Jovens judeus vivem ruptura com sionismo

Eles não apoiam o Estado de Israel. Mesmo vindo de famílias judaicas tradicionais, seus corações e mentes são solidários à causa palestina. Parentes e amigos reagem com rancor, mas este grupo de jovens rechaça as crenças sionistas

Yuri Haasz, Elena Judensnaider, Shajar Goldwaser, Bruno Huberman e Bianca Neumann Marcossi gostam dos quadrinhos pró-palestinos de Joe Sacco e têm simpatia pelo polêmico “A Invenção do Povo Judeu”, de Shlomo Sand. Aplaudem filmes como “Lemon Tree” e documentários como “Defamation” ou “The Gate Keepers”, narrativas críticas ao Estado de Israel.

Para além de um repertório cultural pouco comum entre os judeus, os cinco chamaram atenção quando se reuniram, no dia 8 de julho, junto com outros colegas, para repudiar a ação militar de Israel na Faixa de Gaza. Diante do consulado desse país em São Paulo, ergueram cartazes de protesto que horrorizaram parte da comunidade judaica.

Estes jovens, em roda de conversa com Opera Mundi, relataram sua trajetória de contestação ao sionismo e a reação que sua atitude provoca entre familiares. Discutiram também o que é ser judeu no século 21, problematizando a proposta de dois Estados para dois povos e repensando a própria existência de um lar nacional judaico encarnado por Israel.

“Queremos deixar claro, em nossa condição judaica, que não compactuamos com a opressão ao povo palestino e o massacre de civis em Gaza”, afirma Yuri Haasz. “Israel não atua em autodefesa, mas com a intenção de ocupação territorial, para inviabilizar a criação de dois Estados.”

“Eu queria entender a raiva dos palestinos”

YuriYuri é o mais velho integrante deste recém criado grupo de jovens que romperam com o sionismo.  Nasceu na cidade israelense de Haifa, em 1972. Seus pais, filhos de judeus imigrantes que escolheram viver no Brasil, tinham retornado a Israel em 1967, a bordo de um navio, porque acreditavam ter o dever de defender o país na guerra então travada contra nações árabes. Quando chegaram, o conflito já tinha acabado, após seis dias. Mas permaneceram até 1985, quando retornaram ao Brasil.

Quando estava em idade de serviço militar, Yuri repetiu o movimento dos pais. Voltou a Israel para se alistar na Força Aérea. Era a época da primeira Intifada, irrompida em 1987 e que se estenderia até 1993. Tinha muitos pesadelos e, aos poucos, começou a se sentir atormentado pela escolha que fizera. Deu baixa antes de se apresentar e retornou ao Brasil.

A tensão árabe-israelense, porém, se já não o animava a pegar em armas, continuava a ser de seu interesse como estudo, para entender sua lógica. “Li muito dos novos historiadores israelenses e autores da sociologia crítica”, relata. “Eu queria entender a raiva dos palestinos. Fui encontrar essas explicações em escritores como Ilan Pappe e Schlomo Sand, que descreviam a criação do Estado de Israel de forma antagônica aos sionistas, mostrando a expulsão dos árabes de suas terras e o processo de limpeza étnica inerente à construção de um Estado judaico.”

Yuri fez mestrado em Relações Internacionais, decidido a estudar resoluções de conflito. Foi parar em Tóquio, já casado com Sandra Caselato, uma brasileira goy (uma não-judia, em hebraico). A bolsa incluía uma pesquisa de campo para passar seis meses em Jerusalém e nos territórios palestinos ocupados na Cisjordânia.

“Foquei minha pesquisa nos principais ativistas judeus pró-Palestina e como lidavam com sua educação sionista padrão”, explica. “Muitos vinham de famílias religiosas tradicionais e tinham experiência militar. Viram absurdos que ocorriam nos territórios palestinos, praticados pelas forças de segurança ou colonos israelenses, e se sentiam sozinhos. Alguns entrevistados confessaram tentativas de suicídio. Uma situação dramática, na qual se perde a identidade que você sempre acreditou que deveria ter.”

“O problema de fundo é o sistema erguido pelo sionismo”

Shajar“Apesar de não ser religioso, sou muito judeu”, brinca Shajar Goldwaser, de 21 anos. Assim como Yuri, ele nasceu em Israel. Mais precisamente, em Jerusalém. Aos quatro meses, partiu para Buenos Aires e em 2001 chegou a São Paulo, sempre frequentando escolas judaicas tradicionais. “Volto para Israel ao menos uma vez por ano. Sempre falei hebraico em casa, é minha língua materna”, conta.

O estudante de Relações Internacionais relata que um momento decisivo para sua guinada crítica foi quando participou da Marcha da Vida, em 2011. Trata-se de uma viagem de duas semanas que engloba colégios judaicos de todas as partes do mundo com o intuito de conhecer antigos campos de concentração na Polônia e destinos sagrados em Israel.

“Na volta da viagem, a professora pediu para escrevermos uma redação e ‘A hipocrisia judaica’ foi o título que dei a meu trabalho”, relata Goldwaser. “A viagem me fez questionar se o sentimento dos palestinos não seria, atualmente, o mesmo dos judeus naquela época.”

A partir de suas reflexões acerca dessa experiência, Shajar começou a repensar o papel de Israel. Militante do Dror, movimento juvenil sionista alinhado com setores mais progressistas, seus questionamentos passaram a ir além de questionar eventualmente politicas do governo israelense. “O problema de fundo é o sistema erguido pelo sionismo, cujos resultados não podem ser diferentes que a segregação e o colonialismo”, ressalta.

Saindo do armário

Elena“Falar que deixou de ser sionista, na maioria dos ambientes judaicos, é como sair do armário: você já sabe, sempre sentiu, mas quando fala para a família, é pura tensão”, brinca a socióloga Elena Judensaider, de 22 anos.

Embora tenha frequentado o clube Hebraica na infância, Elena se desligou da instituição após a separação dos pais e se afastou da convivência com a comunidade judaica. Por muito tempo manteve-se distante de qualquer discussão sobre o tema Israel-Palestina.

“Sabia que, se fosse enfrentar esta questão, iria me incomodar com suas contradições”, relata Elena. “Um dia, porém, acordei assim, do nada, e decidi estudar esse conflito – e meu trabalho de conclusão do curso foi sobre isso. Minha opinião era clara: o Estado de Israel era a origem de tanto ódio e sofrimento do povo palestino.” Lembra-se que não demorou a sofrer retaliações, na medida em que começou a difundir suas opiniões críticas nas redes sociais.

“Uma amiga de infância colocou mensagens em hebraico, no mural do meu Facebook”, recorda. “Eram frases do tipo ‘você tem que morrer com esses terroristas’. Até uma prima me ligou chorando e berrando que eu era antissemita.”

Sua relação com a mãe, porém, passou por transformações positivas. “Nunca tínhamos conversado a respeito de Israel”, conta Elena. “Quando eu passei a estudar sobre o tema, ela via os filmes e lia os livros que eu deixava no meu quarto. Um dia, escreveu em seu blog que, pelo exemplo da filha, tinha mudado a cabeça em seis meses sobre temas que tinha acreditado por 40 anos.”

“Pra quê você foi para a Palestina?”

BiancaAo contrário de Elena, a professora de história Bianca Neumann Marcossi, de 25 anos, teve uma formação sionista forte. Após o suicídio da mãe e do pai, a comunidade judaica foi um dos seus principais alicerces. “Aprendi na escola que tinha que salvar Israel e tinha pesadelos com palestinos”, relata.

A mudança viria ao ingressar no curso de história, na USP (Universidade de São Paulo). O ambiente crítico às atitudes tomadas pelo governo de Israel foi um verdadeiro choque. “Fiquei assustada. Ou eu estava no meio de antissemitas e precisava sair dali ou era a ignorante e precisava estudar”, conta.

Durante a formação universitária, Bianca descobriu um programa que tinha como objetivo levar pessoas estrangeiras para passar uma temporada na Cisjordânia e reportar os problemas da região para ONGs de direitos humanos. “Estar na Palestina mudou tudo. Ficou tudo muito claro. Ver as leis da ocupação, as terras roubadas. Sofri bastante”, suspira.

O problema mesmo viria depois da excursão. Bianca dava, à época, aulas de História Geral em um colégio judaico. Quando voltou da viagem aos territórios ocupados, foi informada que tinha sido demitida. A direção da escola não lhe deu satisfações sobre os motivos, mas descobriu que muitos pais pediram para ela ser afastada.  “Foi um choque muito grande quando voltei. Eu tinha tanto a dizer, mas ninguém queria ouvir minhas histórias”, conta.

“Nem vamos conversar que vai dar merda”

BrunoO espaço para discutir sobre a vivência na região também afetou o jornalista e mestre em Relações Internacionais Bruno Huberman, de 26 anos. Ele conta que em 2011 foi pela primeira vez a Israel por meio do Taglit, uma excursão de 10 dias organizada por entidades judaicas. “Foi uma imersão sionista, uma lavagem cerebral”, classifica.

Huberman aproveitou a viagem para fazer um especial sobre territórios palestinos para a revista Carta Capital. “Foi o primeiro choque. Muitos primos me xingaram”, conta. A tensão na família piorou depois do ato diante do consulado. “Fui ao aniversário de uma priminha e minha tia já veio falando: ‘nem senta aqui, nem vamos conversar que vai dar merda’.”

Como a recusa ao sionismo é encarada como uma verdadeira subversão, situações como essas com familiares e amigos fazem parte da rotina de Yuri, Shajar, Elena, Bianca e de Bruno. “Eles não querem entrar em uma discussão sobre o conflito. Se entrarmos em uma conversa mais profunda, nem sei aonde isso vai chegar”, rebate Bruno.

Voz dissidente

Aos poucos estes cinco jovens judeus, ao lado de mais duas ou três dezenas de outros colegas com trajetórias similares, foram se agrupando para estudar coletivamente o tema e organizar sua participação no debate dentro da comunidade.

O primeiro espaço no qual se aglutinaram foi no Forum 18, ironicamente incentivado pela B’nai B’rith, a mais antiga organização sionista e dedicada a temas de direitos humanos. Disposta a enfrentar o debate sobre um conflito que permeia a juventude judaica no Brasil, a entidade resolveu abrir uma série de seminários que abrigassem as distintas narrativas sobre Israel e a questão palestina. Incluindo os pontos de vista não-sionistas.

“Aqueles que haviam rompido com o sionismo foram criando uma nova identidade, dissidente da posição majoritária na comunidade”, explica Yuri Haasz. “Não nos definimos por uma solução específica para o problema, ainda que sejamos favoráveis à criação de um Estado palestino soberano e viável. A verdade, porém, é que não acreditamos no comprometimento de Israel com essa solução. A natureza do sionismo, ao longo do tempo, se afirmou como expansionista e colonizadora. Muita gente se assusta, mas essa situação nos faz defender claramente o direito de resistência do povo palestino.”

O grupo não tem nome, ainda que brinquem de se auto-reconhecer como o “jewish block”, mesmo que não recorram a coquetéis molotov ou a máscaras. Vários de seus integrantes trabalham em programas de solidariedade aos palestinos, como a FFIPP (em inglês, Faculty for Israeli-Palestinian Peace, conhecida no Brasil como Rede Educacional pelos Direitos Humanos na Palestina e em Israel). A associação organiza anualmente estágios para quem quiser conhecer de perto a realidade do conflito, a partir de um roteiro que se contrapõe à versão sionista.

“Nós trabalhamos e nos organizamos para denunciar os crimes cometidos pelo Estado de Israel”, afirma Haasz. “Queremos que mais judeus possam enxergar o que se passa e romper com os dogmas de sua formação, abrindo-se para a solidariedade anticolonial com o povo palestino.”

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