Helen Keller: da prisão do silêncio à emancipação proletária

Helen KellerHelen Keller foi uma famosa ativista social dos EUA. Cega e surda por causa de uma doença durante a infância, aos oito anos, foi para o Instituto Perkins para Cegos, onde  aprendeu a se comunicar sentindo, com o tato, a linguagem de sinais feita pelo interlocutor. Foi onde conheceu Anne Sullivan, sua professora, que se tornou sua companhia até sua morte (em 1936). Mais tarde, aprendeu a ler lábios e sentir as vibrações das cordas vocais com o tato, o que a possibilitou aprender a falar.

Keller provou que as limitações sensoriais não são impeditivos para o Livre Pensamento. Graduou-se em filosofia com 24 anos. Durante a faculdade, escreveu sua autobiografia (The Story of My Life), livro que se tornou um dos mais famosos da literatura estadunidense. Era proficiente, além do inglês, em francês, alemão e latim.

Os meios de comunicação tentaram pintá-la apenas como uma defensora dos deficientes físicos, mas Keller foi uma militante das liberdades democráticas, sufragista e pacifista. Membro do SPA (Parido Socialista da América), participou de várias greves operárias e discursou várias vezes para os trabalhadores. Em 1912 se filiou à  Industrial Workers of the World (IWW ou “os Wobblies“) e passou a defender um sindicalismo revolucionário. Internacionalista, visitou 39 países em defesa dos deficientes físicos. Após a Segunda Guerra Mundial, foi ao Japão e a Europa para defender os veteranos feridos.

Neste artigo, Keller responde aos jornais da grande mídia, que por muito tempo a utilizaram para histórias sensacionalistas, mas que não puderam conter seu ódio quando Keller passou a defender as ideias socialistas, o voto para as mulheres e o fim das guerras.

Helen Keller foi uma verdadeira Livre Pensadora. Levantou-se contra as tradições e dogmas, contra a opressão de qualquer tipo, contra as guerras e em defesa do pensamento materialista. Tal como Einstein, identificou suas ideias com as ideias socialistas.


Como me tornei socialista

Helen Keller

Por vário meses, meu nome e o socialismo tem aparecido constantemente juntos nos jornais. Um amigo me disse que eu tenho dividido as primeiras páginas com basebol, Roosevelt e o escândalo da polícia de Nova Iorque. A associação não me faz completamente feliz mas, no geral, fico satisfeita que tantas pessoas estejam interessadas em mim e nas realizações educacionais da minha professora, srta. Macy (Anne Sullivan). Enquanto a notoriedade possa ser usada com fins beneficentes, eu me alegro se a disposição dos jornais em gravar minhas atividades resultarem em trazer mais frequentemente às suas colunas a palavra Socialismo. No futuro, eu espero escrever sobre o socialismo e justificar de alguma maneira a grande quantidade de publicidade que tem sido concedida a mim e a minhas opiniões. Até agora tenho escrito pouco e falado pouco sobre o assunto. Eu escrevi várias cartas, notadamente um para o camarada Fred Warren que foram impressas no Appeal to Reason. Eu tenho falado para vários repórteres, entre os quais, sr. Ireland do New York World, fez um relatório muito lisongeiro e transmitiu completamente e fielmente o que eu disse. Eu nunca estive em Schenectady. Eu nunca encontrei o prefeito Lunn. Eu nunca recebi uma carta dele, mas ele me enviou mensagens gentis pelo sr. Macy. Devido à doença da sra. Macy, qualquer planos que eu tivesse para me juntar aos trabalhadores em Schenectady foram abandonados.

Sobre essas questões negativas e relativamente insignificantes foram escritos vários editoriais na imprensa capitalista e na imprensa socialista. Os recortes enchem uma gaveta. Eu não li nem um quarto delas e eu duvido que eu deva lê-los todos. Se a uma pequena quantidade de fatos se seguiram tantos comentários, o que os jornais farão se eu alguma vez decidir trabalhar seriamente para escrever e falar em nome do socialismo? Para o presente eu vou gostar de fazer uma declaração da minha posição e corrigir alguns relatórios falsos e responder algumas críticas que me parecem injustas.

Primeiro – como me tornei socialista? Pela leitura. O primeiro livro que li foi New Worlds for Old, de H. G. Wells. Li isso por recomendação da srta. Macy. Ela foi atraída pela sua qualidade criativa e esperava que seu estilo elétrico pudesse me estimular e interessar. Quando ela me deu o livro, não era socialista e não o é agora. Talvez ela se torne uma antes que o sr. Macy e eu terminemos de discutir com ela.

Minha leitura tem sido limitada e lenta. Eu obtenho periódicos socialistas alemães impressos em braile para cegos (nossos camaradas alemães estão à nossa frente em muitos aspectos). Eu também tenho versão em braile alemão da discussão de Kautsy do Programa Erfurt. A outra literatura socialista que eu li foi soletrada em minha mão por uma amiga que vem três vezes por semana para ler para mim qualquer coisa que eu escolha. O periódico que eu tenho pedido mais frequentemente para seus animados dedos comunicarem para meus ansiosos é o National Socialist. Ela dá os títulos dos artigos e eu digo a ela qual ler e qual omitir. Eu também tenho feito ela ler para mim os artigos do International Socialist Review que os títulos soem promissores. Soletrar manualmente toma tempo. Não é uma coisa fácil e rápida absorver através dos dedos de alguém um livro de 50 mil palavras sobre economia. Mas é um prazer e um que eu aproveitarei repetidamente até que eu tenha feito conhecer todos os autores socialistas clássicos.

À luz do exposto, gostaria de comentar um fragmento sobre mim que foi impresso na Common Cause e reimpresso na Live Issue, duas publicações antissocialistas. Aqui está uma citação desse fragmento:

“Por 25 anos, a professora e companheira constante da senhorita Keller tem sido a senhora John Macy, ex-Wrentham, Mass. Tanto o sr. quanto a sra. Macy são progagandistas entusiásticos do marxismo e não é surpreendente que a senhorita Keller, que depende de sua amiga de toda a vida para o mais íntimo conhecimento da vida, tenha absorvido essas opiniões.”

O senhor Macy pode ser um propagandista entusiástico do marxismo, embora eu lamente dizer que ele não mostrou muito entusiasmo em propagandear o marxismo pelos meus dedos. A senhora Macy não é marxista nem socialista. Portanto, o que diz a Common Cause sobre ela não é verdade. O editor deve ter inventado isso, tirou isso da manga e, se essa é a maneira como sua mente trabalha, não é surpresa que seja opositor do socialismo. Ele não tem senso suficiente da realidade para ser um socialista ou qualquer outra coisa interessante.

Considere outra citação do mesmo artigo.  A manchete diz:

“VERMELHOS DE SCHENECTADY ESTÃO ANUNCIANDO; USANDO HELEN KELLER, A GAROTA CEGA, PARA RECEBER PUBLICIDADE”

Então o artigo começa:

“Seria difícil imaginar algo mais patético do que a atual exploração da pobre Helen Keller pelos socialistas de Schenectady. Por semanas as agências de imprensa do partido tem anunciado o fato de que ela é socialista e está prestes a se tornar membro da nova Secretaria do Bem-Estar Público de Schenectady.”

Há uma chance para um comentário satírico na frase, “a exploração da pobre Helen Keller”, mas eu vou abster-me, dizendo simplesmente que eu não gosto da simpatia hipócrita de um jornaleco como o Common Cause, mas eu fico feliz que ele saiba o que significa a palavra “exploração”.

Vamos aos fatos. Quando o prefeito Lunn soube que eu poderia ir para Schenectady, propôs à Secretaria do Bem-Estar Público de Schenectady que um lugar ali deveria ser reservado para mim. Nada sobre isso foi impresso no The Citizen, o jornal do prefeito Lunn. De fato, era a intenção da secretaria não dizer nada sobre o assunto até que eu me mudasse para Schenectady. Mas os repórteres da imprensa capitalista ficaram sabendo do plano e, um dia durante a ausência do prefeito Lunn de Schenectady, o Knickerbocker Press de Albany fez o anúncio. Isso foi telegrafado por todo o país e então começou a verdadeira exploração dos jornais. Pela imprensa socialista? Não, pela imprensa capitalista. Os jornais socialistas imprimiram as notícias e alguns deles escreveram editoriais de boas vindas. Mas The Citizen, jornal do prefeito Lunn, preservou o silêncio e não mencionou meu nome durante todas as semanas quando os repórteres telefonaram e telegrafaram pedindo entrevistas. Isso foi o que a imprensa capitalista fez para explorar. Por quê? Porque os jornais comuns não se importam com o socialismo? Não, claro que não; eles o odeiam. Mas porque eu, ai de mim, sou assunto de fofoca para os jornais. Nós ficamos tão cansados de negar que eu estivesse em Schenectady que eu comecei a não gostar do repórter que primeiro publicou a “notícia”.

Os jornais socialistas, isso é verdade, fizeram um grande negócio de mim depois que os jornais capitalistas “anunciaram o fato de eu ser socialista”. Mas todos os repórteres que vieram me ver foram dos jornais comerciais comuns. Nenhum jornal socialista, nem o The Call nem o National Socialist alguma vez me pediram por um artigo. O editor do The Citizen insinuou ao sr. Macy que ele gostaria de um, mas teve fineza e consideração suficientes para não pedir a queima roupa.

O The New York Times pediu-me um. O editor do Times escreveu garantindo que seu jornal era um meio valioso para atingir o público e ele precisava de um artigo meu. Ele também telegrafou me pedindo para enviar a ele uma explicação de meus planos e um esboço de minhas ideias como membro da Secretaria do Bem-Estar Público de Schenectady. Estava feliz por não ter atendido esse pedido quando, dias depois, o Times me tornou um pária social para além do alcance de suas honestas simpatias. Em 21 de setembro apareceu no Times um editorial chamado “A Desprezível Bandeira Vermelha”. Eu cito duas passagens dele:

“A bandeira é livre. Mas não menos detestável. Ela é o símbolo da falta de lei e anarquia em todo o mundo e, como tal, é desprezado por todas as pessoas sensatas.”

“O portador de uma bandeira vermelha pode não ser molestado pela polícia até que cometa um ato que a bandeira vermelha justifique. Ele merece, no entanto, sempre ser visto com desconfiança. Ao carregar o símbolo da anarquia, perde todos os direitos ao respeito e simpatia”

Eu não sou adoradora de tecidos de qualquer cor, mas eu amo a bandeira vermelha e o que ela simboliza para mim e outros socialistas. Eu tenho uma bandeira vermelha pendurada no meu escritório e se eu puder, eu teria prazer em marchar com ela até o escritório do Times e deixar todos os repórteres e fotógrafos construírem mais um espetáculo. De acordo com a condenação inclusiva do Times, eu perdi todo o direito ao respeito e à simpatia e eu sou vista com desconfiança. No entanto, o editor do Times que que eu lhe escreva um artigo! Como ele pode confiar em mim para escrever se eu sou uma personagem suspeita? Eu espero que você aproveite tanto quanto eu a ética ruim, a lógica ruim, os maus modos em que um editor capitalista cai quando tenta condenar o movimento que combate os interesses plutocráticos. Nós não temos o direito à simpatia, mas alguns de nós podem escrever artigos que ajudarão seu jornal a ganhar dinheiro. Provavelmente nossas opiniões tem o mesmo tipo de valor para ele que ele poderia encontrar na confissão de um assassino famoso. Nós não somos bons, mas somos interessantes.

Eu gosto dos jornalistas. Eu conheço vários e dois ou três editores estão entre meus mais íntimos amigos. Além disso, os jornais tem sido de grande ajuda no trabalho que nós temos tentado fazer para os cegos. Não lhes custa nada prestar apoio ao trabalho com cegos e outras caridades superficiais. Mas socialismo – ah, essa é outra questão! Essa vai à raiz de toda pobreza e toda caridade. O poder do dinheiro por trás dos jornais estão contra o socialismo, e os editores, obedientes à mão que os alimenta, farão qualquer coisa para derrubar o socialismo e minar a influência dos socialistas.

Quando minha carta ao camarada Fred Warre foi publicada no Appeal to Reason, um amigo que escreve uma coluna especial para o Boston Transcript fez um artigo sobre isso e o editor chefe cortou-o.

O Brooklyn Eagle disse, sobre mim e o socialismo, que os erros de Helen Keller “saltam das manifestas limitações de seu desenvolvimento”. Alguns anos atrás eu encontrei um cavalheiro que me apresentou ao sr. McKelway, editor do Brooklyn Eagle. Isso foi depois de uma reunião que eu tive em Nova Iorque em defesa dos cegos. Naquele tempo, os comprimentos que ele me dirigiu foram tão generosos que eu coro só de lembrar deles. Mas agora que eu saio em defesa do socialismo ele me lembra a ao público que eu sou cega e surda e especialmente passível de errar. Minha inteligência deve ter encolhido durante os anos desde que eu o encontrei. Certamente é sua vez de corar. Pode ser que a surdez e a cegueira inclinem alguém ao socialismo. Marx provavelmente foi surdo e William Morris foi cego. Morris pintou seus retratos pelo tato e projetou papéis de parede pelo olfato.

Oh, ridículo Brooklyn Eagle! Que pássaro deselegante ele é! Socialmente cego e surdo, defende um sistema intolerável, uma sistema que é a causa de muitas das cegueiras e surdezes físicas que nós tentamos prevenir. O Eagle está disposto a nos ajudar a prevenir a miséria desde que, apenas desde que, nós não ataquemos a tirania industrial que causa isso e tampa seus ouvidos e turva sua visão. O Eagle e eu estamos em guerra. Eu odeio o sistema que ele representa, desculpa e defende. Quando ele contra-atacar, deixe-o atacar com justiça. Deixe-o atacar minhas ideias e se opor aos objetivos e argumentos do socialismo. Não é uma luta justa ou um bom argumento me lembrar e aos outros que eu não posso enchergar ou escutar. Eu posso ler. Eu posso ler todos os livros socialistas. Eu tenho tempo para isso em inglês, alemão e francês. Se o editor do Brooklyn Eagle puder ler alguns deles, ele poderia ser um homem mais sábio e fazer um jornal melhor. Se eu algum dia contribuir com o movimento socialista com o livro que eu às vezes sonho fazer, eu sei qual deve ser o nome dele: Cegueira e Surdez Social da Indústria.


Fonte: How I Became a Socialist
Tradução: Maurício Sauerbronn de Moura

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2 pensamentos sobre “Helen Keller: da prisão do silêncio à emancipação proletária

    • Guilherme ,

      Keller escreveu um livro sobre isso que foi publicado em 1927 pela Fundação Swedenborg em que (sem surpresa) declara sua admiração pelo pensamento de Emanuel Swedenborg. Este foi um engenheiro sueco que escreveu e sistematizou várias teorias pseudocientíficas (os habitantes de Vênus e da Lua, por exemplo, ou o “fluído da alma” que nasce no cérebro e “inunda” o corpo). Dizia-se medium e afirmava ter contato com Jesus de Nazaré em pessoa. Swedenborg criou uma panaceia religiosa que mistura suas teorias pseudocientíficas com a maçonaria (Rito de Swedenborg).

      Vários Livres Pensadores da história tiveram (e tem) relação com a maçonaria. No caso de Keller, ela deixa bem claro que segue as ideias de Swedenborg por um simples motivo: ele promete que ela terá uma nova vida (após a morte) em que poderá ver e ouvir. Convenhamos, é um argumento bem forte.

      De qualquer forma, não foi nem o dogmatismo nem a religiosidade que marcaram sua vida. Ao contrário, Keller posicionou-se e defendeu publicamente contra os dogmas e as tradições, inclusive as religiosas. Keller lutou ativamente pelo direito ao voto universal (para mulheres, negros, pobres), lutou ativamente contra o capitalismo (e, portanto, contra o “sagrado” direito à propriedade).

      Assim como Swedenborg, Keller foi usada por toda sorte de religiosos e oportunistas. Até hoje ambos são utilizados por cristãos e espíritas, que “esquecem” oportunamente o que ambos realmente defenderam em seus escritos e ações.

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