O “neoateísmo” e a atualidade do Materialismo Militante

Ultimamente tenho visto muito se falar em “ateísmo militante” ou “neoateísmo”, termos ligados a aqueles que fazem propaganda ou defesa pública da visão cética, científica ou atéia do mundo. Têm-se dito que o zoólogo queniano Richard Dawkins seria o “pai” dessa linha.

Bom, minha compreensão é que não existe esse tal “neoateísmo”, já que o ateísmo nada tem de novo. Principalmente no que concerne ao ateísmo militante. Nessa defesa, publico abaixo um texto de 1922 em que Vladimir I. Lenin defende o ateísmo militante.

O texto foi originalmente escrito para ser publicado na revista Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)  em seu número 3, mas acabou sendo publicado apenas em 1961 (V. I. Lenin. Polnoe Sobranie Sotchinenii, Moscou : GIPL, 1961, Vol. 45, pp. 23 e s.).

Nadežda Krupskaja, esposa de Lênin, escreve um artigo na revista sobre a época em que foi escrito o texto. Segundo ela, Lenin acabara de ler diversos livros e brochuras sobre temas anti-religiosos como Die Christusmythe (O Mito de Cristo), de Arthur Drews, e Profits of Religion (Os Lucros da Religião), de Upton Sincler.

Em 1908, Gueorgui Plekhanov já havia tratado do assunto no livro Os Princípios Fundamentais do Marxismo.

No início, texto se refere a outro texto que já postei aqui (Atenção à Teoria),  publicado na edição número 1 da revista.

Esta versão foi traduzida por Asturig Emil von München. Optei por suprimir as notas do tradutor.


Sobre o Significado do Materialismo Militante

Vladimir I. Lenin

Sobre as tarefas gerais da Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)”, o companheiro Trotsky já disse, em seu artigo publicado no Nr. 1-2 da revista referida, tudo o que é de essencial a respeito e disse-o muito bem.

Gostaria de deter-me em algumas questões que determinam, mais de perto, o conteúdo e o programa do trabalho que é proclamado pela redação dessa revista, em sua declaração introdutória, contida no Nr. 1-2.

Na declaração em realce, fala-se que nem todos os que se reuniram em torno da Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)” são comunistas, mas que todos são efetivamente marxistas conseqüentes.

Creio que essa aliança, estabelecida entre comunistas e não comunistas, é incondicionalmente necessária e determina corretamente as tarefas da revista.

Um dos maiores e mais perigosos erros dos comunistas – tal como, em geral, de todos os revolucionários que executaram exitosamente o início da Grande Revolução – é o de imaginar que a revolução poderia ser levada a cabo apenas pelas mãos dos revolucionários.

Pelo contrário, para a vitória de todo trabalho revolucionário sério, é imprescindível compreender e saber dar vida ao fato de que os revolucionários são capazes de desempenhar tão somente um papel de vanguarda da classe efetivamente avançada e capaz de sobreviver.

A vanguarda cumpre suas próprias tarefas apenas quando consegue não se isolar das massas por ela dirigidas, conduzindo faticamente todas as massas para adiante.

Sem uma aliança, celebrada com os não comunistas, em todos os mais diversos domínios de atividades, não é possível nem sequer falar de qualquer construção comunista exitosa.

Isso se refere igualmente ao trabalho de defesa do materialismo e do marxismo, do qual se ocupa a Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)”.

As principais tendências do pensamento social avançado da Rússia possuem, felizmente, uma sólida tradição materialista.

Para nem falar já mesmo de G. V. Plekhanov, bastará citar N. G. Tchernyshevsky, os quais os populistas modernos – os socialistas populares, os socialistas-revolucionários (SRs.) etc. –  renegaram, a fim de rastejaram, freqüentemente, atrás das doutrinas filosóficas reacionárias da moda, deixando-se influenciar pelos falsos brilhantes da suposta “última palavra” da ciência européia, não sendo capazes de enxergar por detrás das aparências dessa ou daquela variedade de servilismo à burguesia, seus preconceitos e seu caráter burguês-reacionário.

Em todo caso, entre nós, na Rússia, existe ainda – existirá, indubitavelmente, ainda por muito tempo – materialistas do campo dos não comunistas, sendo que é nosso indiscutível dever atrair para um trabalho comum todos os partidários do materialismo conseqüente e militante, no quadro de uma luta contra a reação filosófica e contra os preconceitos filosóficos da assim chamada “sociedade culta”.

Dietzgen-pai – o qual não deve ser confundido com o literato Dietzgen-filho, tão pretensioso quanto fracassado – expressou, de modo correto,  justo e claro, o ponto-de-vista do marxismo a respeito das tendências filosóficas, dominantes nos países burgueses e que gozam de atenção entre os sábios e publicistas, ao dizer que, na sociedade contemporânea, na maioria dos casos, os professores de filosofia, por si mesmos, nada mais são senão “lacaios diplomados do obscurantismo clerical.”

Nossos intelectuais da Rússia, que adoram considerar a si próprios como avançados, da mesma forma como, aliás, ocorre em todos os demais países, odeiam muito postular essa questão desde o ponto de vista da apreciação, fornecida pelas palavras de Joseph Dietzgen.

Odeiam-no, porém, não porque a verdade queima-lhe os olhos.

Basta refletir um pouco sobre a dependência de natureza estatal e, então, sócio-econômica, e, a seguir, vital- quotidiana e todas as outras mais, que possuem os intelectuais contemporâneos em relação à burguesia dominante, para compreender a absoluta correção da caracterização contundente de Joseph Dietzgen.

Basta recapitular a maioria esmagadora das tendências filosóficas da moda que surgem tão freqüentemente nos países europeus – mesmo começando por aquelas que se relacionam com a descoberta do elemento químico rádio e concluindo com as que fazem todo o possível para agarrar-se a Albert Einstein -, para dar-se conta da ligação existente entre os interesses de classe e a posição de classe da burguesia, entre o apoio que esta presta a todas as formas de religião e o conteúdo ideológico das tendências filosóficas da moda.

De todo o exposto, é evidente que a revista, na medida em que pretende ser o órgão de imprensa do materialismo militante, deve ser, em primeiro lugar, um órgão combativo, no sentido do desmascaramento e da perseguição inquebrantáveis de todos os “lacaios diplomados do obscurantismo clerical” dos nossos tempos, independentemente do fato de atuarem eles na qualidade de representantes oficiais da ciência ou na condição de franco-atiradores que se reivindicam a si mesmos como publicistas “democratas de esquerda ou socialistas em idéias”.

Uma tal revista deve ser, em segundo lugar, o órgão de imprensa do ateísmo militante.

Entre nós, existem departamentos ou, pelo menos, instituições públicas que dirigem esse trabalho. 

Fazem-no, porém, de modo extremamente apático, de modo sumamente insatisfatório, dando-se conta, visilvemente, em si mesmos, do jugo das condições gerais de nosso burocratismo genuinamente russo (ainda que seja soviético).

Por isso, é extraordinariamente importante que a revista, ao colocar a si mesma a tarefa de ser o órgão de imprensa do materialismo militante, impulsione propaganda e luta ateístas incansáveis, em complementação ao trabalho das respectivas instituições estatais, buscando corrigí-lo e vivificá-lo.

É indispensável acompanhar atentamente toda a literatura correspondente, em todas as línguas, traduzindo-a ou, pelo menos, resumindo tudo aquilo que for valioso, nesse domínio.

Há muito tempo, Engels aconselhou os dirigentes do proletariado moderno a traduzirem a literatura ateísta combativa do fim do século XVIII, para difusão em massa entre o povo.

Para nossa vergonha, não o fizemos, até o presente momento : uma das muitas demonstrações que tomar o poder em uma época revolucionária é prodigiosamente mais fácil do que saber utilizá-lo corretamente.

Às vezes, desculpamo-nos desse marasmo, inércia e incapacidade com todos os tipos de razões “altissonantes” : por exemplo, dizendo que a velha literatura ateísta do século XVIII já envelheceu, não é científica, é ingênua etc.

Nada há de pior do que semelhantes sofismas pretensamente sábios que acobertam, seja a pendateria, seja a completa incompreensão do marxismo.

Evidentemente, encontram-se não poucos elementos não científicos e ingênuos nas obras ateístas dos revolucionários do século XVIII.

Porém, ninguém impede aos editores dessas obras de abreviá-las, equipando-as de posfácios sucintos, nos quais sejam indicados o progresso de crítica científica da religião que a humanidade executou, desde fins do século XVIII, bem como as obras respectivas mais recentes etc.

O maior e o pior erro que um marxista poderia cometer seria o de pensar que os muitos milhões de pessoas das massas populares – em particular, os camponeses e os artesãos –, condenadas por toda a sociedade contemporânea a permanecer no obscurantismo, na ignorância e em meio a preconceitos, possam sair dessa escuridão tão somente através da linha direta da cultura puramente marxista.

A essas massas é necessário que se forneça o material mais variado relativo à propaganda ateísta, familiarizando-as com os fatos dos mais variegados domínios da vida, abordando-as, dessa ou daquela forma, a fim de dinamizar o seu interesse, despertando-as da letargia religiosa, sacundido-as sob os mais variados aspectos, por meio dos mais variados métodos etc.

As publicações desenvoltas, vivas e talentosas dos velhos ateístas do século XVIII que atacam, engenhosa e abertamente, o obscurantismo clerical dominante demonstrar-se-ão, a passo e passo, mil vezes mais avançadas para despertar as pessoas da modorra religiosa do que as exposições cansativas do marxismo, ressecadas, praticamente despidas de toda e qualquer ilustração de fatos bem selecionados, exposições essas que prevalecem em nossa literatura e que – é preciso confessá-lo – , freqüentemente, o deformam.

Todas as obras de Marx e Engels de alguma importância encontram-se já traduzidas para o nosso idioma.

Não existe nenhum motivo decisivo para temer que o velho ateísmo e o velho materialismo permaneçam, entre nós, sem contar com as correções elaboradas por Marx e Engels.

O mais importante – e freqüentemente disso precisamente se esquecem nossos pretensos marxistas que, na realidade, são comunistas mutiladores do marxismo – é saber fazer com que as massas, ainda inteiramente incultas, interessem-se em adotar uma atitude consciente relativamente às questões religiosas e uma crítica consciente da religião.

Por outro lado, observem os representantes da moderna crítica científica da religião.

Quase sempre esses representantes da burguesia educada “complementam” suas próprias contestações dos preconceitos religiosos com raciocínios que os desmascaram imediatamente enquanto escravos ideológicos da burguesia, como “lacaios diplomados do obscurantismo clerical.”

Dois exemplos:

O Professor R. Y. Vipper editou, em 1918, um livrinho intitulado “A Origem do Cristianismo” (Ed. “Faros”, Moscou).

Ao relatar os principais resultados da ciência contemporânea, o autor não apenas deixa de combater os preconceitos e as ilusões que constituem uma arma da Igreja enquanto organização política, não apenas evita tratar dessas questões, senão ainda proclama, abertamente, sua pretensão ridícula e das mais reacionárias de pairar por cima de ambos os “extremos”: i.e. o idealismo e o materialismo.

Tal postura não passa de servilismo à burguesia dominante, a qual investe, em todo o mundo, centenas de milhões de rublos dos lucros que extrai dos trabalhadores no apoio à religião.

O renomado cientista alemão, Arthur Drews, rejeita em seu livro, intitulado “O Mito de Cristo”, os preconceitos e contos religiosos, demonstrando que não existiu nenhum Cristo.

No fim do livro, declara-se a favor da religião, mas a favor de uma religião algo renovada, refinada, esperta, capaz de opor-se “à torrente naturalista que se fortalece, diariamente, cada vez mais.” (p. 238, 4a. Ed. Alemã, 1910).

Temos, aqui, um reacionário declarado, consciente, que ajuda abertamente os exploradores a substituirem os velhos e apodrecidos preconceitos religiosos por preconceitos novíssimos, ainda mais repugnantes e infames.

Isso não quer dizer que não se deveria traduzir Drews.

Significa que os comunistas e todos os materialistas conseqüentes devem, no mesmo passo em que realizam, em certa medida, sua aliança com a parte progressiva da burguesia, desmascará-la impiedosamente, quando descamba para o reacionarismo.

Significa que esquivar-se à aliança, estabelecida com os representantes da burguesia no século XVIII, i.e. da época em que esta era revolucionária, equivaleria a trair o marxismo e o materialismo, uma vez que a “aliança” com os Drews, de uma ou de outra forma, em uma ou em outra medida, é obrigatória para nós, na luta travada contra os obscurantistas religiosos dominantes.

A Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)” que se propõe a ser o órgão do materialismo militante, deve dedicar muito espaço à propaganda ateísta, à resenha da literatura correspondente e à correção das imensas deficiências do nosso trabalho estatal, realizado nesse terreno.

É particularmente importante utilizar livros e folhetos que contenham muitos fatos concretos e comparações que demonstrem a relação dos interesses e das organizações de classe da burguesia moderna com as instituições religiosas e de propaganda religiosa.

São extremamente importantes todos os materiais que se relacionem com os Estados Unidos da América (USA), onde se revela, em menor dimensão, a relação oficial, público-financeira, estatal, havida entre a religião e o capital.

Porém, em vez disso,  torna-se-nos mais nítido o fato de que a assim denominada “democracia moderna” – diante da qual os mencheviques, os socialistas-revolucionários (SRs) e, em parte, os anarquistas etc. quebram a cara, com tanta insensatez – não representa em si mesma senão a liberdade de pregar aquilo que é conveniente à burguesia, sendo que a esta convém que se pregue as idéias mais reacionárias possíveis, a religião, o obscurantismo, a defesa da exploração etc.

Gostaria de alimentar a esperança de que a revista em foco, que aspira a ser o órgão do materialismo militante, oferecerá ao nosso público leitor uma resenha da literatura ateísta, acompanhada de referências, informando a que círculos de leitores e em que contexto poderiam ser adequadas essas ou aquelas obras, e indicando quais obras já foram publicadas entre nós – publicadas devem ser consideradas apenas aquelas traduzidas de modo passável, cujo numéro, porém, não é tão grande –, bem como o que deve ser ainda publicado.

––––––––

Além da aliança, celebrada com os materialistas conseqüentes, que não são membros do Partido Comunista Bolchevique, não é de menor importância – senão talvez seja da maior importância para o trabalho que o materialismo militante deve impulsionar – a aliança selada com representantes das Ciências Naturais modernas que se inclinem para o materialismo e não temam defendê-lo e difundí-lo na luta contra as vacilações filosóficas da moda, existentes no campo do idealismo e do ceticismo, predominantes na assim chamada “sociedade culta”.

O artigo de A. Timiriazev sobre a Teoria da Relatividade de Albert Einstein, surgido no Nr. 1-2 da Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)”, permite abrigar a esperança de que essa revista consiga concretizar também essa segunda aliança.

É necessário dedicar a essa última aliança a maior atenção

Cumpre recordar que, precisamente da brusca reviravolta pela qual passam as Ciências Naturais modernas, brotam, a todo momento, toda uma série de escolas e escolinhas, tendências e tendênciazinhas filosóficas reacionárias. 

Por isso, acompanhar as questões que a novíssima revolução levanta, no domínio das Ciências Naturais, bem como atrair para esse trabalho, na revista filosófica, os pesquisadores naturalistas, constituem tarefas sem cuja resolução o materialismo militante não poderia ser, em hipótese alguma, considerado nem materialismo nem militante.

Se, no primeiro número da revista em realce, Timiriazev teve de fazer a ressalva de que, na Teoria de Einstein, este mesmo – segundo as palavras de Timiriazev – não conduz nenhuma campanha ativa contra os fundamentos do materialismo, dela já se aproveitou uma massa imensa de representantes da inteligência burguesa de todos os países – isso se refere não apenas ao próprio Einstein, mas a toda uma série deles, talvez a maioria dos grandes transformadores das Ciências Naturais, començado a fazê-lo a partir de fins do século XIX.

E, para não nos reportarmos a semelhante fenômeno de modo inconsciente, devemos compreender que, sem uma sólida fundamentação filosófica, nenhuma Ciência Natural, nenhum materialismo, pode sustentar a luta contra a pressão das idéias burguesas e a restauração da concepção burguesa do mundo.

A fim de manter essa luta, conduzindo-a até ao fim com o mais pleno êxito, o cientista naturalista deve ser um materialista moderno, um partidário consciente do materialismo que é apresentado por Marx, i.e. deve ser um materialista dialético.

A fim de alcançar esse objetivo, os colaboradores da Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)” devem organizar um estudo sistemático da dialética de Hegel, a partir do ponto de vista materialista, i.e. a partir do ponto de vista daquela dialética que Marx aplicou praticamente também em sua obra “O Capital” e em seus trabalhos históricos e políticos, fazendo-o com tal êxito que, presentemente, cada dia do despertar de novas classes para a vida e para a luta no Oriente – no Japão, na Índia, na China -, i.e. de centenas de milhões de pessoas que constituem a maior parte da população da terra e que eram, por sua inatividade e letargia históricas, até o dia de hoje, a causa da estagnação e da podridão de muitos Estados adiantados da Europa, cada dia do despertar de novos povos e de novas classes para a vida, confirma, sempre mais e mais, o marxismo.

Evidentemente, o trabalho dedicado a esse estudo, a essa interpretação e a essa propaganda da dialética de Hegel é extremamente difícil e, sem dúvida, as primeiras tentativas nesse sentido estarão relacionadas com erros.

Porém, só não erra aquele que nada faz.

Fundando-se no modo como Marx aplicou, de modo materialista, a concepção dialética de Hegel, podemos e devemos desenvolver essa dialética em todos os seus aspectos, publicar na revista em tela excertos das principais obras de Hegel, interpretá-los de modo materialista, comentando-os, com exemplos, da aplicação da dialética por Marx, bem como com exemplos da aplicação da dialética, no campo das relações econômicas, políticas, exemplos esses que a história mais recente, em particular a Guerra Imperialista e a Revolução dos nossos dias, fornecem-nos em quantidade extraordinamente ampla.

O grupo de redatores e colaboradores da Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)” deve formar, na minhão opinião, algo assim como uma “sociedade dos amigos materialistas da dialética hegeliana.”

Se souberem pesquisar e se aprendermos a ajudá-los, os cientistas naturalistas modernos encontrarão na interpretação materialista da dialética de Hegel uma série de respostas para as questões filosóficas que são colocadas pela revolução no domínio das Ciências Naturais,  nas quais “se enroscam” na reação os admiradores intelectuais da moda burguesa.

Sem colocar a si mesmo essa tarefa e sem cumprí-la sistematicamente, o materialismo não pode surgir como materialismo militante.

Para empregar uma expressão de Schendrin, permanecerá sendo não tão combativo quanto combatido.

Sem isso, os grandes cientistas naturalistas continuarão a ser, muito freqüentemente, como até o presente, impotentes em suas conclusões e generalizações filosóficas.

Pois,  as Ciências Naturais progridem tão rapidamente, atravessam um período tão profundo de reviravolta revolucionária em todas as áreas, que não se podem arranjar, em caso algum, sem conclusões filosóficas.

A título de conclusão, apresentarei um exemplo que não se relaciona com o domínio da filosofia, mas que, em todo caso, refere-se ao terreno das questões sociais às quais a Revista “Pod Znameniem Marksisma (Sob a Bandeira do Marxismo)” também pretende direcionar a sua atenção.

Trata-se de um dos exemplos de como a pseudociência serve, na realidade, de instrumento para as concepções reacionárias mais grosseiras e ignominiosas.

Há pouco tempo, enviaram-me o Nr. 1 da Revista “Ekonomist (O Economista)” (1922), editada pela XI Seção da “Sociedade Técnica Russa”.

O jovem comunista que me enviou essa revista – certamente, por não possuir tempo para familiarizar-se com o seu conteúdo – transmitiu-me, descuidadosamente, um parecer extraordinariamente satisfatório sobre ela.

Na realidade, essa revista é – não sei em que medida conscientemente – um órgão de imprensa dos feudais modernos que, naturalmente, acobertam-se sob o manto da cientificidade, da democracia etc.

Certo Sr. P. A. Sorokin publica na revista em destaque vastas investigações pretensamente “sociológicas”, intituladas “Acerca da Influência da Guerra”.

Esse artigo científico está repleto de citações científicas relativas aos trabalhos “sociológicos” do autor e de seus inúmeros mestres e colegas estrangeiros.

À página 83, lemos uma amostra do tipo de sua sabedoria:

“Presentemente, a cada 10.000 casamentos que se realizam em Petrogrado, ocorrem 92,2% divórcios, uma cifra fantástica. Além disso, de entre 100 casamentos dissolvidos, 51% deles duraram menos de um ano, 11%, menos de um mês, 22%, menos de dois meses, 41% menos de 3 a 6 meses, sendo que apenas 26% duraram mais de 6 meses.

Esses números afirmam que o moderno casamento legal é uma forma que, em essência, encobre as relações sexuais extra-conjugais, oferecendo a possibilidade aos amantes “da maçã” de satisfazer “legalmente” seu “apetite”.” (Ekonomist<O Economista>, Nr. 1, pp. 83 e s.)

Não resta dúvida que tanto esse senhor quanto a referida sociedade técnica russa, que edita a revista acima mencionada, nela publicando semelhantes raciocínios, contam-se a si mesmos entre os partidários da democracia e consideram ser uma grandíssima ofensa chamá-los pelo nome que, em verdade, merecem, i.e. feudais, reacionários, “lacaios diplomados do obscurantismo clerical.”

O mais ínfimo conhecimento da legislação dos países burgueses sobre o casamento, o divórcio, os filhos extra-conjugais, bem como sobre a situação fática, existente nesse contexto, demonstra a qualquer pessoa que se interesse por esse tema que a moderna democracia burguesa, até mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas, revela-se, precisamente no sentido referido acima, como feudal em relação à mulher e aos filhos naturais.

Isso não impede, evidentemente, que os mencheviques, os socialistas-revolucionários (SRs) e uma parte dos anarquistas, bem como todos os seus partidos políticos correspondentes no Ocidente, continuem a gritar acerca da democracia e de sua violação, empreendida pelos bolcheviques.

Na realidade, a Revolução Bolchevique é, precisamente, a única revolução democrática conseqüente, em relação às questões de casamento, divórcio e situação dos filhos naturais

E essa é uma questão que respeita, do modo mais direto, aos interesses de mais da metade da população, em todo e qualquer  país.

Apesar da grande quantidade de revoluções burguesas que a precederam, qualificando-se a si próprias de democráticas, tão somente a Revolução Bolchevique executou, pela primeira vez, uma luta decisiva nesse sentido, tanto contra a reação e o feudalismo, como contra a habitual hipocrisia das classes governantes e possidentes.

Se ao Sr. Sorokin a cifra de 92 divórcios para cada 10.000 casamentos parece fantástica, resta-nos supor que o autor em destaque ou viveu e se educou em algum convento tão isolado da vida que é duvidoso que alguém creia na existência do mesmo ou, então, que referido autor dá as costas à verdade, a fim de agradar a reação e a burguesia.

Toda e qualquer pessoa que conheça um pouco as condições sociais, existentes nos países burgueses, saberá que o número real de divórcios efetivos – evidentemente, também os não sancionados pela Igreja e pela lei -, por todas as partes, é incomensuravelmente maior.

Nesse sentido, a Rússia distingue-se de outros países apenas pelo fato de que as leis não canonizam a hipocrisia e a situação de falta de direitos da mulher e de seus filhos, senão declaram, abertamente e em nome do poder do Estado, uma guerra sistemática contra toda a hipocrisia e toda a falta de direitos.

A revista marxista há de conduzir também uma guerra contra semelhantes feudais “eruditos” dos nossos tempos.

Certamente, uma parte não insignificante deles recebem até mesmo honorários do Estado e encontram-se a serviço do Estado, com a função de educar a juventude, apesar de que, para tais objetivos, servem em medida não maior do que o fariam pessoas notórias degeneradas, desempenhando o papel de assistentes, em estabelecimentos de ensino, dedicados à formação de menores.

A classe trabalhadora da Rússia soube conquistar o poder, porém não aprendeu ainda a utilizá-lo.

Caso contrário, desde muito tempo, haveria despachado, da maneira mais cortês possível, para os países da “democracia” burguesa semelhantes professores e membros das sociedades científicas.

Lá, é o lugar mais adequado para feudais como esses.

Mas, há de logo aprender, se não lhe faltar vontade de aprender.


Tradução: Asturig Emil von München
Fonte: http://www.scientific-socialism.de/LeninMaterialismoMilitanteCap1.htm

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Um pensamento sobre “O “neoateísmo” e a atualidade do Materialismo Militante

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