Ilustração em estilo anatômico de uma cabeça humana em perfil, revelando camadas internas com diagramas, padrões culturais e estruturas sociais, representando a religião como construção humana complexa.

A religião além da fé: uma visão científica

Maurício Moura

A religião é uma das forças mais antigas e duradouras da experiência humana. Ela constrói impérios e os derruba, inspira a mais profunda compaixão e justifica a mais brutal violência. Mas, para além da crença ou da descrença individual, o que é a religião, realmente? A resposta oficial, aquela que encontramos na superfície, é uma questão de fé e revelação divina. No entanto, quando aplicamos as lentes da sociologia, da antropologia, da história e da psicologia, uma narrativa muito mais complexa e fascinante emerge: uma narrativa sobre poder, coesão social, medo existencial e a luta pela ordem em um mundo caótico.

Este artigo não busca provar ou refutar a existência do divino. Esse é um terreno metafísico onde a ciência não pode e não deve pisar. Nosso objetivo é mais profundo: desnaturalizar a religião, tratando-a não como um dado sobrenatural, mas como um fenômeno humano, social e histórico, passível de investigação crítica. Quais funções ela desempenha? A quem serve? Como ela se molda e é moldada pelas estruturas de poder? Ao desvendar esses mecanismos, armamos o cidadão com as ferramentas para entender uma das instituições mais influentes de sua vida, seja ele um devoto fervoroso ou um cético declarado.

A lente das ciências humanas

Enquanto o teólogo parte da premissa da existência do divino, o cientista social parte da observação do comportamento humano e das estruturas sociais. A pergunta deixa de ser “Qual deus é o verdadeiro?” e torna-se “O que a crença em um deus (ou deuses) produz na sociedade?”. Essa mudança de perspectiva é revolucionária, pois permite analisar a religião com o mesmo distanciamento crítico aplicado ao Estado ou à economia.

Cola social e fonte de conflito

A sociologia nos fornece algumas das ferramentas mais poderosas para decifrar o papel da religião no tecido social. Os teóricos clássicos não viam a religião como um mero conjunto de dogmas, mas como uma força social fundamental.

Para Émile Durkheim, a religião é, antes de tudo, um “fato social”: uma instituição que exerce coerção externa sobre os indivíduos. Em sua obra fundamental, As Formas Elementares da Vida Religiosa, ele argumenta que a essência da religião não está na crença em deuses, mas na distinção entre o sagrado (o que é separado, proibido e envolto em respeito) e o profano (a vida cotidiana). Os rituais, os símbolos e as cerimônias servem para reunir a comunidade, criar uma consciência coletiva e reforçar os valores que mantêm o grupo coeso. A religião, portanto, é a sociedade adorando a si mesma. É o mecanismo através do qual o grupo reafirma sua unidade e sua força perante o indivíduo. 1

“A religião não é somente um sistema de ideias, ela é antes de tudo um sistema de forças”

Se Durkheim via a coesão, Karl Marx via a dominação, metaforicamente explicitada em sua famosa frase, a religião é o “ópio do povo”. Esta metáfora é frequentemente mal interpretada como um simples anestésico. Na verdade, é mais complexa: o ópio era, à época, tanto um analgésico quanto uma droga de escape. Para Marx, a religião surge do sofrimento real no mundo: a exploração e a alienação inerentes ao modo de produção capitalista. Ela oferece um consolo ilusório, prometendo uma recompensa celestial para os que sofrem na Terra. Dessa forma, a religião desvia a atenção das misérias materiais e desarma a potencial revolta, tornando a exploração mais tolerável e, portanto, perpetuando o status quo das classes dominantes. Em outras palavras, a religião opera uma inversão da consciência: inverte a relação entre o real e o ideal, tornando o mundo material um reflexo do divino, não o contrário 2.

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo.”

Max Weber oferece uma perspectiva complementar, focando na capacidade da religião de gerar mudanças sociais profundas. Em A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, ele demonstra como doutrinas calvinistas como a predestinação e a valorização do trabalho árduo e da frugalidade criaram uma “ética” culturalmente favorável ao surgimento do capitalismo moderno. Diferentemente de Marx, que via a religião como um reflexo da base econômica, Weber argumentou que, sob condições históricas específicas, certas doutrinas religiosas (como a ética calvinista da predestinação e do trabalho árduo) puderam atuar como um fator contingente, mas decisivo, na formação de um novo espírito econômico: aquele que valoriza o acúmulo racional de riqueza não para o consumo, mas como sinal de graça divina 3.

“Se é para encontrar parentesco íntimo entre o antigo espírito protestante e a cultura capitalista moderna, não é em sua (pretensa) ‘alegria com o mundo’, mais ou menos materialista, ou em todo caso anti-ascética que devemos procurá-lo, mas sim, queiramos ou não, em seus traços puramente religiosos”

Essas perspectivas aparentemente antagônicas não se excluem, mas se complementam ao revelar a dialética interna da religião: enquanto Durkheim enfatiza sua função integradora, Marx expõe seu papel ideológico na reprodução das desigualdades. Weber, por sua vez, mostra que essa mesma instituição pode, em certas condições históricas, romper com a ordem estabelecida e impulsionar transformações profundas. A religião, portanto, não é nem pura coesão nem mero instrumento de dominação: é um campo de disputa simbólica onde se travam batalhas por sentido, legitimidade e poder, ora unindo os oprimidos em torno de uma consciência coletiva, ora santificando as hierarquias que os mantêm subjugados.

Ritual, mito e a ordem simbólica

A antropologia leva a investigação para o campo, estudando como a religião funciona em sociedades de todos os tipos.

Bronisław Malinowski, com seu trabalho de campo nas Ilhas Trobriand, observou que a magia e a religião frequentemente aparecem em situações de incerteza e risco. Enquanto o conhecimento técnico é suficiente para a agricultura em águas calmas, a pesca em mar aberto, atividade perigosa e imprevisível, é acompanhada por um complexo ritual mágico. A religião, aqui, funciona como um mecanismo psicológico e social para lidar com a ansiedade e o acaso, fornecendo uma sensação de controle onde o controle técnico é impossível 4.

“Não existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religião e magia.”

Claude Lévi-Strauss, por sua vez, aplicou a análise estrutural aos mitos religiosos. Para ele, os mitos não são histórias infantis ou falsas, mas sistemas lógicos através dos quais as culturas tentam resolver contradições fundamentais da existência humana (como a vida e a morte, a natureza e a cultura). O mito é uma forma de pensamento, uma maneira de dar ordem a um mundo caótico através de narrativas e oposições binárias que se repetem através das culturas 5.

“O mito não tem por função suprimir as contradições, mas sim dar a ilusão de que elas são suprimidas.”

Sigmund Freud oferece uma leitura que complementa as análises sociais. Em O Futuro de uma Ilusão, Freud argumenta que a religião é uma ilusão proveniente de desejos infantis de proteção contra a natureza esmagadora e os perigos da vida social. A figura de Deus seria uma projeção da figura paterna, oferecendo consolo e a promessa de justiça em um universo indiferente. A religião, aqui, é um mecanismo de defesa da psique humana contra a angústia da existência, funcionando paralelamente à função social apontada por Malinowski, porém com um foco na dinâmica inconsciente individual 6.

“A religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; como a da criança, ela derivaria do complexo de Édipo, das relações com o pai.”

Embora partam de ângulos distintos, Malinowski, Lévi-Strauss e Freud convergem em um ponto essencial: a religião como resposta humana à desordem. Para Malinowski, ela acalma a ansiedade diante do acaso. Para Lévi-Strauss, resolve contradições existenciais por meio de narrativas simbólicas. Para Freud, projeta desejos infantis de proteção contra um universo indiferente. Juntas, essas abordagens revelam que o ritual e o mito são tecnologias simbólicas que constroem sentido, estabilizam a psique e organizam o mundo, quase sempre para tornar a vida suportável.

Ferramenta de poder e controle

A história confirma e amplifica as análises da sociologia e da antropologia, mostrando a religião em ação como uma força política incontornável.

A perspectiva da longa duração de Fernand Braudel revela como as estruturas religiosas foram fundamentais para a construção e manutenção do que ele chama de sistemas-mundo. Em Civilização Material, Economia e Capitalismo, Braudel demonstra que a Igreja medieval não era apenas uma instituição espiritual, mas um poder material e econômico de primeira grandeza, com vastas propriedades de terra, controle sobre a cobrança de dízimos e influência direta nas redes de comércio e troca. Seu poder era um dos “tempos longos” que estruturavam a vida material e mental, criando uma geografia estável de poder que sobrevivia às convulsões políticas de “curta duração”. A religião, nesta chave, fornecia a infraestrutura ideológica e logística que permitia a reprodução secular das hierarquias sociais, um alicerce lento e profundo sobre o qual as economias e os impérios se erguiam 7.

“A Igreja foi, durante séculos, o maior dos senhores feudais”

Carlo Ginzburg, em O Queijo e os Vermes, oferece uma perspectiva diametralmente oposta e complementar: a micro-história. Através do estudo do caso do moleiro Menocchio, perseguido e executado pela Inquisição, Ginzburg expõe a luta da instituição religiosa para domar e uniformizar a cultura popular. O que estava em jogo não era apenas a perseguição a uma heresia específica, mas um projeto hegemônico de aniquilar cosmovisões alternativas que desafiavam o monopólio da Igreja sobre a interpretação do mundo. O processo contra Menocchio não é um mero episódio de repressão, mas a face visceral de um aparelho de controle que atuava no nível da aldeia, do indivíduo e de sua imaginação, mostrando como o poder religioso se exercia através da censura, do interrogatório e da fogueira para moldar a consciência desde suas raízes mais íntimas 8.

“O tribunal eclesiástico não se limitava a reprimir as opiniões heréticas, mas procurava destruir até as raízes uma cultura popular autônoma que escapava ao seu controle.”

O “Direito Divino dos Reis” na Europa medieval é um exemplo cristalino. A doutrina que legitimava o poder absoluto do monarca como derivado diretamente de Deus é uma aplicação prática da teoria marxista: a religião santificando o poder secular, tornando a obediência ao rei um dever religioso. A inquisição, por sua vez, mostra o lado brutal desse controle: a fusão entre poder teológico e poder estatal para eliminar dissidências e homogeneizar o pensamento, onde a heresia era tratada como um crime contra o Estado.

A “Teologia da Prosperidade” moderna é outro fenômeno revelador. Esta vertente do neopentecostalismo, que associa bênção divina ao sucesso financeiro, pode ser lida como uma inversão perversa da ética protestante weberiana em um contexto capitalista tardio e hiperindividualista. Ela não apenas justifica a riqueza, mas frequentemente culpa os pobres por sua própria falta de fé, espiritualizando a desigualdade social e despolitizando as reivindicações por justiça econômica 9.

A religião, vista pela lente da história, revela-se como um aparelho de hegemonia: ora estrutura de longa duração que sustenta impérios, ora mecanismo de microcontrole que esmaga cosmologias dissidentes. Se o Direito Divino dos Reis santificava a obediência ao poder secular, a Inquisição punia até os pensamentos que escapavam à ortodoxia, mostrando que o controle religioso opera tanto no plano institucional quanto no íntimo da subjetividade. Hoje, na Teologia da Prosperidade, essa lógica se atualiza: a fé é convertida em moeda, a pobreza em castigo espiritual e a desigualdade, em destino divino. Longe de ser um refúgio apolítico, a religião aparece aqui em sua função mais crua: uma tecnologia de governança que naturaliza hierarquias, desvia a revolta e recicla a dominação sob a roupagem do sagrado.

A atualidade da teoria na financeirização da fé

As teorias clássicas revelam-se ferramentas surpreendentemente atuais para decifrar as transformações religiosas do século XXI. O neopentecostalismo e sua Teologia da Prosperidade representam a culminação histórica de tendências há muito identificadas pela análise crítica. Esta vertente opera uma profunda financeirização da subjetividade, onde a fé é metricamente convertida em investimento espiritual, cujo retorno financeiro e bem-estar material são apresentados como bênçãos divinas inevitáveis. Se a ética protestante weberiana via o sucesso como sinal passivo de eleição divina, a Teologia da Prosperidade transforma a riqueza em direito ativo do fiel que ‘semeia’: uma inversão que substitui a disciplina calvinista pelo consumo espetacular da graça. Tal teologia transforma o próprio relacionamento com o divino em uma transação econômica, espiritualizando o sucesso material e patologizando a pobreza como falha de fé ou maldição a ser quebrada financeiramente.

Esta mercantilização do sagrado anda de mãos dadas com um fundamentalismo político de caráter transnacional. Grandes igrejas neopentecostais atuam como atores políticos de peso, formando alianças orgânicas com projetos neofascistas e antidemocráticos, como o bolsonarismo e o trumpismo. Oferecem base de massa e legitimação “moral” em troca de influência política e isenções fiscais, numa simbiose perversa entre o púlpito e o poder. Este complexo religioso-político, que também encontra ressonância na extrema-direita sionista que governa Israel e promove o genocídio dos povos da Palestina, instrumentaliza Deus como garantia de um projeto de sociedade excludente, mostrando como a religião, longe de fenômeno meramente espiritual, é um campo decisivo de luta ideológica e projeto de poder na fase imperialista do capitalismo.

A busca do empoderamento do indivíduo

O que emerge da análise científica da religião não é uma simples negação do sagrado, mas uma compreensão profunda de sua dimensão humana. A religião é um fenômeno multifacetado: é cola social (Durkheim) e instrumento de dominação (Marx). É força de transformação histórica (Weber) e mecanismo para lidar com a ansiedade (Malinowski). É estrutura lógica para entender o mundo (Lévi-Strauss) e arma ideológica histórica para a classe dominante.

Entender essas funções não é um exercício de cinismo, mas de libertação intelectual. Permite que o fiel questione as estruturas de poder dentro de sua própria comunidade religiosa e que o agnóstico compreenda a força profunda dessas instituições. Ao desmontar a religião como objeto de estudo, a ciência não a destrói, mas nos devolve a autonomia para analisá-la criticamente, recusando-se a aceitar suas versões oficiais sem uma investigação rigorosa.

Em um mundo onde narrativas religiosas são instrumentalizadas para legitimar guerras e políticas de exclusão, esse desvendamento não é apenas acadêmico, é uma ferramenta essencial para a autodefesa intelectual e a construção de uma sociedade verdadeiramente laica e consciente.


Referências

  1. DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
  2. MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo. 2014.
  3. WEBER, Max. A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo. 1904.
  4. MALINOWSKI, Bronisław. Magia, Ciência e Religião. Lisboa: Edições 70. 1984.
  5. LÉVI-STRAUSS, Claude. O Cru e o Cozido. São Paulo: Zahar. 1964.
  6. FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão (Psicanálise das Religiões). Rio de Janeiro: Guanabara. 1934.
  7. BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo – Séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
  8. GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
  9. SALES, Bismark Junior et al. Teologia da Prosperidade como instrumento de mercantilização da fé. Revista FT. 27 (127). out. 2023. DOI 10.5281/zenodo.10049599

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