Imagem que funde a paisagem urbana de Gaza com uma favela do Rio de Janeiro, mostrando soldados não identificados mas heavily armed em posição de vigilância, representando a militarização como política de controle territorial.

A farsa da pacificação: o que une Gaza ao Rio de Janeiro

Maurício Moura

A retórica da “pacificação” tem sido um instrumento recorrente para legitimar intervenções estatais em territórios considerados problemáticos, seja no contexto internacional ou nas periferias urbanas. Este artigo analisa criticamente o Acordo de Cessar-Fogo em Gaza, assinado pelo presidente Donald Trump em outubro de 2025, e o contrasta com a histórica política de “pacificação” de favelas no Rio de Janeiro, demonstrando os paralelos em suas lógicas de dominação, controle territorial e a farsa discursiva que os sustenta.

A gramática da pacificação

A linguagem da “pacificação” não é ingênua. Ela é cuidadosamente empregada para construir um consenso perverso: a ideia de que a paz é um produto da imposição violenta da ordem, nunca da justiça social ou da autodeterminação dos povos. Termos como “paz”, “retomada” e “pacificador” são despidos de seu significado original e reciclados como eufemismos para a ação bélica do Estado. 1 2 Esta violência semântica é o pré-requisito necessário para a violência física que se segue, criando a figura do “inimigo a ser pacificado”: seja um grupo político em Gaza ou moradores de favelas no Brasil.

O Acordo Trump: a pacificação como capitulação

No cenário internacional, a assinatura do acordo de cessar-fogo em Gaza pela administração Trump ilustra com precisão a concepção de paz como capitulação. O acordo, firmado sem a presença do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ou de representantes do Hamas, foi apresentado como “histórico” e como um marco para uma “região transformada”1. No entanto, sua arquitetura institucional revela uma operação de tutela direta, onde o poder decisório final é externalizado e concentrado nas mãos do presidente norte-americano.

O plano de 20 pontos proposto por Trump previa a criação de um “Conselho da Paz” de caráter internacional para supervisionar o cessar-fogo e a administração de Gaza3. Este órgão, que seria “liderado e presidido pelo presidente Donald J. Trump”, estabelece um protetorado político sob comando estrangeiro4. A soberania palestina é, assim, suspensa em favor de uma governança transitória onde a figura central é o próprio Trump, que no final, seria quem governaria Gaza. Esta estrutura é a materialização da capitulação política, na qual a autodeterminação é substituída por uma administração internacional liderada por um chefe de Estado estrangeiro.

Sob a tutela deste conselho, funcionaria um “comitê palestino tecnocrata e apolítico”, responsável pela administração diária4. A farsa desta proposta reside precisamente na negação da democracia. A qualificação “tecnocrata e apolítico” é um eufemismo para uma elite imposta, destituída de mandato popular e, portanto, ilegítima para representar os interesses nacionais do povo palestino. Ao eliminar a dimensão política e representativa do governo, o acordo institui uma administração técnica que, ao fim e ao cabo, seria escolhida por Trump e seus assessores, respondendo aos seus interesses e não às demandas da população local.

A exigência de desarmamento do Hamas, enquanto Israel mantém seu formidável aparato militar, consolida a capitulação em termos de segurança. É ilegítimo exigir o desarmamento de um grupo em um contexto onde a Palestina não possui forças armadas regulares ou garantias de segurança equivalentes. Esta assimetria, longe de construir uma paz justa, institucionaliza a vulnerabilidade palestina e inviabiliza qualquer perspectiva de equilíbrio futuro, tornando a “paz” sinônimo de subjugação militar permanente.

Para conferir uma fachada de legitimidade regional a este arranjo, o acordo foi assinado e co-presidido no Egito pelo presidente Abdel Fattah el-Sisi1. É crucial destacar que Sisi é um ditador alçado ao poder por um golpe de Estado. Seu governo, notoriamente autoritário e repressivo, comanda um Estado profundamente militarizado. Sisi é alinhado política e ideologicamente com Israel e os EUA, e sua presença como fiador não atenua, mas antes reforça, o caráter antidemocrático e imposto do acordo. A “paz” que emerge deste processo não é a da soberania, mas a da gestão internacional de um território em crise, uma capitulação disfarçada de diplomacia.

O laboratório carioca: gestão de territórios inimigos

Em paralelo ao cenário geopolítico, o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro, iniciado em 2008, foi vendido como um modelo “brando” para reintegrar favelas à cidade. No entanto, a sua implementação revelou uma lógica beligerante. A fala de um comandante da UPP no Santa Marta é sintomática: “Na favela o policial está o tempo todo no terreno do inimigo” 5. Esta percepção transforma o território e seus moradores no alvo, não o crime.

A implantação das UPP estava intrinsecamente ligada à agenda de megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas 6. O objetivo era forjar a imagem de uma “Rio moderna, bem organizada, racional e funcional” para o capital global, o que exigia uma intervenção prioritária sobre a violência urbana. A pacificação, assim, servia a um projeto de cidade que valorizava imóveis e acalmava investidores.

A promessa de que a ocupação policial traria cidadania e serviços mostrou-se uma farsa. O programa não foi acompanhado de políticas sociais estruturantes 6. O que se instalou foi uma administração armada da pobreza, onde a presença do Estado se dava primordialmente pela ponta do fuzil, consolidando um “Estado mínimo” na vida dos moradores, não um Estado de direitos.

A linguagem comum da dominação

Ao cruzar as duas realidades, encontramos não semelhanças superficiais, mas uma convergência profunda na tecnologia de poder.

Tanto a narrativa oficial israelense quanto a das operações policiais no Rio operam uma desumanização do adversário. Trump referiu-se genericamente aos palestinos no contexto do conflito, enquanto a polícia militar do Rio vê o “favelado” como o “inimigo interno” a ser combatido 5. Esta categorização justifica o uso de violência excecional.

Tanto a Palestina quanto as favelas brasileiras sofrem um processo de invisibilização em aplicativos de mapas. Este apagamento digital espelha um apagamento político: a negação da existência legítima e do direito à representação própria desses territórios e de seus povos.

Em ambos os casos, a “paz” que se oferece é a da separação e do controle, é a segregação. Não é a paz da justiça, mas a “paz” dos muros e dos checkpoints. É a paz do apartheid, que mantém comunidades inteiras confinadas e subjugadas, seja pelo bloqueio em Gaza ou pela estigmatização e pela violência policial nas favelas.

Um negócio lucrativo

A pacificação, sob o acordo Trump, revela-se não apenas como uma manobra geopolítica, mas como a abertura de uma nova fronteira para a acumulação de capital. A reconstrução de Gaza, que demandará dezenas de bilhões de dólares, constitui um dos maiores contratos de reconstrução do século XXI, atraindo corporações internacionais de diversos setores. Nesse contexto, a administração internacional e os “tecnocratas” funcionam como gestores que intermediarão e direcionarão esse fluxo colossal de recursos, integrando Gaza de forma subordinada aos circuitos globais do capital.

Esta lógica encontra eco em contextos aparentemente distantes, como o das favelas pacificadas do Rio de Janeiro, onde a presença do Estado via Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) foi explicitamente vinculada à geração de um ganho de mercado, na medida em que possibilitou o acesso a regiões antes isoladas no meio da cidade 7.

O sucesso temporário de Trump deve-se menos ao seu “poder de fogo” diplomático e mais à sua capacidade de cooptar as burguesias e regimes regionais com promessas de estabilidade e oportunidades de negócios lucrativos. A participação de países como Egito, Qatar e Turquia não é mera “conivência”, mas uma jogada calculada para garantir sua fatia no novo status quo e, crucialmente, isolar o Irã.

Por fim, ao impor uma administração “apolítica” e “tecnocrata”, o acordo busca esvaziar o conteúdo político da resistência palestiniana, transformando-a de uma luta nacional contra a ocupação em um problema de “gestão” e “segurança”. O objetivo final é produzir uma população pacificada, despolitizada e administrável, cuja soberania seja permanentemente adiada em nome da “eficácia” da reconstrução.

Este processo explicita a violência da paz liberal, onde a chamada “pacificação” revela as condições em que a paz é estabelecida para as condições de mercado, garantido na figura de um constante inimigo, acionado como código para a pacificação permanente exigida na política contemporânea 8.

A pacificação como continuidade da guerra

É incontestável que qualquer paz é preferível à guerra. O cessar-fogo, mesmo imperfeito, poupa vidas imediatas e interrompe a destruição em curso. No entanto, é fundamental discernir que o Acordo de Trump para Gaza e as UPP nas favelas cariocas não constituem uma paz real, mas sim uma metamorfose da violência 8. Eles não representam o fim da guerra, mas sua conversão em um modelo de negócio lucrativo e uma ferramenta de gestão permanente de populações consideradas descartáveis. Esta “pacificação” é, na verdade, a guerra continuada por meios administrativos e econômicos.

Sob o verniz de uma paz fictícia, consolida-se um estado de exceção perene. O que se instala em Gaza sob o “Conselho da Paz” tutelado por Trump 4 e nas favelas sob as UPP 6 não é a soberania popular ou a justiça social, mas um protetorado armado que garante as condições para a acumulação de capital. A “paz” que emerge é a da segregação, dos muros e dos checkpoints, uma paz que mantém comunidades inteiras confinadas e subjugadas. Este processo explicita o que estudiosos identificam como a violência da paz liberal, onde a ordem estabelecida beneficia o mercado e requer um inimigo constante para justificar a pacificação permanente 8.

A verdadeira paz, aquela lastreada na justiça social, na desmilitarização e na autodeterminação dos povos, permanece o objetivo inegociável. Enquanto a “pacificação” servir para disfarçar a guerra e transformá-la em lucro (seja através dos bilhões da reconstrução de Gaza ou da valorização imobiliária nas favelas “pacificadas” 7) estaremos diante de uma farsa que clama aos céus. Desmascarar esta farsa não é um exercício de cinismo, mas o primeiro passo imperativo na luta por uma paz que mereça, de fato, esse nome.


Referências

  1. MARTINS, Leticia. Sem Netanyahu, Trump assina acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza. CNN Brasil. São Paulo: 13 out. 2025.
  2. VALOR. Trump e países mediadores assinam acordo de cessar-fogo em Gaza. Valor Econômico. São Paulo: 13 out. 2025.
  3. JARAMILLO, Alejandra. Casa Branca divulga “Acordo de Paz Trump” assinado em cúpula no Egito. CNN Brasil. São Paulo: 13 out. 2025.
  4. ESTADÃO. Veja a íntegra do plano de paz de Trump para o fim da guerra em Gaza. Estadão. São Paulo: 29 set. 2025.
  5. RICOTTA, Giuseppe. En el territorio del enemigo: las Unidades de Policía de Pacificación (UPP) en una favela de Río de Janeiro. Antípoda. Revista de Antropología y Arqueología. n. 29, p. 63-79, 2017.
  6. MISSE, Daniel Ganem. A pacificação das favelas cariocas e o movimento pendular na segurança pública. Dilemas – Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. v. Especial, n. Esp.3, p. 29-52, 2019.
  7. DE PAULA, Nice. O desafio de empreender nas áreas pacificadas. O Globo. Rio de Janeiro: 13 ago. 2013.
  8. NEOCOLEOUS, Mark; MOTTA, Jonathan; DAVIES, Frank. Guerra como paz, paz como pacificação. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, 32 (1). 2024.

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