A religiosidade e o Livre Pensamento são contraditórios?

Queria começar esse blog com um tema pra limpar o meio de campo, pra clarificar as coisas.

Nos últimos tempos têm ganhado destaque uma série de ações anti-científicas, como a lei do Tenessee que permite o ensino do criacionismo nas escolas, a PEC do deputado João Campos (PSDB-GO) que pretende dar o direito de associações religiosas de tentarem derrubar leis pelo Supremo ou absurdos do tipo, inclusive com declaração editorial do SBT que afirma que quem defende o Estado Laio é intolerante, persegue os cristãos e não tem o que fazer.

Isso somado à Internet, que possibilitou que as pessoas pudessem falar suas achologias a torto e a direito (como o Olavo de Carvalho que quer defender que a terra está fixa no centro do universo).

Bom, essas ações são tomadas na sua maior parte por pessoas que se utilizam de estandartes religiosos para justificar o ataque à ciência, às minorias e aos direitos. Só que, apesar do barulho que fazem, esses não representam a totalidade dos religiosos.

A Navalha de Ockham

Guilherme de OckhamA Navalha de Ockham (ou principio da pluralidade desnecessária ou ainda Lei da Parcimônia) é um princípio lógico que defende a simplicidade nas teorias científicas, ou seja, defende que todas as premissas não fundamentais à explicação de um conceito devem ser descartadas. Assim, assume que a teoria com menos premissas verdadeiras e menos entidades deve ser a correta.

Em sua obra chamada Ordinatio, Ockham defendeu que todo conhecimento racional é baseado na lógica e deve usar os dados captados a partir dos sentidos.

Apesar de não levar em conta a falibilidade dos sentidos humanos, esse foi um princípio para o método científico, já que entende a necessidade da investigação e da comprovação. Foi o princípio da Navalha que levou à escolha da teoria do eletromagnetismo de Maxwell (ao invés da teoria do éter luminoso).

Bom, onde eu quero chegar com isso? Guilherme de Ockham, criador da Navalha de Ockham, era frade franciscano!

Apesar de não abrir mão de sua fé, o cara entendeu que o mundo só poderia ser analisado a partir da matéria! E isso no século XIV, diga-se de passagem. Ou seja, ele entendeu que os dogmas da igreja não poderiam se sobrepor à realidade visível e comprovável. Claro que isso não foi de graça e ele acabou por ser  excomungado pelo papa João XXII.

Bayt al-Hikmah

Bayt Al-HikmahA tradição islâmica afirma que o Alcorão nunca entra em contradição com a realidade, ou seja, com a ciência. O Alcorão e o Hadith colocam a medicina como “ciência divina”, além de valorizar a matemática e a arquitetura. Valorizam tanto a ciência que, no início do século IX, o califa Harun al-Rashid inaugurou uma enorme biblioteca chamada de Bayt al-Hikmah (Casa da Sabedoria), que se tornou o maior centro intelectual da Idade de Ouro do Islã, sendo um centro de referência no estudo da matemática, astronomia, medicina, alquimia e química, zoologia, geografia e cartografia por dois séculos!

Estes são apenas dois exemplos (dentre centenas), mas aí é que está o “pulo do gato”. O Livre Pensador precisa compreender que sua fé (e seus dogmas) nunca poderão se sobrepor à realidade. O cientista escolhe não utilizar sua fé para explicar a realidade, ele escolhe a lógica e as evidências, legando a fé para sua vida pessoal. Ele assume esse compromisso.

Nos próximos posts quero tratar das armadilhas que nossa “percepção” e nossos dogmas pessoais trazem para o pensamento livre e materialista.

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2 pensamentos sobre “A religiosidade e o Livre Pensamento são contraditórios?

  1. Olá, Porantim, estou lendo este artigo conforme me sugeriu. Alguns comentários. A Ciência é sempre e de tudo benéfica. O único erro que podem, tanto o religioso quanto o cientista, cometer é tentar invadir um o campo do outro. As Ciências Naturais tratam de fenômenos físicos, que envolvem tempo, espaço, matéria e energia. Tudo o que envolve estes elementos é cognoscível pela Ciência. A Religião pressupõe a existência de algo além do plano físico. Veja o conceito milenar de Purusha presente na filosofia hindu, por exemplo. A Religião não deve impor teorias a respeito dos fenômenos que a Ciência já comprovou inverídicos. Pelo contrário, nesta situação deve reavaliar-se e progredir. Normalmente, verá (a Religião) que deve reinterpretar seus próprios escritos com um enfoque sapiencial ao invés de literal. Por exemplo, Adão e Eva. A boa Religião se preocupa com uma verdade diferente daquela com que se ocupa a Ciência. A boa Religião se preocupa com a verdade sapiencial, não a científica, a verdade do Ser, o modo correto e verdadeiro do Ser, que tem implicações mais no campo do comportamento humano, da ética. O religioso não busca apenas a verdade dos fatos. O (bom) religioso está mais preocupado em avaliar e corrigir o modo como percebe e interage com tudo e com todos. E faz isso não por medo de um inferno, mas pela busca natural e inexplicável pelo melhor possível sempre. Isso é Fé e amor a Deus. Como religioso, apenas a título de exemplo de como a religião pode mesmo ser diferente do que infelizmente é para a maioria, uma prisão ao invés de uma libertação, eu, por exemplo não me apego ferrenhamente a qualquer modelo cosmogônico ou cosmológico. Apesar de teorizar, sei e afirmo que é só teoria. Uma tentativa de tornar o teísmo logicamente plausível, mais palatável a razão. Me apego mesmo, apenas ao Amor de Deus como princípio que rege a existência. Você pode alegar as imperfeições, sofrimentos e injustiças presentes nos universos natural e humano contra isso. Mas isso é porque a perspectiva objetiva só leva em conta o que vê e conhece, enquanto para os que cremos, o pior para o homem não é a morte do corpo presente e a dor que logo passa (no máximo o tempo de uma vida). O pior na perspectiva de quem crê é a morte moral; bem como a verdadeira felicidade está para muito além deste mundo. Bom, mas quanto a isso, tudo é teoria, cada um cada um… Essa discussão já foge ao campo científico e entra no campo da opinião.

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    • Caro Interliquia,

      Alegro-me com seu novo comentário.

      Acho que há uma pequena confusão entre religião e cristianismo. Há várias religiões que não tem deuses. Outras têm vários deuses. Da mesma forma, há religiões que têm inferno. Outras não tem.

      A ciência também se preocupa com o comportamento tanto dos animais (etologia) quanto das pessoas (psicologia). A ética e parte da filosofia que pode ser estudada de um ponto de vista metafísico ou não.

      De qualquer forma, você está certo. A ciência e a religião tratam de coisas diferentes e, apesar de poderem se influenciar no campo das hipóteses, elas não conseguem (e nem poderiam) tentar provar coisas uma à outra.

      Um grande abraço e continue nos prestigiando com seus ótimos comentários.

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