A mais nova provocação de Israel

Após arrasar Gaza, Telaviv quer construir colônia gigante de ocupação na Cisjordânia, desalojando palestinos e violando Direito internacional

Por Robert Fisk

Visão de mundo? Israel rouba terras, os palestinos são roubados. Não há outra coisa para ver.

E assim mais uma fatia da terra palestina escorregou pelo ralo. Mais uns mil acres de terra palestina roubada pelo governo de Israel – porque… “apropriação” é roubo, não é? – e o mundo já apareceu com as desculpas de sempre.

Os norte-americanos acharam o roubo “contraproducente” para a paz, o que é reação bastante amena, se se considera o que os EUA diriam/fariam se o México roubasse 1.000 acres de terra do Texas e resolvesse construir casas ali para imigrantes mexicanos ilegais nos EUA.

Mas, não. Foi na ‘Palestina’ (país inexistente, daí as aspas simples). E Israel conseguiu safar-se, terras roubadas e tudo, embora o roubo alcance agora escala inusitada – foi a maior quantidade de roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão Rabin-Arafat, as promessas e trocas de territórios e retiradas militares, e a determinação de deixar tudo de importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima… não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois sua generosidade financeira.

Mas esse mais recente roubo de terra não apenas reduz a “Palestina”: também mantém o círculo de concreto armado em torno de Jerusalém, para manter os palestinos bem distantes, tanto da capital que se espera que eles partilhem com israelenses, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho Etzion israelense-judeu considerou o roubo como castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho. “O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper nossa vida diária e pôr em dúvida nosso direito [sic] à terra” – anunciou o conselho Etzion. “Nossa resposta é reforçar a colônia”.

Deve ser a primeira vez que alguém ‘adquiriu’ terras na “Palestina” sem usar desculpas sobre segurança ou direitos de nascimento – ou por decisão-autorização direta de Deus. Dessa vez, o motivo para roubar terra palestina foi declaradamente vingança. Assim se cria interessante precedente.

Se a vida de um israelense inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 330 acres de terra, a vida de um palestino inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra.

E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza mês passado – e esse é número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinos hoje teriam direito assegurado a 330 mil acres de terra israelense; na realidade, muito mais. Mas por mais “contraproducente” que essa conta seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, palestinos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e assim continuará.

Jamais existirá ‘Palestina’ alguma, e o mais recente roubo de terra palestina é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler, enquanto seus sonhos de terem estado seu se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do ‘presidente’ palestino Mahmoud Abbas, disse que o chefe dele e as forças moderadas na Palestina haviam sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelenses, o que é dizer pouco, praticamente nada. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E esperava o quê, da vida, quando escreveu um livro sobre as relações palestinos-israelenses no qual não escreveu nem uma única vez, uma, que fosse, a palavra “ocupação”?

O que significa que voltamos ao velho joguinho. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamás, tanto quanto pela Autoridade Palestina. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir governo de unidade nacional, todos nós nos pomos a guinchar que o Hamás é organização “terrorista”.

E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – por mais que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamás a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Claro, se Abbas fala só por ele mesmo, Israel então diz o que já disse: que se Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas… isso realmente ainda interessa? Todas as manchetes do mundo, sobre esse assunto, deveriam exibir uma tarja de luto: “Adeus, Palestina”.

Fonte: Outras Palavras
Tradução: Vila Vudu
Fonte original: The Independent
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