A Revoada das Galinhas Verdes: 91 anos da batalha antifascista

Em 7 de outubro de 1934, a esquerda brasileira mostrou que a ação direta unificada pode derrotar o fascismo. O legado da Batalha da Praça da Sé, há nove décadas, é um manual de luta mais urgente do que nunca.

Maurício Moura

Hoje, completam-se 91 anos de um dos episódios mais emblemáticos da luta política brasileira: a Batalha da Praça da Sé, popularmente conhecida como a “Revoada das Galinhas Verdes”. Mais do que uma data histórica, o evento representa um marco tático e estratégico para as forças progressistas. Em um cenário de ascensão global da extrema-direita, a vitória antifascista de 1934 não é apenas uma memória, mas um manual de ação a ser revisitado. O que torna esse episódio, ocorrido há nove décadas, uma ferramenta analítica tão potente para decifrar os desafios do presente?

A “Revoada” não foi um conflito espontâneo, mas o ápice de um processo de organização consciente. A Frente Única Antifascista (FUA), embora não fosse uma direção centralizada e hegemônica, aglutinou desde socialistas e comunistas até anarquistas e trotskistas em torno de um objetivo comum: impedir pela força a manifestação pública da Ação Integralista Brasileira (AIB) na Praça da Sé 1. A unidade, portanto, não nasceu de uma conciliação entre cúpulas partidárias, mas da pressão orgânica das bases e da percepção material de um inimigo comum que ameaçava a existência de todos.

O contexto: quando o fascismo bateu à porta

A década de 1930 no Brasil era um caldeirão em ebulição. A crise do liberalismo, deflagrada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, criou um vácuo de sentido político e um terreno fértil para projetos autoritários. Getúlio Vargas, no poder desde a Revolução de 1930, conduzia um governo centralizador que navegava entre as pressões das oligarquias tradicionais, do tenentismo e de um movimento operário em radicalização.

Nesse cenário, Plínio Salgado fundou a Ação Integralista Brasileira (AIB) em 1932, uma versão nacionalizada e tropical do fascismo europeu 2. Financiada por banqueiros e industriais, a AIB adotou o repertório clássico dos movimentos de massa: uniformes (as camisas-verdes), saudações (“Anauê!”), símbolos (o sigma) e uma retórica ultranacionalista que brandia o lema “Deus, Pátria e Família” 3. Chegou a congregar, em seu auge, entre 500 mil e 1 milhão de filiados, tornando-se a primeira agremiação política de massa do país e uma ameaça concreta 3.

A resposta da esquerda à AIB foi inicialmente fragmentada. O Partido Comunista do Brasil (PCB), seguindo orientações sectárias da Internacional Comunista em seu “Terceiro Período”, via outras organizações de esquerda como “social-fascistas” e relutava em ações conjuntas, preferindo atuar através de seu Comitê Antiguerreiro 4. Paralelamente, anarquistas da Federação Operária de São Paulo (FOSP) articulavam seu próprio Comitê Antifascista 5.

A virada estratégica veio com a iniciativa de organizações como a Liga Comunista Internacionalista (LCI), de orientação trotskista, e do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que compreenderam a necessidade premente de uma frente ampla. Foi sob a égide da Frente Única Antifascista (FUA), formalizada em 25 de junho de 1933, que essas correntes diversas encontraram um mínimo denominador comum para a ação 4. A unidade, portanto, não apagou as divergências ideológicas, mas as subordinou a uma necessidade tática incontornável.

O dia em que o povo botou o fascismo para correr

Os integralistas marcaram um comício para o dia 7 de outubro de 1934 na Praça da Sé, em São Paulo, para celebrar os dois anos do seu manifesto fundador 5. A FUA, tão logo teve conhecimento, convocou uma contramanifestação para o mesmo local e horário, com o objetivo explícito de dissolver o ato da AIB 1. A preparação foi minuciosa: reuniões no Sindicato dos Empregados do Comércio e no Sindicato dos Gráficos, distribuição de panfletos e, crucialmente, a organização de grupos de defesa operária para o confronto inevitável 4.

A estratégia militar foi traçada pelo tenentista João Cabanas, que dividiu as forças antifascistas em três posições principais na praça, atribuindo setores específicos a socialistas, comunistas, trotskistas e anarquistas 5. No dia do confronto, a polícia, em clara parcialidade, lacrou as sedes de sindicatos e posicionou cerca de 400 homens na praça, muitos deles armados com fuzis e metralhadoras 6. Aos gritos de “Fora, galinhas verdes!” dos antifascistas, os integralistas respondiam com seus “Anauê!” 6. O estopim do conflito armado se deu quando tiros de metralhadora foram disparados contra a multidão, matando um guarda civil e ferindo várias pessoas. Em meio ao caos, o jovem comunista Décio de Oliveira foi morto com um tiro na nuca 2.

A morte do camarada, longe de causar pânico, incendiou os ânimos da resistência. Liderados por figuras como Fúlvio Abramo, Mário Pedrosa e o tenentista João Cabanas, os antifascistas partiram para o ataque direto 4. O confronto foi brutal, com tiroteios e o uso de granadas. A vantagem, no entanto, ficou com os antifascistas. Cercados e sem munição, os integralistas entraram em debandada, muitos arrancando e abandonando suas camisas verdes pelas ruas para não serem identificados e agredidos 1.

O saldo foi de sete mortos (três integralistas, dois policiais, um guarda civil e um estudante comunista) e cerca de trinta feridos 3. No dia seguinte, o jornal A Plebe, de orientação anarquista, narrou de forma sarcástica a fuga dos “camisas-verdes” 6. Mas foi o Jornal do Povo, do humorista Barão de Itararé, que cunhou a manchete definitiva para o episódio: “Um integralista não corre: voa” 1. Nascia ali o mito da “Revoada dos Galinhas Verdes”.

Principais organizações envolvidas no confronto

A Frente Única Antifascista (FUA) representou uma coalizão ampla e heterogênea, unindo correntes ideológicas que, em circunstâncias normais, frequentemente se antagonizavam. Sob sua égide, agruparam-se a Liga Comunista Internacionalista (LCI), de orientação trotskista; o Partido Socialista Brasileiro (PSB); o Partido Comunista do Brasil (PCB); anarquistas organizados através da Federação Operária de São Paulo (FOSP); sindicatos combativos, como os dos Gráficos e do Comércio; e a Legião Cívica 5 de Julho. Esta diversidade, longe de ser uma fraqueza, foi a principal força da FUA, demonstrando que a unidade tática em torno de um inimigo comum, o fascismo, era não apenas possível, mas essencial para a vitória 4.

Em oposição direta, a Ação Integralista Brasileira (AIB) apresentou-se como uma força coesa e hierarquizada, com suas milícias paramilitares e a liderança centralizadora de Plínio Salgado. Financiada por setores da burguesia industrial e financeira, a AIB estruturava-se como um movimento de massas, com disciplina férrea e um aparato ideológico que emulava o fascismo europeu, adaptado ao contexto nacional 3. O confronto na Praça da Sé foi, portanto, a materialização do choque entre estes dois projetos antagônicos para o Brasil.

O legado histórico e os paralelos no presente

A Batalha da Praça da Sé teve consequências profundas e imediatas. Foi uma vitória tática e moral esmagadora para o campo antifascista, que saiu do embate fortalecido e mais confiante. O evento impulsionou a formação da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no ano seguinte e, nas palavras do militante Fúlvio Abramo, “impediu, de vez, que a ditadura getulista se servisse [do integralismo] como ponta de lança de seus próprios desígnios hegemônicos e autocráticos” 1. Para a AIB, foi uma derrota desmoralizante que refreou sua expansão e minou sua aura de invencibilidade 6.

Noventa e um anos depois, os ecos da Praça da Sé soam com assustadora familiaridade. O sociólogo Fabio Mascaro Querido, em entrevista à Agência Brasil, alerta para os paralelos: assim como nos anos 1930, a extrema-direita contemporânea se alimenta de uma crise social real e de causas estruturais 2. No entanto, ele faz uma distinção crucial: enquanto o fascismo histórico tinha um projeto de subversão radical do status quo, a extrema-direita de hoje “joga nos limites das regras democráticas, forçando ao máximo as suas margens” 2. É uma advertência: sabemos como começa, mas não como termina.

A lição de unidade da FUA ecoa em iniciativas atuais. O historiador belga Éric Toussaint, um dos incentivadores da Conferência Internacional Antifascista prevista para 2026, defende que “a luta antifascista inclui muitos temas: o rechaço ao genocídio em Gaza, a denúncia do negacionismo climático, a resistência aos ataques contra as conquistas das mulheres e da população LGBTQI+” 2. É o reconhecimento de que o inimigo é o mesmo, ainda que suas máscaras sejam diversas.

A pergunta que fica, passadas nove décadas, não é se a esquerda brasileira será capaz de repetir a unidade tática da FUA, ela já demonstrou que é, em diversos momentos. A questão é se será capaz de aprender com a história para construir um projeto de sociedade que não apenas enfrente o fascismo, mas supere as condições que o geram. A Revoada das Galinhas Verdes nos ensina que, quando unidas, as forças do trabalho podem vencer batalhas cruciais. O desafio que permanece é ganhar a guerra.


Referências

  1. MEMORIAL DA DEMOCRACIA. Praça da Sé tem voo de ‘galinhas-verdes’. São Paulo: 2024.
  2. CORREIA, Eduardo Luiz. Batalha da Sé ou “Revoada dos Galinhas Verdes” completa 90 anos. Agência Brasil. São Paulo: 07 out. 2024.
  3. DOMINGUES, Joelza. Batalha da Praça da Sé, integralistas x antifascistas. Ensinar História.
  4. BARROSO, Jean. História da Revoada dos Galinhas Verdes: a Frente Única que derrotou o fascismo em 1934 no Brasil. Esquerda Diário. São Paulo: 10 out. 2021.
  5. ROCHA, Bruno. 80 anos da batalha da praça da Sé. Esquerda Online. 26 set. 2014.
  6. VEIGA, Edison. A ‘batalha da praça da Sé’, que opôs fascistas e antifascistas há 90 anos no centro de SP. BBC News Brasil. Londres: 07 out. 2024.

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