A melhor cura para a epidemia de fake news será leitores mais céticos

Novos algoritmos ajudarão – mas o ceticismo dos usuários é a melhor arma

* David Pogue

“Papa Francisco choca o mundo ao apoiar Donald Trump para presidente”, “Agente do FBI suspeito no vazamento de e-mails de Hillary encontrado morto em um aparente assassinato-suicídio”, “Rush revela o passado pervertido de MIchelle apos ela dar o fora em Trump”. Essas manchetes não vem do The New York Times ou da CNN, eles geralmente são escritos por adolescentes na Macedônia. Essas notícias falsas (fake news) foram escritas como caça-cliques, projetados para levar leitores aos sites de fake news, onde os adolescentes das Bálcãs fazem dinheiro vendendo anúncios.

Se as eleições do último outono ficaram para a história como as Eleições de Consequências Indesejáveis, essas histórias falsas não são exceções. Elas acabaram circulando copiosamente no Twitter e Facebook.  No final, as top 20 histórias falsas realmente tiveram mais cliques que as top 20 reais. Notícias falsas se tornam alimento para feias guerras partidárias, também. Pior ainda, podem ter afetado o resultado das eleições presidenciais.  Lembre-se, 44 por cento dos adultos dos EUA recebem suas notícias do Facebook.

Você não pensaria que as notícias falsas seriam controversas. Certamente todos nós concordamos que algo tão importante como uma eleição presidencial deve basear-se na verdade. Não podemos pedir ao Facebook e ao Twitter para bloquear notícias falsas?

Nós podemos, mas eles não. O problema não é tecnológico — é filosófico. “Identificar a verdade é complicado”, escreveu o CEO do Facebook Mark Zuckerberg em resposta ao fenômeno das notícias falsas. “Enquanto alguns embustes podem ser completamente desmantelados, uma grande quantidade de conteúdo, incluindo de fontes convencionais, geralmente dão a ideia básica certa, mas alguns detalhes estão errados ou omitidos. Um volume ainda maior de histórias expressa opiniões que muitos estarão em desacordo e marcarão como incorretos mesmo quando factuais”.

Então sim, a manchete sobre o papa é claramente falsa. Mas e sobre as histórias sobre rumores e fofocas? Como qualquer um sabe se aquilo é verdade? Ou sobre histórias satíricas de, por exemplo, Onion ou Andy Borowitz do New Yorker? Nenhum faz qualquer tentativa de enganar e, ainda assim, ambos são frequentemente passados adiante online como fatos por pessoas que sofrem de, hmmmm, desordem de déficit de humor.

Uma vez que a notícia falas vire manchete, tanto o Google quanto o Facebook pararam de aceitar relações de publicidade com sites de notícias falsas. Isso levou embora o incentivo financeiro desses adolescentes macedônios.

Apesar da afirmação inicial de Zuckerberg de que é “extremamente difícil que históricas falsas tenham alterado o resultado desta eleição”, o Facebook está tomando mais medidas para combater o problema — tornando mais fácil reportar histórias falsas, por exemplo, e considerando a adição de rótulos de advertência nas histórias que os leitores sinalizarem como falsificação.

Mas aqui está o ponto. Lembra-se da primeira vez que se tornou possível reunir páginas de notícias personalizadas (como o Google News), onde você viu notícias sobre seus interesses e nada mais? As pessoas estavam preocupadas com o fato de que nunca seriam expostas a histórias em que pudéssem tropeçar ao, digamos, folhear um jornal.

Bom, o problema do Facebook é mil vezes pior. Em sites de mídia social, você decide os postes de quem você quer ler. No Facebook eles são seus amigos, no Twitter são pessoas que você escolheu seguir. Em ambos os casos, você segue pessoas que pensam como você, cujas opiniões você prefere. Em outras palavras, você não está mais escolhendo tópicos sobre os quais deseja ler. Agora você está escolhendo qual tendência na notícia você quer ver. Você está construindo sua própria câmara de eco.

Tudo isso ajuda a explicar por que a abordagem “deixar a comunidade decidir” para filtrar histórias falsas é problemática. Para todos em sua câmara de eco que sinaliza uma história como falsa, o universo paralelo do outro lado da divisão hiperpartidária irá marcar isso como verdadeiro.

Se alguma vez decidirmos fazer essa eleição presidencial novamente, as notícias com histórias falsas ainda estarão por aí. Mas três coisas estarão diferentes, todas dando sinais de esperança. Primeiro, o Facebook e o Google terão removido o incentivo de receita para publicá-las. Em segundo lugar, as novas políticas e algoritmos planejados do Facebook, pelo menos, exibirão que algumas das histórias são deliberadamente enganadoras.

Acima de tudo, seremos mais cínicos. Tendo vivido o primeiro grande ciclo de eleições de falsas notícias e depois passado quatro anos falando sobre isso, talvez possamos ser mais exigentes na próxima vez.

Fonte: Scientific American
Tradução: Maurício Moura
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