Demarcação científica: a ilusão da neutralidade

Demarcação científica: a ilusão da neutralidade

Maurício Moura

Neste quarto e último capítulo da nossa série sobre demarcação científica, enfrentamos a pergunta crucial: será possível encontrar critérios universais para distinguir ciência de pseudociência?

Ao compararmos a eficácia dos modelos clássicos e contemporâneos nas diferentes áreas do conhecimento, que padrões emergirão? A falseabilidade popperiana, tão eficaz na física, mostrar-se-á igualmente válida na antropologia? Os paradigmas de Kuhn e o modelo sistêmico de Bunge conseguirão superar as limitações dos critérios tradicionais?

Mais importante: que custos políticos e epistemológicos carregam as tentativas de estabelecer demarcações rígidas? E que tipo de ciência queremos construir – uma que hierarquiza saberes ou uma que celebra a diversidade cognitiva?

A jornada que concluiremos aqui questionará não apenas como definimos ciência, mas para quem e para que fins o fazemos.

“A questão não é se a ciência é política, mas sim de que maneira e para quem ela serve.”
— Sandra Harding, Objectivity and Diversity (2015)

Padrões de aplicabilidade interdisciplinar

A eficácia dos critérios clássicos mostra-se profundamente contextual1. O verificacionismo e o falseamento demonstram alta efetividade em ciências experimentais como física e engenharias, onde fenômenos replicáveis e controlados permitem teste empírico rigoroso. Contudo, estas abordagens falham redondamente em humanidades e ciências sociais, onde a reprodução experimental é inviável e os fenômenos são únicos e contextuais.

Abordagens flexíveis destacam-se precisamente onde os modelos clássicos falham: os paradigmas de Kuhn e o modelo sistêmico de Bunge adaptam-se melhor a áreas como antropologia e ciências da educação, incorporando historicidade e multidimensionalidade2. Estas abordagens reconhecem que diferentes epistemes possuem critérios próprios de validação, rejeitando a ditadura metodológica do modelo experimental.

Como já identificamos no primeiro capítulo desta série, a hierarquia implícita que privilegia ciências experimentais sobre humanidades tem consequências profundas. Este viés naturaliza exclusões epistêmicas ao eleger um modelo particular (o experimental) como universal, desqualificando saberes que não se encaixam nos seus parâmetros3.

Desmontando o projeto de demarcação

As críticas fundamentais ao problema da demarcação dividem-se em duas vertentes principais: epistemológica, que questiona a possibilidade lógica de critérios universais, e social, que expõe os vieses eurocêntricos e racializados nos padrões de cientificidade.

Larry Laudan declara o “fim do problema da demarcação” argumentando que nenhum critério proposto resiste à análise histórica: teorias hoje consideradas científicas violaram regras vigentes no seu tempo, enquanto pseudociências geraram conhecimentos válidos4. Para Laudan, a busca por demarcação é um “pseudoproblema” que desvia a filosofia da ciência de questões essenciais.

Paul Feyerabend radicaliza esta posição em Against Method (1975), defendendo o princípio “Anything Goes” (“vale tudo”). Através de análise histórica, demonstra que avanços científicos frequentemente violaram regras metodológicas estabelecidas5:

  • Caso Galileu: Uso de telescópio (instrumento não validado) para observações que desafiavam a física aristotélica
  • Caso da deriva continental: Wegener ignorou falsificações iniciais, mantendo uma teoria depois corroborada

Feyerabend conclui que a ciência não segue métodos fixos, mas um anarquismo epistêmico, onde criatividade e transgressão são fundamentais. Critica, ainda, a “tirania metodológica” que exclui saberes não ocidentais por não obedecerem a protocolos eurocêntricos1.

Já Sandra Harding desmonta o mito da neutralidade científica, revelando que os padrões de cientificidade emergem de contextos históricos colonialistas que privilegiam saberes masculinos, brancos e ocidentais3. Sua proposta de “objetividade forte” exige incorporar perspectivas marginalizadas para revelar vieses ocultos e gerar análises mais rigorosas.

Clóvis Moura avança esta crítica examinando a “democracia racial epistêmica” como mecanismo de exclusão. Demonstra como a ciência brasileira racializa a validade do conhecimento: produções intelectuais negras são sistematicamente desqualificadas como “militância”, enquanto versões eurocêntricas são naturalizadas como universais6.

Alguns casos são emblemáticos desse viés racial:

  • Classificação de saberes indígenas como “crença” em oposição a “ciência”, impedindo a investigação metodológica de suas descobertas empíricas;
  • Medicalização da população negra, que exclui a busca pela origem dos problemas, substituindo-a por culpabilização do indivíduo 7;
  • Hierarquização de temas não-europeus na escola, como a cultura afro-brasileira, indígena ou árabe, classificados como “não científicos” ou pior, demonizando-os 8.

Rumo a uma epistemologia da libertação

A investigação demonstra a insustentabilidade de critérios universais para demarcação científica. A variabilidade de eficácia entre áreas do conhecimento confirma que a demarcação é intrinsecamente plural e contextual, dependendo da natureza dos objetos e métodos disciplinares1.

Esta análise exige transformações radicais nas políticas de Ciência e Tecnologia:

  1. Revisão de protocolos em agências de fomento: adoção de modelos multicritério sensíveis a contextos;
  2. Inclusão epistêmica de saberes tradicionais: reconhecimento como fontes válidas de conhecimento;
  3. Auditoria de vieses raciais: implementação de mecanismos de revisão que combatam o epistemicídio;
  4. Descentralização do conhecimento: fomento a centros de excelência com patrocínio exclusivamente estatal.

A solução não é abandonar a demarcação, mas reinventá-la como prática dialética que seja2:

  • Epistemologicamente plural, aceitando que física teórica e antropologia cultural possuem critérios distintos de validação;
  • Politicamente engajada, reconhecendo que toda avaliação científica é um acto ético com consequências políticas;
  • Socialmente responsável, questionando permanentemente quem beneficia e quem é excluído pelos critérios estabelecidos.

Como conclui Carvalho (2022), “o maior risco não é a falta de demarcação, mas sua instrumentalização para silenciar vozes dissidentes”. Transformá-la em ferramenta de emancipação epistêmica é o desafio urgente do nosso tempo.

“Não há mundo suficientemente grande para que todas as suas alternativas nele caibam.”
— Boaventura de Sousa Santos, A Gramática do Tempo (2006)

Leia aqui o artigo completo em Academia.edu


Notas

  1. OLIVEIRA, M. B. D. Sobre o problema da demarcação. Trans/form/ação, v. 5, p. 85-101, 1982. ↩︎ ↩︎ ↩︎
  2. CARVALHO, R. R. As três fases do problema da demarcação. Griot: Revista de Filosofia, v. 22, n. 1, p. 227-250, 2022. ↩︎ ↩︎
  3. HARDING, S. Objectivity and Diversity: Another Logic of Scientific Research. Chicago: University of Chicago Press, 2015. ↩︎ ↩︎
  4. LAUDAN, L. Beyond Positivism and Relativism: Theory, Method, and Evidence. Westview Press, 1996. ↩︎
  5. FEYERABEND, P. Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge. Humanities Press, 1975. ↩︎
  6. MOURA, C. Dialética Radical do Brasil Negro. 2ª ed. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014. ↩︎
  7. COLLARES, C. A. L.; MOYSÉS, M. A. A. A transformação do espaço pedagógico em espaço clínico. In: ALVES, M. Cultura e saúde na escola. São Paulo: FDE, 1994. ↩︎
  8. RIBEIRO, C. A. C. Classe, raça e mobilidade social no Brasil. Dados, v. 49, n. 4, p. 833-873, 2006. ↩︎

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