se indissociável da luta para cuidar do coletivo e transformar a estrutura social patogênica. A cura, em última instância, é um ato político.


Referências

  1. OPAS/OMS. Pandemia de COVID-19 desencadeia aumento de 25% na prevalência de ansiedade e depressão em todo o mundo. Organização Panamericana da Saúde. 2 mar. 2022.
  2. LACERDA, Nara. Elton Corbanezi: ‘Capitalismo leva a um esgotamento total de recursos naturais e psíquicos’. Brasil de Fato. 21 set. 2024.
  3. IFSC VERIFICA. A Física Quântica pode mesmo ajudar a nossa saúde?. Instituto Federal de Santa Catarina. 28 nov. 2023.

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