Maurício Moura
Enquanto think tanks neoliberais declaram obsoletas as categorias de esquerda e direita, a burguesia segue utilizando-as com precisão cirúrgica para dividir e conquistar. Esta não é uma discussão acadêmica, mas uma questão de autodefesa política da classe trabalhadora. Este artigo não busca reforçar rótulos, mas desvendar a anatomia de um conceito que, mesmo sob constante erosão, ancora-se em uma divisão material fundamental: a disputa pela organização da riqueza e do poder social.
A “faísca” que acende esta análise é uma contradição pungente: em um mundo à beira do colapso ecológico e da barbárie social, a discussão política é sequestrada por uma guerra cultural esvaziada, enquanto o eixo econômico que define a vida material da maioria é ofuscado. Desmontar essa armadilha exige entender de onde vieram, o que significam e como são instrumentalizados esses termos.
A gênese no ventre da revolução
A origem do espectro político é, ela mesma, um ato político fundador. A divisão entre esquerda e direita não emerge de uma teoria abstrata, mas de um conflito material concreto: a Revolução Francesa de 1789 1.
Na Assembleia Nacional Constituinte, os deputados posicionavam-se fisicamente de acordo com seus projetos de sociedade. À direita do presidente, sentavam-se os defensores do Ancien Régime: a aristocracia e o clero que buscavam conservar os privilégios da monarquia. À esquerda, agrupavam-se os representantes do Terceiro Estado: inicialmente a burguesia e setores populares que clamavam por mudanças radicais e o fim dos privilégios de nascença.
Este é o primeiro movimento dialético crucial: a burguesia, que começou na esquerda revolucionária, rapidamente migrou para a direita quando percebeu que a lógica igualitária ameaçava sua nova propriedade. A mesma classe que lutou contra os privilégios aristocráticos tornou-se a nova defensora da propriedade privada como direito natural e intocável. A geografia do poder físico espelhava a geografia do projeto de sociedade, mas também a trajetória de classe da burguesia ascendente.
Este não era um debate sobre “valores” no vácuo. Era um conflito sobre quem deveria pagar os impostos, quem detinha a soberania e como a riqueza da nação seria distribuída. A esquerda, desde seu nascimento, representava a ruptura com a hierarquia estamental e a direita, a preservação de privilégios e uma ordem social tradicional: seja a antiga aristocracia ou a nova burguesia proprietária.
Os eixos da disputa: onde a coerência reside
Reduzir esquerda e direita a um único eixo é um erro estratégico que apenas serve aos interesses do status quo. A coerência analítica exige que se entendam pelo menos três dimensões interligadas.
O eixo econômico: propriedade e desigualdade
Este é o núcleo duro, o divisor de águas mais consistente ao longo da história. A divisão econômica pode ser cartografada em um continuum que vai da defesa da propriedade privada dos meios de produção até a defesa da propriedade coletiva ou social 2.
A Direita Econômica (do conservadorismo liberal ao neoliberalismo) defende que a alocação de recursos deve ser primariamente determinada pelo mercado. A desigualdade é vista como um subproduto natural ou mesmo um incentivo necessário para o progresso. A intervenção estatal é tolerada para salvar o sistema em crises, mas rejeitada como planejador central.
A Esquerda Econômica (da social-democracia ao comunismo) argumenta que o mercado, deixado à própria sorte, gera concentração de renda, exploração e crises cíclicas. Portanto, defende dentro do Capitalismo a regulação, tributação progressiva, serviços públicos universais e, em suas vertentes revolucionárias, a socialização dos meios de produção. O objetivo declarado é a redução das desigualdades materiais.
O eixo social: autoridade e tradição
Enquanto o eixo econômico lida com a distribuição de recursos, o eixo social lida com a distribuição de autonomia. Ele opõe visões hierárquicas e comunitárias da sociedade a visões igualitárias e individualistas.
A Direita Social (do conservadorismo ao reacionarismo) entende a sociedade como um organismo baseado em tradições, valores religiosos, hierarquias naturais e na autoridade da família, da pátria e da moral estabelecida pela classe social dominante (a burguesia). A mudança social é vista com desconfiança, como uma ameaça à coesão e à ordem.
A Esquerda Social (do progressismo liberal ao anarquismo) defende a expansão das liberdades individuais contra as amarras da tradição. Prioriza a autonomia do indivíduo sobre seu corpo, sua sexualidade e suas crenças, sendo cética em relação a autoridades não eleitas ou justificadas pela tradição pura e simples.
O eixo internacional: imperialismo versus internacionalismo
Este eixo frequentemente negligenciado revela divergências fundamentais sobre a ordem global. A Direita Internacionalista (do liberalismo ao neoconservadorismo) defende uma ordem baseada na soberania nacional absoluta, intervencionismo seletivo para proteger interesses estratégicos, e acordos comerciais que beneficiem suas corporações 3. Frequentemente justifica intervenções militares como “missões civilizatórias”. É a própria expressão do Capitalismo em sua fase atual.
A Esquerda Internacionalista (do anti-imperialismo ao cosmopolitismo) defende a solidariedade transnacional entre os povos, a autodeterminação dos povos contra potências coloniais, e uma ordem multipolar que desafie a hegemonia ocidental. Sua bandeira é o internacionalismo proletário contra o internacionalismo do capital.
Quando os eixos se cruzam
Aqui reside a maior confusão e a maior oportunidade para a manipulação. Nem todos os movimentos políticos se alinham perfeitamente nos dois eixos. O caso mais emblemático é o do fascismo e do nazismo 4.
Estes regimes são frequentemente chamados de “extrema-direita”, o que é preciso, mas requer nuance. No eixo social, eram hiper-hierárquicos, tradicionalistas, nacionalistas e reacionários. No eixo econômico, no entanto, não eram liberais no sentido clássico, mas tampouco socializantes. Promoviam uma economia onde o Estado atuava como gestor dos interesses da grande burguesia, implementando políticas de privatização massiva e destruição de serviços públicos para beneficiar o capital monopolista 5, sendo precursora do que hoje se chama de Neoliberalismo. A intervenção estatal era dirigida a suprimir os sindicatos independentes e disciplinar a força de trabalho, garantindo altos lucros para os industriais e banqueiros. Esta é uma direita antiliberal e anticomunista, que usa o aparato estatal para consolidar o poder do capital, não para emancipar as classes oprimidas.
A Nova Esquerda como expressão do liberalismo
O surgimento da Nova Esquerda nas décadas de 1950 e 1960 representou uma inflexão crucial no pensamento político, caracterizada por um abandono progressivo da luta de classes como paradigma central 6. Este movimento intelectual, que emergiu como resposta às limitações percebidas nos partidos comunistas tradicionais, buscou redefinir radicalmente o projeto emancipatório da esquerda.
Sua particularidade reside na rejeição do envolvimento com o movimento operário e da teoria histórica da luta de classes 7. No lugar da análise de classe, a Nova Esquerda passou a priorizar uma ampla gama de questões sociais fragmentadas, incluindo direitos civis, feminismo, direitos dos homossexuais e reformas comportamentais, adotando uma definição expandida de ativismo político.
A ironia histórica é que a Nova Esquerda tentou se apresentar como alternativa radical enquanto adotava uma agenda profundamente liberal. Seus teóricos fundadores, como Herbert Marcuse, rejeitaram explicitamente a teoria da luta de classes e a preocupação marxista com o trabalho 8. Esta guinada teórica preparou o terreno para o que hoje se conhece como esquerda liberal: uma força hegemônica defensora de “mudanças graduais, pacíficas e democráticas” dentro da ordem estabelecida 3.
Este movimento consistiu num deslocamento epistemológico fundamental: a substituição do princípio normativo da igualdade pelo direito à diferença 9. Como identificou o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, a politização progressiva da diferença, ao denunciar as opressões cometidas em nome da “igualdade em abstrato”, terminou por adotar um princípio que historicamente definiu não a esquerda, mas a direita: o anti-igualitarismo.
No contexto brasileiro contemporâneo, esta herança manifesta-se na prática política de partidos que frequentemente rebaixam o nível de consciência crítica em suas campanhas e adotam pautas da direita, como o estímulo ao empreendedorismo periférico: uma nova face do totalitarismo mercadológico que transforma a luta por direitos em busca individual por nichos de mercado 10. Esta estratégia apenas continua uma prática que partidos de esquerda pavimentaram ao longo de décadas: a busca pela ocupação de cargos políticos dentro do sistema burguês como via de transformação social, legitimando o mesmo sistema que declarava combater.
O resultado histórico deste desvio é o esvaziamento programático e o desarmamento ideológico da esquerda diante do capital 11. Ao abandonar a luta de classes como eixo articulador e substituí-la por uma agenda fragmentada em identidades e pautas morais, a esquerda liberal desistiu da transformação radical da sociedade, contentando-se com uma gestão mais humana do status quo.
Definições incoerentes: desonestidade intelectual
Fora da análise histórica e estrutural, proliferam definições que mais obscurecem do que iluminam. São armas na guerra cultural, não ferramentas de compreensão.
A redução à Guerra Cultural
Definir esquerda e direita apenas por pautas morais (aborto, drogas, sexualidade) é uma operação de esvaziamento do conteúdo econômico. É uma estratégia eficaz para que a direita econômica conquiste o apoio de eleitores cujos interesses materiais são contrariados por ela, mobilizando-os em torno de bandeiras identitárias. Separa-se o “capitalismo progressista” do “capitalismo conservador”, ocultando que a estrutura exploratória permanece a mesma.
A falácia do “centro” ou do “abaixo e acima”
A narrativa de que o verdadeiro conflito é entre “o centro democrático” e os “extremos totalitários” de ambos os lados é uma falácia histórica e política. Coloca a social-democracia, o liberalismo e a direita moderada no mesmo campo “democrático”, enquanto exclui a esquerda anticapitalista, equiparando-a à extrema-direita. Esta visão, conhecida como teoria do ferradura, ignora que o fascismo surge como reação violenta da burguesia e das classes médias temerosas contra a esquerda e o movimento operário, não como um fenômeno simétrico.
A luta histórica da esquerda, mesmo em suas versões radicais, é pela expansão da democracia para a esfera econômica: a democracia no local de trabalho, o fim dos privilégios de nascença. A luta histórica da extrema-direita é pela supressão da democracia em nome de uma hierarquia orgânica e de uma comunidade homogênea. São projetos antagônicos, não espelhados.
Por que essas categorias ainda importam
Declarar a morte de “esquerda” e “direita” é um luxo de quem não sofre as consequências da política econômica. Para a maioria da população mundial, a pergunta “quem paga e quem recebe?” é a questão política definitiva. Enquanto houver uma classe que vive do trabalho alheio e outra que vive da venda de sua força de trabalho, a linha de fratura estará aberta.
Abandonar estas categorias é como desarmar-se voluntariamente numa guerra onde o outro lado mantém arsenais intactos. É render-se a uma despolitização que sempre beneficia os poderosos. A tarefa do pensamento crítico não é superar a divisão entre esquerda e direita, mas resgatar seu significado original de luta pela emancipação humana contra todas as formas de exploração e opressão. O resto é ruído.
Referências
- GAUCHET, Marcel. La droite et la gauche: histoire et destin. Gallimard. Paris: 2021. ISBN 978-2072952531.
- BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e significados de uma distinção política. Editora Unesp. São Paulo: 1995. ISBN 85-7139-088-6
- BARROS, Douglas Rodrigues. O que é a esquerda liberal?. Revista Ópera. 7 jul. 2019.
- TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism: Populism and the Far Right. Verso Books. Londres: 2019. ISBN 9781788730464.
- BEL, Germà. The first privatisation: Selling SOEs and privatising public monopolies in Fascist Italy (1922-1925). Cambridge Journal of Economics. 35 (5). pp. 937–956. set. 2011. DOI 10.1093/cje/beq051
- DUNCOMBE, Stephen. Cultural Resistance Reader. Verso Books. Londres: 2002.
- KATSIAFICAS, George. The Imagination of the New Left: A Global Analysis of 1968. South End Press. Boston: 1987. ISBN 0-89608-227-X.
- MARCUSE, Herbert. An Essay on Liberation. Beacon Press. Boston: 1969.
- PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP. 2 (2). 7-33. jul-dez. 1990
- MOURA, Maurício. Empreendedorismo: a nova face do totalitarismo. Livre Pensamento. 27 ago. 2025.
- MOURA, Maurício. Retórica identitária e enfraquecimento das lutas sociais. Livre Pensamento. 7 jun. 2025.