Ratinho Júnior roendo a Celepar em cima de uma pilha de dinheiro

Ratinho Júnior vende os dados dos paranaenses em negócio secreto

Governo Ratinho Júnior insiste em leiloar os dados sensíveis de milhões de paranaenses, ignorando alertas judiciais, técnicos e a própria lógica do interesse público.

Maurício Moura

A Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná) não é uma empresa estatal qualquer. Como primeira empresa pública de TI do Brasil, fundada em 1964, ela representa o cérebro digital do Estado: a custódia de informações que vão desde prontuários de saúde até operações de segurança pública. A insistência do governador Ratinho Júnior em privatizá-la, no entanto, não se sustenta em prejuízos ou ineficiência. Pelo contrário: a empresa é lucrativa e superavitária, com lucro líquido de R$ 130 milhões e faturamento de R$ 760 milhões nos últimos dois anos 1. Este processo, aprovado pela Assembleia Legislativa em apenas nove dias sob regime de urgência, representa um caso paradigmático de como o discurso da modernização pode servir para escamotear a liquidação do patrimônio público estratégico.

A farsa da justificativa econômica

A narrativa oficial do governo para a venda baseia-se em dois pilares frágeis: a economia de R$ 19 milhões anuais com a extinção de 40 cargos comissionados e a necessidade de “maior dinamismo” à gestão. Ambas as justificativas desmoronam sob escrutínio mínimo.

Os números contam outra história: a Celepar apresenta lucratividade de 20% – um percentual que “inexiste no mercado hoje em dia”, conforme destacou o deputado Arilson Chiorato 2. A solução para eventuais problemas de gestão de cargos seria política e administrativa, não a venda da empresa. A pressa legislativa e a recusa em dialogar são sintomas de um projeto que não suporta debate público. O presidente da Celepar, André Gustavo Garbosa, foi convidado para múltiplas audiências públicas e não compareceu a nenhuma 3.

O conflito frontal com a lei

O processo de venda esbarra em obstáculo jurídico substancial: a clara violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O §4º do art. 4º da lei é explícito ao determinar que, para fins de segurança pública e repressão a infrações penais, o tratamento de dados não pode ser realizado por pessoa jurídica de direito privado 4.

Não à toa, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) suspendeu o processo via liminar. O conselheiro Lívio Fabiano Sotero Costa apontou “risco de prejuízo econômico, falhas na governança de TI e descumprimento da LGPD5. O Ministério Público do Paraná instaurou investigação, inclusive sobre parceria sem licitação com o Google que pode chegar a R$ 640 milhões.

A monetização dos dados como projeto declarado

Enquanto tenta acalmar a população com promessas de que “nada muda”, a própria gestão da Celepar revela o verdadeiro negócio. O presidente Gustavo Garbosa declarou publicamente que a empresa está “trabalhando forte na monetização de dados dos cidadãos”. Em suas palavras: “a venda de informações é um negócio6.

Essa fala, que trata com naturalidade assustadora a comercialização do patrimônio informacional de 10 milhões de paranaenses, foi criticada pelo Comitê de Funcionários contra a Privatização: “A Celepar processa dados sensíveis e sigilosos. Falar abertamente sobre venda de informações levanta sérias dúvidas sobre segurança e ética”.

Uma batalha pela soberania digital

A resistência à privatização organiza-se em múltiplas frentes: trabalhadores da empresa, oposição política prometendo ADI no STF, e instituições de controle. O que está em jogo no Paraná é um precedente perigoso para toda a federação.

A Celepar prova que tecnologia pública de qualidade, lucrativa e comprometida com o interesse social é possível. Desmontá-la não é ato de modernização, mas de submissão ao capitalismo de vigilância que enxerga cidadãos como minas de dados a serem exploradas. A defesa da Celepar é, no século XXI, a defesa da própria noção de soberania – a compreensão de que alguns ativos são tão estratégicos que sua privatização equivale a entregar a alma digital do Estado.


Referências

  1. RUSCHEL, René. Sob a guarda de terceiros. Carta Capital. São Paulo: 25 set. 2025.
  2. CHIORATO, Arilson. Venda da Celepar ignora privacidade de dados e vanguarda tecnológica. Carta Capital. São Paulo: 13 nov. 2024.
  3. RAMIRES, Manoel Governador Ratinho Jr. marca audiência virtual para tratar da venda de dados dos paranaenses. Brasil de Fato. 12 ago. 2025.
  4. EQUIPE SIGILO. Instituto SIGILO notifica o Governo do Paraná e a Celepar sobre a privatização dos dados dos cidadãos paranaenses. Instituto Sigilo. Curitiba: 6 ago. 2025. ↩︎
  5. CUT-PR. Privatização da Celepar ameaça dados estratégicos e serviços públicos. Central Única dos Trabalhadores do Paraná. Curitiba: 16 set. 2025.
  6. RIBEIRO, Gustavo. Por que o governo do PR encontra resistência para privatizar empresa de dados. Gazeta do Povo. Curitiba: 3 set. 2025.

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