Hobsbawm sobre o massacre do povo palestino

Eric John Ernest Hobsbawm foi um historiador britânico nascido em um família judaica na cidade de Alexandria, no Egito, em 1917. Cresceu na Áustria e na Alemanha. Quando Hitler se torna chanceler da Alemanha, em 1933, Hobsbawm vai morar em Londes. Durante a guerra, foi alocado em uma unidade de engenharia do Exército Britânico, cavando trincheiras e construindo casamatas no litoral inglês.

Hobsbawm é considerado um dos mais importantes e influentes historiadores contemporâneos, tendo escrito, entre vários outros estudos, a trilogia de enorme importância para a historiografia, que analisa desde a Revolução Francesa em 1789 até o início da Primeira Guerra, em 1914: Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875) e A Era dos Impérios (1875-1914). Posteriormente complementou essa obra em Era dos Extremos, que vai da Revolução Russa (1917) até o colapso da União Soviética (1991).

No texto a seguir, Hobsbawm faz uma breve análise das ações do Estado de Israel, especialmente da Operação Chumbo Fundido em 2008, conhecida como Massacre de Gaza, quando o Exército de Israel lançou a mais intensa operação militar contra um território palestino desde a Guerra dos Seis Dias em 1967. É a visão de um judeu a respeito do massacre terrorista perpetrado por um Estado ilegítimo em seu nome. Um genocídio que retoma a ofensiva.


Resposta para a guerra em Gaza

Eric Hobsbawm

Já fazem três semanas que a barbárie está exposta à opinião pública universal, que assistiu, julgou e, com poucas exceções, rejeitou o uso do terror militar de Israel contra um milhão e meio de habitantes cercados, desde 2006, na Faixa de Gaza. Nunca as justificativas pela invasão foram mais patentemente refutadas pela combinação de câmeras e números; ou a novilíngua dos “alvos militares” pelas imagens de crianças cheias de sangue e escolas queimando. Treze mortos em um lado, 1.360 no outro: não é difícil calcular qual lado é a vítima. Não há muito mais a dizer sobre a operação terrorista de Israel em Gaza

Exceto para aqueles de nós que são judeus. Em uma longa e insegura história como um povo em diáspora, nossa reação natural aos eventos públicos incluem inevitavelmente a pergunta: “isso é bom ou ruim para os judeus?”. Neste caso, a resposta é inequivocamente: “Ruim para os judeus”.

Isto é patentemente ruim para os cinco milhões e meio de judeus que vivem em Israel e nos territórios ocupados de 1967, cuja segurança é comprometida pelas ações militares que os governantes israelenses tomam em Gaza e no Líbano; ações que demonstram sua inabilidade em atingir seus objetivos declarados e que perpetuam e intensificam o isolamento de Israel em um Oriente Médio hostil. Desde o genocídio ou a expulsão em massa dos palestinos do que resta da sua terra nativa não há mais nada da ordem do dia do que a destruição do Estado de Israel, apenas coexistência negociada em termos igualitários entre os dois grupos pode prover um futuro estável. Cada nova aventura militar, como as em Gaza e no Líbano, vai tornar tal solução mais difícil e vai fortalecer a mão da direita de Israel e dos colonos da Cisjordânia que nem querem isso, em primeiro lugar.

Como no Líbano em 2006, Gaza escureceu as perspectivas para o futuro de Israel. Também escureceu as perspectivas para os nove milhões de judeus que vivem na diáspora. Sem rodeios: criticar Israel não implica anti-semitismo, mas as ações do governo de Israel trazem vergonha ao povo judeu e, mas do que qualquer outra coisa, originam o anti-semitismo atual. Desde 1945 os judeus, dentro e fora de Israel, foram enormemente beneficiados pela consciência pesada de um mundo ocidental que recusou imigrantes judeus nos anos 1930 antes de, ou cometer genocídio ou não se opor a ele. Quanto dessa consciência pesada, que virtualmente eliminou o anti-semitismo do ocidente por sessenta anos e produziu uma era dourada para essa diáspora, ainda resta hoje?

Israel em ação em Gaza não é o povo que foi vítima da história, tampouco o “bravo pequeno Israel” da mitologia de 1948-67, um Davi derrotando os vários Golias que o cercavam.  Israel está perdendo a boa vontade tão rapidamente quando os EUA sob o governo de George W. Bush e por razões similares: a cegueira nacionalista e a megalomania do poder militar. O que é bom para Israel e o que é bom para os judeus como um povo estão evidentemente ligados, mas, até que haja uma resposta justa para a questão palestina, as duas coisas não são e não podem ser idênticas. E é essencial para os judeus dizerem isso com clareza.
Hobsbawn

Hobsbawm, Eric. Responses to the War in Gaza. London Review of Books. Vol. 31 nº 2. 29 Jan 2009.
Tradução: Maurício Sauerbronn de Moura
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