Um diálogo sobre a razão

Em um tempo em que a irracionalidade tomou totalmente conta das redes sociais, da política, da cultura e até, em vário momentos, da medicina e da pesquisa acadêmica, será que o pensamento racional perdeu seu poder?

Em 2012 o TED (Technology, Entertainment and Design) gravou um bate papo entre o linguista Steven Pinker e a filósofa Rebecca Newberger Goldstein em que eles discutem e chegam à conclusão de que é a razão o motor da moralidade.

Steven é linguista e escritor de best-sellers em que questiona a natureza de nossos pensamentos. Através da análise da linguagem, ele busca definir até que ponto as ações humanas são inatas e até que ponto são fruto do ambiente.

Rebecca também é escritora, tanto de ficção quanto de não ficção. É apaixonada pelos diálogos socráticos e defende a importância da filosofia, inclusive em seus livros de ficção.



Rebecca: A Razão parece estar em tempos difíceis: A cultura popular busca novas profundidades de burrice e discurso político tornou-se uma corrida para o fundo do poço. Nós estamos vivendo na era do criacionismo científico, teorias da conspiração 11/9, disque cartomante, e um ressurgimento do fundamentalismo religioso. Pessoas com grandes mentes são frequentemente acusadas ​​de elitismo, e até mesmo no meio acadêmico, há ataques ao logocentrismo, o crime de deixar a lógica dominar nosso pensamento.

Steven: Mas isso é necessariamente algo ruim? Talvez a razão seja super valorizada. Muitos especialistas têm argumentado que um bom coração e clareza moral inabalável são superiores às triangulações de políticas super educativas, como o melhor e mais brilhante que nos arrastou no atoleiro do Vietnã. E não foi a razão que nos deu os meios para abusar do planeta e ameaçam nossa espécie com armas de destruição em massa? Nesta forma de pensar, é caráter e consciência, não um coração frio calculista, que nos salvará. Além disso, um ser humano não é um cérebro num palito. Os meus colegas psicólogos têm mostrado que somos guiados por nossos corpos e nossas emoções e usamos nossos poderes insignificantes da razão meramente para racionalizar nossas intuições após o fato.

R: Como poderia um argumento logicamente fundamentado requerer a ineficácia dos argumentos fundamentados? Olha, você está tentando nos persuadir da impotência da razão. Você não está nos ameaçando ou subornando. sugerindo que resolver o problema com votação ou um concurso de beleza. Pelo próprio ato de tentar racionalizar-nos na sua opinião, você está admitindo a potência de razão. A razão não está em debate. Não pode estar. Você veio para este debate e você já perdeu.

S: Mas pode a razão nos levar em direções que são boas ou decentes ou morais? Afinal, você mostrou que a razão é apenas um meio para um fim, e o final depende da paixão do argumentador. A razão pode mostrar o caminho para a paz e harmonia se o pensador quer a paz e harmonia, mas também pode mostrar o caminho a conflitos e lutas se o argumentador goza de conflito e discórdia. Pode a razão forçar o argumentador a querer menos crueldade e desperdício?

R: Por si só, a resposta é não, mas não é preciso muito para mudá-la para sim. Você precisa de duas condições: A primeira é que todos os argumentadores se importem com o seu próprio bem-estar. Essa é uma das paixões que tem de estar presente a fim de que a razão funcione, e está, obviamente, presente em todos nós. Todos nós nos importamos apaixonadamente sobre o nosso próprio bem-estar. A segunda condição é que argumentadores sejam membros de uma comunidade de argumentadores que possam afetar o bem-estar do próximo, possam trocar mensagens, e compreender o argumento um do outro. E isso é certamente verdade em nossa espécie comunicativa e extrovertida, bem dotada de instinto para linguagem.

S: Bem, isso parece bom em teoria, mas tem funcionado desta maneira na prática? Em particular, isto pode explicar um desenvolvimento histórico importante que falei há cinco anos aqui no TED? Claramente, parece que estamos ficando mais humanos. Séculos atrás, os nossos antepassados queimavam gatos vivos como uma forma de entretenimento popular. Cavaleiros travaram uma guerra constante uns com os outros tentando matar o maior número de camponeses possíveis. Governos matavam pessoas por motivos fúteis, como o roubo de um repolho ou por criticar o jardim real. As execuções foram projetadas para serem prolongadas e dolorosas ao máximo, como a crucificação, estripação, pena de morte na roda. Pessoas respeitáveis ​​mantinham escravos. Por todos os nossos defeitos, nós abandonamos estas práticas bárbaras.

R: Então, você acha que foi a natureza humana que mudou?

S: Não exatamente. Acho que ainda abrigamos instintos que podem exteriorizar em violência, como a ganância, tribalismo, vingança, dominação, sadismo. Mas também temos instintos que podem nos conter, como auto-controle, empatia, senso de justiça, o que Abraham Lincoln chamou de os “anjos bons” da nossa natureza.

R: Então, se a natureza humana não mudou, o que revigorou aqueles “anjos bons”?

S: Bem, entre outras coisas, nosso círculo de empatia se expandiu. Anos atrás, nossos ancestrais sentiam a dor apenas de sua família e das pessoas em sua aldeia. Mas, com a expansão da alfabetização e transporte, as pessoas começaram a se simpatizar com círculos cada vez mais amplos, o clã, a tribo, a nação, a raça, e talvez, eventualmente, toda a humanidade.

R: Poderão os cientistas cabeça-dura realmente dar tanto crédito à empatia do coração mole?

S: Eles podem e fazem. Neurofisiologistas descobriram neurônios no cérebro que respondem às ações de outras pessoas da mesma forma como eles respondem às nossas. A empatia surge no início da vida, talvez antes de um ano de idade. Livros sobre a empatia se tornaram best-sellers, como “A civilização da empatia” e “A era da empatia”.

S: Eu estou com a empatia. Digo, quem não está? Mas ela, por si só, é um instrumento frágil para realizar um progresso moral. Por um lado, é intrinsecamente tendencioso em direção à relações de sangue, bebês e animais carinhosos e fofinhos. Até onde a empatia é parte da preocupação, agentes externos maus podem ir para o inferno. E até mesmo os nossos melhores esforços para aprimorar a simpatia para aqueles que não estão ligados a nós, aparece claramente como uma verdade triste da natureza humana, apontada por Adam Smith:

Vamos supor que o grande império da China foi, de repente, engolido por um terremoto, e vamos considerar como um homem humano na Europa reagiria ao receber informações desta calamidade terrível. Ele iria, imagino eu, muito fortemente primeiramente expressar sua tristeza com a infelicidade dessas tristes pessoas. Ele faria muitas reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana, e quando todos estes sentimentos humanos tivessem sido bem expressados, ele iria atrás de seus próprios problemas ou de seu prazer com a mesma facilidade e tranquilidade como se tal acidente não tivesse acontecido. Se ele estivesse prestes a perder o seu dedo mindinho amanhã, ele não iria dormir esta noite, mas já que ele nunca os viu, ele iria roncar com a mais profunda segurança sobre a ruína de uma centena de milhões de seus irmãos.

S: Mas se a empatia não for o suficiente para nos tornar mais humano, o que mais estaria lá?

R: Bem, você não mencionou o que poderia ser um dos nossos mais eficazes “bons anjos”: a razão. Razão tem força. É a razão que fornece o impulso para ampliar aquele círculo de empatia. Cada um dos desenvolvimentos humanitários que você mencionou se originou de pensadores que deram razões ao por que algumas práticas eram indefensáveis. Eles demonstraram que a forma como as pessoas tratavam alguns grupos externos específicos era logicamente inconsistente com a maneira como eles insistiam em serem tratados.

S: Você está dizendo que a razão pode realmente mudar as mentes das pessoas? As pessoas não mantêm qualquer convicção que serve os seus interesses ou que estão de acordo com a cultura em que cresceram?

R: Aqui está um fato fascinante sobre nós: contradições nos incomodam, pelo menos quando somos forçados a enfrentá-las, que é apenas outra maneira de dizer que elas são suscetíveis à razão. E se você olhar para a história do progresso moral, você pode traçar uma linha direta dos argumentos racionalizados até as mudanças na maneira com que nós realmente sentimos. De vez em quando, um pensador colocaria para fora um argumento sobre o por quê de alguma prática ser indefensável, irracional, inconsistente com os valores mantidos. Suas pesquisas se tornariam virais, seriam traduzidas em muitas línguas, seriam debatidas em bares e cafés e salões de beleza, e em jantares festivos, e influenciar líderes, legisladores, a opinião popular. Eventualmente, suas conclusões são absorvidas para o bom senso da decência, apagando os traços do argumento original que nos tinha feito chegar até eles. Poucos de nós sente, hoje, qualquer necessidade de colocar adiante um rigoroso argumento filosófico do porque a escravidão é errada ou enforcamentos públicos ou bater em crianças. Atualmente, essas coisas são percebidas como erradas. Mas os argumentos tiveram que ser feitos, e eles foram, em séculos passados.

S: Você está dizendo que as pessoas precisavam de argumentos graduais para entender por que algo pode estar um pouquinho errado em queimar pessoas hereges na fogueira?

R: Oh, eles precisaram. Aqui está o teólogo francês Sebastian Castellio argumentando:

Calvin diz que ele está certo, e outras seitas dizem que elas estão. Quem será o juiz? Se o assunto é certeiro, a quem cabe o juízo? A Calvin? Mas então, por que ele escreve tantos livros sobre a verdade manifestada? Tendo em vista a incerteza, nós devemos definir os hereges simplesmente como um de quem discordamos. E se, em seguida, vamos matar os hereges, o resultado lógico será uma guerra de extermínio, uma vez que cada um está seguro de si mesmo.

S: Ou com castigos horríveis como a Morte na Roda?

R: A proibição em nossa constituição contra punições cruéis e incomuns foi uma resposta a um panfleto que circulou em 1764 pelo jurista italiano Cesare Beccaria.

Conforme punições tornam-se mais cruéis, as mentes dos homens, que, como os fluidos sempre adaptam-se aos níveis dos objetos que os cercam, se endurecem, e depois de cem anos de penas cruéis, a Morte da Roda não causa mais medo do que a prisão anteriormente causou. Para uma punição atingir o seu objetivo, é necessário somente que o dano infligido supere o benefício que deriva do crime, e neste cálculo deve ser considerada a certeza da punição e a perda do bem que a prática do crime irá produzir. Tudo além disso é supérfluo, e, portanto, tirânico.

S: Mas, certamente, os movimentos anti-guerras dependiam das manifestações em massa e melodias cativantes de cantores populares e fotografias impactantes dos custos humanos da guerra.

R: Sem dúvida, mas os movimentos modernos anti-guerras remetem à uma longa gama de pensadores que tinham discutido o por que do nosso dever em mobilizar nossas emoções contra guerras, tal como o pai da modernidade, Erasmus.

As vantagens derivadas da paz difundem-se por toda parte, e alcançam grandes números, enquanto na guerra, se algo terminar bem, a vantagem se faz presente para poucos, e para aqueles indignos de colher tal felicidade. A segurança de uma pessoa é devido à destruição de outra. O prêmio de uma pessoa é derivado da privação de outros. A causa dos gozos de um grupo é, para o outro grupo, motivo de luto. Tudo o que é lamentável na guerra, é severamente lamentado, de fato, e qualquer que seja o contrário, chamado de boa sorte, é uma sorte selvagem e cruel, uma felicidade mesquinha, com existência derivada a partir da desgraça de outros.

S: Mas todo mundo sabe que o movimento para abolir a escravidão dependia de fé e emoção. Foi um movimento liderado pelos Quacre, e somente tornou-se popular quando o romance de Harriet Beecher Stowe “A Cabana do Pai Tomás” tornou-se um best-seller.

R: Mas o assunto ainda remete a um século atrás. John Locke contrariou a “maré” milenar que considerava a prática como perfeitamente natural. Ele argumentou que era inconsistente com os princípios de um governo racional.

A liberdade de pessoas sob um governo é ter uma regra permanente sobre a qual viver, comum a todos desta sociedade, e feitas pelo poder legislativo erguido nela, uma liberdade para seguir minha própria vontade em todas as coisas onde esta regra não prescreve, não estiver sujeita à inconstante, incerta, desconhecida e arbitrária vontade de outro homem, para que a liberdade de natureza não esteja sob nenhuma outra restrição senão a lei da natureza.

R: Essas palavras soam familiares. onde as li antes? Ah, sim:

Se soberania absoluta não for necessária no estado por que ela está presente na família? Ou se, presente na família, por que não no estado? Uma vez que nenhuma razão pode ser alegada para um e manter-se mais forte que o outro, se todos os homens nascem livres, por que todas as mulheres nascem escravas, como devem ser, já que são submetidas à inconstante, incerta, desconhecida, vontade arbitrária dos homens ser a perfeita condição para escravidão? (Mary Astell)

R: Esse tipo de agregação está totalmente descrita na razão. Um movimento para a expansão dos direitos inspira outro, porque a lógica é a mesma, e uma vez que isso é fixado, se torna cada vez mais desconfortável ignorar a inconsistência. No anos sessenta, o Movimento dos Direitos Civis inspirou os movimentos pelos direitos das mulheres, os direitos das crianças, dos homossexuais e até mesmo dos animais. Mas dois séculos antes, o pensador iluminista Jeremy Bentham expôs a indefensibilidade de práticas costumeiras, como a crueldade aos animais:

A questão não é se eles podem raciocinar, nem se podem falar, mas podem eles sofrer?

R:  E a perseguição dos homossexuais:

Como em qualquer engano primário, é evidente que não produz dor em ninguém. Pelo contrário, produz prazer. Os parceiros estão ambos dispostos. Se qualquer um deles não estiver disposto, o ato é uma ofensa, totalmente diferente da natureza de efeitos. É uma lesão pessoal. É um tipo de estupro. Quanto à exclusivo qualquer perigo da dor, o perigo, se houver, consiste muito da tendência do exemplo. Mas qual é a tendência deste exemplo? Para impedir outros de se envolverem nas mesmas práticas. Mas essa prática não produz dor de qualquer tipo e a ninguém.

S: Ainda assim, em todo caso, levou pelo menos um século para os argumentos desses grandes pensadores escorrerem e infiltrarem na população como um todo. Faz até sentido se perguntar sobre a nossa própria época. Há práticas que nos envolvemos onde os argumentos contra elas estão lá para todos verem mas mesmo assim persistimos neles?

R:  Quando nossos bisnetos olharem para trás, para nós, ficarão eles tão chocados por algumas de nossas práticas como nós ficamos antes com a posse de escravos, queima de hereges, agressão às esposas, abusos anti-homosexuais?

S: Eu tenho certeza que todos aqui poderiam pensar em um exemplo.

R: Eu opto pelos maus-tratos aos animais em fazendas industrializadas.

S: A prisão de infratores não-violentos na legislação anti-drogas e a tolerância aos estupros nas prisões do nosso país.

R: O ato de evitar doações à instituições de caridade que salvam vidas no mundo em desenvolvimento.

S: A posse de armas nucleares.

R:  O apelo à religião para justificar o que seria injustificável, como a proibição do anti-concepcional.

S: E quanto à fé religiosa em geral?

R:  Hmm, não espero nada quanto a isso.

S: Ainda assim, estou convencido que a razão é o “anjo bom” que merece o maior crédito para o progresso moral que nossa espécie tem desfrutado e que mantém a maior esperança para continuar o progresso moral no futuro.

R:  E se vocês, amigos, detectarem uma falha neste argumento, apenas lembrem-se que vocês dependerão da razão para apontar tal falha. Obrigado.

S: Obrigado.

Fonte: TED
Tradução: Lucas Quinn
Revisão: Pedro Reis
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