Plenário da reunião internacional contra a guerra

Paris sedia encontro internacional contra a guerra

Maurício Moura

Nos dias 4 e 5 de outubro, a Cúpula de Paris (Le Dôme de Paris) tornou-se o palco de uma contranarrativa poderosa ao belicismo oficial. O Encontro Internacional contra a Guerra reuniu cerca de quatro mil pessoas, incluindo ativistas, sindicalistas e parlamentares de dezenove nacionalidades, convocados pelo apelo “Nenhum centavo, nenhuma arma, nenhuma vida humana pela guerra!” 1 2. O evento, que combinou uma conferência no sábado com um comício massivo no domingo, tinha um objetivo claro: construir uma frente unificada e internacionalista para combater o genocídio em Gaza e a guerra na Ucrânia, expondo os lucros e as estruturas de poder que as sustentam.

A presença no palco de vozes palestinas, israelenses, ucranianas e russas não foi um mero apelo sentimental à paz. Foi uma demonstração prática e calculada de que a solidariedade de classe pode e deve superar as fronteiras nacionais, criadas e exploradas pela burguesia para dividir os oprimidos 1. Enquanto os governos ocidentais ampliam orçamentos militares em nome da “segurança”, este encontro afirmou que a verdadeira segurança reside na luta coletiva contra um sistema que mercantiliza a vida humana 2.

A própria realização do evento é um sintoma de um descontentamento global que já se manifestava nas ruas. Ele representa a maturação de um movimento fragmentado, que agora busca coordenar-se internacionalmente para enfrentar um inimigo comum. A pergunta que pairou sobre os debates não era se é possível parar a máquina de guerra, mas como mobilizar o poder popular organizado para desativá-la 1.

Para dimensionar a relevância do encontro, é essencial contrastá-lo com as iniciativas de paz das elites. Poucos meses antes, a Cúpula de Londres sobre a Ucrânia reuniu líderes de 16 estados, a UE e a Otan sob o slogan “Protegendo o Nosso Futuro” 3. O resultado foi um compromisso com mais armas, mais sanções e a promessa de “pesados investimentos” na indústria de defesa, um eufemismo transparente para a socialização dos custos e a privatização dos lucros do complexo militar-industrial 3.

A “paz” das elites nada mais é do que a continuação da guerra por outros meios. Enquanto o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciava um pacote de £1.6 bilhão em mísseis, a conferência em Paris desmontava essa lógica belicista a partir de uma perspectiva de classe. O encontro foi, nas palavras de um dos organizadores, “uma resposta clara aos que preparam a guerra, uma resposta daqueles que não aceitam ser carne para canhão” 2. Um delegado alemão foi direto ao ponto: a guerra é um “ataque frontal à nossa classe”, e os 5% do PIB exigidos pela Otan representam o saque dos cofres públicos que deveriam financiar saúde, educação e aposentadorias 1.

Os eixos de uma luta internacionalista

A força analítica do encontro residiu em articular lutas aparentemente dispersas em uma narrativa coerente, revelando os mecanismos universais da dominação imperialista e capitalista.

O genocídio em Gaza e a luta anticolonial

A questão palestina foi o epicentro moral e político do evento. A fala da sindicalista palestina Mahaseen Ned El Hadi, do movimento Standing Together, deixou claro que a solidariedade não se esgota na exigência de um cessar-fogo. Ela rejeitou frontalmente o “Plano Trump” e qualquer solução que perpetuasse a lógica de apartheid, defendendo a criação de um único Estado democrático como a única saída verdadeiramente justa e viável 1.

A crítica contundente ao sionismo veio de dentro, com a jornalista israelense Orly Noy, do B’Tselem, defendendo um acerto de contas com o passado de “apartheid” e denunciando a hipocrisia seletiva do Ocidente. A ovação de pé dada a Stephen Kapos, que traçou paralelos entre o Holocausto de sua família e o genocídio em curso em Gaza, foi um momento de catarse coletiva que selou, no plano emocional, a unidade anti-fascista do congresso 1. O encontrou ecoou o apelo de que “a ordem estabelecida após a Segunda Guerra Mundial se desintegra – política, financeira e militarmente” e que as crises atuais são, em sua essência, crises do capitalismo 4.

A guerra na Ucrânia e a recusa em ser “bucha de canhão”

A narrativa oficial que pinta a guerra na Ucrânia como um conflito maniqueísta entre democracia e autoritarismo foi desmontada pela fala de Andrii, um ativista ucraniano da iniciativa Peace From Below. Seu relato foi um testemunho cru da realidade material da guerra: se retornasse à Ucrânia, seria forçado a servir de “bucha de canhão” para um exército 1. Sua posição, partilhada por um ativista russo, foi a de que a paz só pode ser construída contra os interesses dos governos de ambos os lados das trincheiras, que sacrificam a vida da juventude trabalhadora em prol de seus interesses geopolíticos. A presença da coalizão russo-ucraniana “La paix par en bas” no palco foi a materialização concreta desta posição 4.

A repressão estatal e a resistência sindical

Um fio condutor percorreu os relatos de diversos países: a crescente criminalização do protesto pacífico. Ativistas da Alemanha, Itália, Reino Unido e outros detalharam a intimidação estatal e as proibições de manifestações pró-Palestina, um sinal claro do avanço de um autoritarismo liberal que tolera o dissenso apenas até tocar nos interesses do capital e do estado de guerra permanente 1.

Na contramão da repressão, surgiram exemplos de poder popular. O relato do italiano Potere al Popolo foi emblemático: as greves e os bloqueios de portos por estivadores, que paralisaram o embarque de armas, mostraram que a ação direta da classe trabalhadora é o instrumento mais eficaz para obstruir a máquina de guerra 1. Chris Nineham, da Stop the War Coalition, defendeu a estratégia de pressionar os sindicatos “por baixo” para forçá-los a assumir um papel mais combativo, replicando o sucesso italiano e transformando a indignação em poder de barganha concreto. A Union Juive Française pour la Paix (UJFP) figurou entre as organizações que promoveram ativamente o evento, destacando o caráter plural e internacionalista da mobilização 5.

Solidariedade de classe ou barbárie

O encontro em Paris não se encerrou com uma declaração vaga. Ele aprovou a construção de uma frente unida internacional contra o militarismo e o imperialismo, um espaço permanente de coordenação que já tem seu próximo encontro marcado 1. A constatação de que o movimento anti-guerra é, em última instância, uma luta pelo socialismo foi explícita na fala de um delegado alemão, que ecoou Rosa Luxemburgo: a humanidade enfrenta a escolha entre “socialismo ou barbárie”, e o genocídio em Gaza é a face mais visível desta última 1.

A esperança, no entanto, foi reafirmada na constatação de que a opinião pública majoritariamente rejeita a guerra. Os 110 mil manifestantes na Bélgica, os 500 mil em Roma e os 100 mil em Berlim comprovam que existe um terreno fértil para que esta nova frente internacional floresça 1. O desafio, agora, é transformar a indignação em organização, e a organização em poder capaz de impor uma paz justa, que não seja a paz dos cemitérios ou a paz dos vencedores, mas a paz daqueles que constroem, a partir das ruínas, um mundo sem guerras e sem exploradores.



  1. NICHOLS, Lucy. Paris conference launches international united front against war. Counterfire. Londres: 4 out. 2025.
  2. DAP. Nem um centavo, nem uma arma, nem uma vida humana para a guerra! – Parte 1. Diálogo e Ação Petista. 6 out. 2025.
  3. PIPER, Elizabeth; HOLTON, Kate; MACASKILL, Andrew. UK’s Starmer calls on Europe to step up to secure Ukraine peace. RNZ. Londres: 3 mar. 2025.
  4. INTERNATIONAL MEETING AGAINST WAR. Not a penny, not a weapon, not a human life for war. 6 out. 2025.
  5. UNION JUIVE FRANÇAISE POUR LA PAIX. À Paris (10ème et 15ème), conférence et meeting international contre la guerre. Paris: 2025.

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