Maurício Moura
O problema da demarcação científica, esse espinho cravado na carne da epistemologia desde os gregos, permanece tão atual quanto urgente. Em tempos de negacionismo climático, terraplanismo ressuscitado e medicalização seletiva, a pergunta “o que é ciência?” transformou-se de exercício acadêmico em arma de guerra cultural. O Círculo de Viena e Karl Popper ofereceram as respostas mais influentes do século XX, armados com a convicção de que a lógica e a empiria bastariam para traçar uma linha nítida entre conhecimento válido e superstição. Sete décadas depois, suas soluções mostram-se não apenas incompletas, mas perigosamente enganosas quando aplicadas como critérios universais.
Este artigo desmonta os alicerces desses modelos clássicos, demonstrando por que verificacionismo e falseabilidade falham redondamente como critérios absolutos de demarcação. Suas limitações não são meras curiosidades filosóficas: são falhas estruturais que perpetuam hierarquias epistêmicas, excluem saberes legítimos e instrumentalizam a ciência para projetos de poder. Nas trincheiras do debate público, onde se decide desde políticas de vacinação até currículos educacionais, entender essas limitações é questão de sobrevivência cognitiva.
“A mais bela experiência que podemos ter é o misterioso. É a emoção fundamental que está no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência.”
— Albert Einstein, O Mundo Como Eu Vejo (1931)
A tirania do empirismo reducionista
O projeto do Círculo de Viena nos anos 1920 representou a tentativa mais ambiciosa de purgar a ciência de qualquer resquício de metafísica. Seu núcleo — o verificacionismo — estabelecia um critério aparentemente simples: uma proposição só tem significado científico se for possível verificá-la empiricamente através de observação ou experimento1. A beleza sedutora dessa fórmula escondia três vícios fatais.
Como verificar definitivamente que “todos os corpos se dilatam com o calor”? Seriam necessárias infinitas confirmações, uma impossibilidade prática e lógica. O verificacionismo tropeçava em seu primeiro obstáculo: generalizações científicas fundamentais escapavam à sua própria lógica 2.
Como aplicar testes empíricos rigorosos à Revolução Francesa ou à formação do capitalismo? Eventos únicos, contextos irreproduzíveis e complexidade histórica tornam o verificacionismo irrelevante para disciplinas inteiras. A insistência nesse critério marginalizou as humanidades como “não científicas”, criando uma hierarquia epistêmica artificial 2.
O reducionismo anti-teórico
Teorias como a evolução darwiniana ou modelos do Big Bang foram inicialmente marginalizadas por carecerem de verificação imediata. O verificacionismo privilegiava o observável sobre o teórico, ignorando que a ciência frequentemente avança através de conceitos que só posteriormente encontram confirmação empírica1.
Apesar dessas falhas, o legado verificacionista persiste em setores como a medicina baseada em evidências, onde ensaios clínicos randomizados operam sob sua lógica. Mas mesmo aqui, seu reducionismo mostra-se perigoso: ao priorizar apenas o mensurável, desconsidera variáveis contextuais, experiências subjetivas e determinantes sociais da saúde — exatamente as críticas que movimentos como a medicina social latino-americana levantam contra o modelo biomédico hegemônico.
Elegante, mas frágil demais
Karl Popper reconheceu as insuficiências do verificacionismo e ofereceu uma solução engenhosa: em vez de buscar confirmações, a ciência deveria expor suas teorias à refutação. Uma proposição é científica se for falseável, ou seja, se pudermos imaginar um experimento que, se bem-sucedido, a refutaria 3. A inversão era brilhante, mas suas falhas surgiram sob escrutínio.
Popper admitia que falsificações dependem de “enunciados básicos”: observações consensuais que podem estar erradas. Quando Eddington testou a relatividade geral em 1919, um erro instrumental poderia ter falsificado erroneamente a física newtoniana. A falseabilidade depende de observações que são, elas mesmas, teoricamente carregadas e revisáveis 3.
Como Imre Lakatos demonstrou, programas de pesquisa protegem seus núcleos teóricos com hipóteses auxiliares ajustáveis 2. Quando a órbita de Urano não concordava com as previsões newtonianas, os astrónomos não abandonaram a teoria, mas postularam um novo planeta (Netuno) e ajustaram parâmetros. Esses ajustes ad hoc, longe de serem “não científicos”, são parte essencial do progresso científico.
Como falsear experimentalmente a teoria do impacto de asteroide que exterminou os dinossauros? Ou modelos cosmológicos do Big Bang? Em geologia, cosmologia, paleontologia e muitas outras áreas, a reprodução controlada de fenômenos é impossível.
A falseabilidade torna-se um critério irrelevante onde mais precisamos de demarcação 2.
Aplicação seletiva e viés disciplinar
A utilidade da falseabilidade varia dramaticamente entre disciplinas, por exemplo:
| Área | Eficácia | Razão |
|---|---|---|
| Física Experimental | ✅ Alta | Testes controlados e replicáveis |
| Ciências Ambientais | ⚠️ Moderada | Complexidade de variáveis, dificuldade de controle |
| Economia Política | 🛑 Baixa | Eventos únicos, impossibilidade de isolamento de variáveis |
| Antropologia Cultural | 🛑 Baixa | Natureza interpretativa, contextos irreproduzíveis |
Esta variação não é acidental, mas revela que a falseabilidade funciona melhor onde predominam experimentação controlada e predição quantitativa, tornando-se progressivamente menos útil em campos com maior complexidade contextual ou histórica 2.
As consequências políticas dos critérios clássicos
As limitações técnicas dos modelos clássicos seriam meramente académicas se não produzissem consequências políticas profundas. Ao elegerem a física como modelo epistemológico ideal, verificacionismo e falseabilidade criaram uma hierarquia de conhecimento que:
Marginaliza saberes não europeus
Sistemas de conhecimento indígena sobre biodiversidade, medicina tradicional ou gestão ecológica são frequentemente descartados como “não científicos” por não seguirem protocolos experimentais, deixando de ser estudados metodicamente. Essa exclusão epistemicista serve a projetos coloniais de assimilação cultural 4 e se afastam da busca da verdade.
Patologiza desigualdades sociais
A aplicação acrítica de critérios biomédicos leva à patologização de respostas normais à opressão. Crianças negras e pobres recebem diagnósticos desproporcionais de TDAH porque seu comportamento, moldado por racismo e pobreza, é julgado contra normas brancas de classe média 5.
Naturaliza viés racial na Ciência
Como Stuart Hall demonstra, raça opera como “significante flutuante” que estrutura inclusive avaliações de validade científica 6. Teorias racializantes do século XIX usavam aparência de rigor metodológico para legitimar hierarquias, enquanto contribuições de cientistas negros eram marginalizadas como “militância” ou “folclore” 7.
Para além dos modelos simplistas
Os critérios clássicos de demarcação não são apenas tecnicamente inadequados, são politicamente perigosos quando aplicados como padrões universais. Seu reducionismo ignora a complexidade ontológica de diferentes domínios científicos e, pior, serve a projetos de poder que hierarquizam saberes segundo critérios eurocêntricos.
A falseabilidade popperiana permanece uma ferramenta heurística valiosa em ciências experimentais, mas falha redondamente como critério universal. Seu maior legado talvez seja nos lembrar que a ciência avança mais pela coragem de errar do que pela ilusão da certeza, lição que os próprios defensores dogmáticos de uma “ciência” irreal frequentemente esquecem.
Nos próximos artigos desta série, exploraremos abordagens mais sofisticadas para a demarcação: os paradigmas de Kuhn, os programas de pesquisa de Lakatos, o modelo sistêmico de Bunge e, crucialmente, as críticas decoloniais que exigem que repensemos a própria natureza do conhecimento científico. Até lá, desconfie de quem oferece respostas simples para perguntas complexas, especialmente quando vestem essas respostas com o manto da “ciência”.
“O maior perigo não é que máquinas pensem como humanos, mas que humanos pensem como máquinas.”
— B. F. Skinner, Beyond Freedom and Dignity (1971)
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Notas:
- CARVALHO, R. R. As três fases do problema da demarcação. Griot: Revista de Filosofia, v. 22, n. 1, p. 227-250, 2022. ↩︎ ↩︎
- OLIVEIRA, M. B. D. Sobre o problema da demarcação. Trans/form/ação, v. 5, p. 85-101, 1982. ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎
- POPPER, K. R. A lógica da pesquisa científica. 13ª ed. São Paulo: Cultrix, 2007. ↩︎ ↩︎
- HARDING, S. Objectivity and Diversity: Another Logic of Scientific Research. Chicago: University of Chicago Press, 2015. ↩︎
- COLLARES, C. A. L.; MOYSÉS, M. A. A. A transformação do espaço pedagógico em espaço clínico. In: ALVES, M. Cultura e saúde na escola. São Paulo: FDE, 1994. ↩︎
- HALL, S. Que “negro” é esse na cultura negra? In: ______. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. ↩︎
- MOURA, C. Dialética Radical do Brasil Negro. 2ª ed. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014. ↩︎