Como a religião oferece uma desculpa para parar de pensar

O filósofo Daniel Dennett, estudioso da filosofia da mente e da biologia, fala sobre a honestidade intelectual, o livre pensamento e sua relação com a fé e os religiosos. O vídeo é um trecho legendado de uma entrevista no talk show Charlie Rose para o jornalista Bill Moyers.

Dennet é autor dos livros A perigosa ideia de Darwin (Darwin’s Dangerous Idea), em que analisa o impacto da Teoria da Evolução das Espécias, de Darwin, no pensamento filosófico ocidental, e Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural), em que faz uma análise científica do fenômeno religioso.

É também um dos autores (junto de Linda LaScola) do artigo Preachers Who Are Not Believers (Pregadores que não são crentes), publicado em março de 2010 na revista estadunidense Evolutionary Psichology. O artigo apresenta o resultado de uma série de entrevistas de campo com homens e mulheres que, mesmo após anos de vida dedicada às suas igrejas, perderam a fé, mas não abandonaram o púlpito.

Bill Moyers– Por que isto é de tal preocupação para você, Dan? “Se a minha fé não bate a sua carteira e não quebra seus ossos”, como Thomas Jefferson dizia, por que você deveria se preocupar no que eu acredito?

Daniel Dennett – Bom, exatamente! Eu não aceitaria que pessoas religiosas se importassem tanto com as crenças dos outros. Por que elas se importam? Por que os cristãos se importam com o que os muçulmanos acreditam? Por que os muçulmanos se importam com que os cristãos acreditam? E para mim, a coisa real e perigosa sobre a religião, e isto não é para todo mundo, é claro, não é nem a metade, ainda bem, mas são muitas, e que é… Uma coisa que eu acho que é muito perigosa, em muitas religiões, é que dá a estas pessoas uma bela desculpa esfarrapada para parar de pensar.

BM – Parar de pensar?

DD – Parar de pensar! Ao dizer “eu não tenho que pensar sobre isto porque minha religião diz que isto é certo, isto é errado. Isto é claro, isto é branco e isto é preto. Eu não tenho mais que pensar sobre isto”.  É apenas uma questão de fé e nós glorificamos isto! Nós dizemos “oh, isto é uma questão de fé”.

Eu penso que temos que parar de glorificar as pessoas que param de pensar! Eu penso que devemos dizer às pessoas: “tudo bem, você tem sua fé, legal. Seu trabalho, então, seu dever para com a sua própria fé, é explicar para nós, que não compartilhamos a sua fé, por que você está certo sobre isso?”. Que diga a verdade! Que Deus lhe disse. Que diga absolutamente a verdade. Deus disse a você “está é a maneira certa, esta é a maneira errada”.

Certo, seu problema agora é tentar explicar para aqueles a quem Deus não falou, por que isto é certo?

BM– Mas assim como na história que contei para você que aconteceu na Igreja Presbiteriana, em Austin, onde os cristãos denunciaram um pastor por permitir uma congregação de ateus e os ateus denunciaram os ateus por se renderem à superstição da igreja. Você não pode ter um diálogo real entre pessoas que dizem “estou falando por Deus” e as pessoas que dizem que não existe Deus com quem falar.

DD – Você pode? Eu não vejo porque não. Parece para mim que estas pessoas que tem a sua fé, que acreditam tão fortemente em Deus, se elas realmente acreditam fortemente, se elas acreditam que estão preocupadas com sua superioridade moral, elas devem estar muito dispostas a se sentarem e se colocarem não a um teste científico, mas a um teste de discussão moral política ao falar por que elas acreditam no que acreditam e falar sobre… A coisa principal que queremos falar sobre isto é: o que você deveria fazer? Qual é o curso moral de ação a tomar? E se esta for um discussão razoável, temos que tirar algumas cartas da mesa.

BM– Tais como?

DD – A carta da fé. Nós temos que tirar a carta da fé da mesa…

CR – Por que tirar a carta da fé da mesa? Se alguém é uma pessoa de fé, esse alguém não pode tirar o espírito pra fora.

DD – Sabe, Lucille disse que você está errado. Sabe quem é Lucille? Ela é uma amiga minha, ela está sempre certa.

Eu não posso jogar com esta carta em uma discussão. Isto é rude para eu dizer: “sabe, Lucille me disse que você está errado”. E você me pergunta: “quem é Lucille”? Eu digo: “é uma amiga minha, ela está sempre certa”. Fim da discussão!

BM– Mas estamos diante de pessoas que dizem que conhecem a mente de Deus.

DD – Eu acho que um jeito de lidar com isto seria dizer “bom, isto é muito interessante, porém temos um problema real, já que o resto de nós não conhece a mente de Deus. Você não pode compartilhar sua linha direta, então você terá que fazer o melhor que puder em uma discussão secular sobre qual é a coisa certa a fazer. Você está apto para a tarefa, para explicar para o resto de nós, que não temos a sua linha direta com Deus, por que você está certo? E não me diga apenas porque Deus disse, nós sabemos disso, aceitamos isso”.

BM– Suponha que eu seja um muçulmano e eu lhe fale do livro 5, versículo 44, que condena a apostasia e que diz que você deveria ser condenado à morte e eu digo que esta é a minha escritura sagrada e eu acredito que este é o caso. O que você diria para mim?

DD – Eu digo que o fato do que diz no seu livro sagrado é um fato histórico interessante, mas não justifica se é o certo. Apenas o faz.

BM – Mas justifica para mim, falando como um muçulmano, que é verdade.

DD – É possível, é claro, que muitas pessoas são simplesmente moralmente incapazes de exercerem deliberações morais.

BM – Você submeteria isto a um teste científico? Observação e verificação?

DD – Se elas não podem manter-se em uma discussão, em uma discussão sensata, respeitosa e política sobre estes assuntos, sem simplesmente jogar com a carta da fé, então eu acho que elas tem que admitir que não podem defender o que elas dizem. Eu digo que o grande problema que temos é que nós estivemos muitos dispostos a deixar as pessoas jogarem com a carta da fé e deixar elas triunfarem em tudo.

Estaria eu certo ou errado que isto tem sido um abuso ao redor do mundo hoje em dia? Além disso, ninguém acredita mais nisso, vamos encarar isso. Se alguém aparecer aqui e disser “minha religião diz…”. Bom, eu não preciso inventar um caso, posso pegar o caso da apostasia que você acabou de mencionar: existem clérigos no Islã agora mesmo que dizem que “a morte por apostasia é a nossa religião, nós devemos fazê-lo”. E eu acho que todas as pessoas no mundo devem se levantar e dizer: “não sejam ridículos!”, “não sejam estúpidos, isto é primitivo”,  “Isto é simplesmente inaceitável, não interessa qual é a sua tradição”. Isto não é uma tradição que deva ser honrada.

BM – A Igreja Católica uma vez colocou os hereges na fogueira. 

DD – Absolutamente certo! E eu acho que não devemos ter medo em dizer ao mundo muçulmano: “vamos lá, acordem! Nós também cometemos este erro no passado” (nós “cristãos”), “mas não estamos cometendo mais, pois escolhemos assim”. Certamente cristãos e judeus cometeram esse erro no passado.

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2 pensamentos sobre “Como a religião oferece uma desculpa para parar de pensar

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