O Mito da Caverna de Platão em quadrinhos

O Mito da Caverna, ou Alegoria da Caverna, é um texto do filósofo grego Platão, parte do Livro VII de A República. Através de um diálogo entre as personagens Sócrates e Glauco, Platão faz uma parábola para demonstrar como a escuridão e as trevas da ignorância podem ser superadas pela busca do conhecimento, da verdade.

As sombras projetadas pela pouca luz que entra na caverna representam o senso comum, a crença acrítica no relato anedótico, nas tradições e nos dogmas. É literalmente a visão parcial e limitada, mas vista pelos homens da caverna como sendo todo o mundo.

Por outro lado, a saída da caverna e a busca da luz é a busca pelo conhecimento, pela verdade. No início pode assustar e até fascinar, mas é a única forma de viver plenamente.

Esta versão, do estúdio de Maurício de Souza, é de 2002 e nos traz uma bem humorada visão dessa parábola. No final, o trecho de A República que contém a alegoria.





















Diálogo de Sócrates com Glauco

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.

Glauco: Entendo

Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.

Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!

Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?

Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?

Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?

Glauco: É claro.

Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?

Glauco: Evidentemente.

Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

Glauco: Sim, por Zeus.

Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.

Glauco: Não poderia ser de outra forma.

Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.

Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

Glauco: Sem dúvida alguma.

Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.

Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.

Glauco: Sem dúvida.

Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.

Glauco: Certamente.

Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.

Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

Glauco: Claro que sim.

Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?

Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.

Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

Glauco: Naturalmente.

Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.

Texto: A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c. Tradução de Lucy Magalhães.
Quadrinhos: Maurício de Souza Produções, 2002
* Agradecimento ao Texugo pela força.
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18 pensamentos sobre “O Mito da Caverna de Platão em quadrinhos

  1. O fácil e o falso nessa recriação é pensar que quem não assiste televisão estaria fora da “caverna”… Essa presunção nada tem a ver, nada mesmo, com a hipótese da alegoria da caverna. Os antigos e os gregos, aos quais “A República” se reporta, não tinham rádio, cinema ou televisão…

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    • Emilia, não entendi bem sua crítica. Não ficou claro pra você que o tempo passou? Na penúltima tirinha, o Piteco muda de roupa pra dar a entender que os séculos passaram até chegar a nossos dias.

      Perceba que há uma similaridade física objetiva entre o ato de olhar as imagens em uma parede e em uma caixa. O ato é estritamente o mesmo: sentar e olhar imagens.

      Mais que isso: ambas são representações parciais do mundo real e não expressam o mundo real em sua totalidade. É disso que se trata: a busca pelo conhecimento além da visão limitada e parcial inerente a ambas as representações do mundo.

      Além disso, você sabe que o Piteco é um personagem infantil, né?

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      • Maurício, acredito que ficou claro sim para a Emília que o tempo passou. Há sim uma similaridade das sombras da caverna com a televisão, mas acreditar que deixar de ver televisão significa sair da caverna é uma grande ilusão. Não que a intenção dos quadrinhos seja passar esta mensagem, mas pode ser uma interpretação. Ali, fica uma mensagem de que a televisão é algo que te mantém na condição de ignorância e alienação (estar na caverna), mas vale lembrar que a TV não é o único meio midiático ou de transmissão da informação.

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        • Carlos, onde catzo você achou alguém escrevendo aqui que acha que “deixar de ver televisão significa sair da caverna”? De ondo diabos você tirou a ideia de que alguém aqui afirmou que a TV é o único meio de “transmissão da informação”?

          Sério mesmo que de todo esse texto e essa história em quadrinhos, a única informação que vocês absorveram é a televisão?

          Outra coisa: “mídia” já é “meio”. Não faz sentido dizer “meio midiático”. “Midiático” já é “meio de transmissão de informações” e não se pode dizer “mídiático ou de transmissão de informação”. Seria o mesmo que dizer “a cor é branca ou branca”.

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        • Voltando, Maurício, você que não compreendeu além das imagens e está cometendo exatamente o erro que a Emília comentou. A televisão pode ser sim a caverna atual, mas lembre-se que isso é uma alegoria e que estar na caverna não se resume ao fato de sentar e assistir sombras ou imagens, ou vc acha mesmo que os indivíduos que Platão, no personagem de Sócrates, descreve realmente viviam em um buraco na terra?

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          • Carlos, sério. Você tá de sacanagem com a minha cara?

            Qual parte do “similaridade física objetiva” não está clara para você?

            Qual parte do “ambas são representações parciais do mundo real e não expressam o mundo real em sua totalidade” não está clara pra você?

            Como você mesmo disse, Carlos, é uma ALEGORIA (substantivo feminino. Modo indireto de representar uma coisa ou uma ideia sob a aparência de outra). Será que a capacidade de abstração de vocês dois é tão tosca assim, gente?

            Vamo lá, né? Me ajuda a te ajudar.

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  2. mt bom Mauricio, ver as imagens projetadas na parede ou numa caixa e apegar-se a elas como verdades com toda certeza causariam problemas pois como na alegoria se descreve, não se tem o conhecimento do todo, sendo assim é necessário sair e olhar o mundo de outras formas além da caixa…

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  3. Pingback: Alegoria da caverna, de Platão, segundo Mauricio de Sousa | Dona de Filosofia

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  5. Magnífico, Maurício! Conseguiu captar a ideia de Platão, intertextualizou e adaptou a nossa época. Ah! Ainda bem que a tirinha é para criança, pois parece que os adultos estão acorrentados na prisão do mundo irreal e perderam a capacidade de raciocínio!

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