James Randi explica a Homeopatia

Randall James Hamilton Zwinge, ou James Randi, é um cético e ilusionista canadense e criador da Fundação Educacional James Randi, quem tem como objetivo a promoção do pensamento crítico e o combate ao charlatanismo e às pseudociências.

Este vídeo é parte de uma conferência que James Randi deu em Princeton no ano de 2001. Nela, Randi apresenta e explica os fundamentos e os mecanismos da homeopatia, identificando, dentro dos próprios princípios, as características que fazem da homeopatia uma pseudociência.

Com este vídeo, quero começar a tratar desse assunto: as pseudociências e seus riscos para a evolução da ciência verdadeira, do senso crítico e até da saúde dos seres humanos.

Eu posso ser convencido por muito menos que isso. Eu vou falar de algo que isso ilustra muito bem.

Eu gostaria de ver suas mãos, por favor – e levantar a mao nao e assim, é assim, para que eu possa ver – se alguem pode me dizer, nao precisa ser detalhada ou científica, só me dêem uma idéia do que vocês pensam que seja a homeopatia. Alguém tem alguma ideia? Sim, o senhor, bem aqui.

“Sim, homeopatia é a premissa de que, diluindo alguma coisa além do ponto em que não há mais nenhum átomo, ainda sobra uma essência que pode curar as pessoas”

É essencialmente isto, sim. Aquele senhor disse, se você não ouviu, que diluindo uma substância além do ponto em que ela esteja presente na solução, pode ainda ter mais eficácia, e eles baseiam isso em teorias das vibrações. Entenderam? A vibração do remédio original ainda está lá.

Eu darei a vocês as quatros regras da homeopatia, que deverão deixá-los estupefatos, aidna bem que vocês já estão sentados. Eu odeio ver as pessoas caindo no chão de tanto rir. Podem se machucar.

A homeopataia começou há mais de duzentos anos, com um homem chamado Hahnemann. Samuel Hahnemann teve uma brilhante ideia. Bem, duzentos anos atrás, a Medicina não era o que e hoje. Hoje é uma arte e uma ciência. À época era somente uma arte, havia muito pouco de ciência.

Eles mal saíam da era do Paracelso, e o Paracelso, que era um sujeito desagradável (eu nunca o conheci. Não sou tão velho, ainda), o Paracelso teve essa ideia, bem inteligente: a ideia era de que você não precisa usar substâncias naturais, coisas como galhos, para curar doenças. Você pode usar substâncias simples, não orgânicas, e ele começou a usando coisas como cloreto de mercúrio, acetato de chumbo, sulfetos de arsênio, coisas assim.

E as doenças, elas desapareciam bem rápido. Infelizmente, o paciente também. Mas eles eram os cadáveres mais belos do cemitério.

Cloreto de mercúrio foi usado por um longo tempo, mesmo na Era Vitoriana, e trata-se de um veneno mortal. Mas eles usavam em quantidades bem pequenas, então eles não morriam logo e podiam pagar a conta. Entende?

Isso foi o que o Paracelso iniciou, na Medicina.

Então, você pode imaginar àquela época, que as pessoas que podiam pagar um médico tinham uma chance de morrer muito maior, da doença ou do tratamento, que aqueles que não podiam pagar os medicos. E, de fato, isso parece ser corroborado pelas estatísticas.

Entao o Hahnemman teve a ideia de que ele nao iria preparar remedios que iriam envenenar as pessoas dessa maneira. Tinha boas intenções.

Mas eu quero que vocês conheçam as Quatro Regras da Homeopatia. Elas vão ficando cada vez mais constrangedoras.

A primeira regra é que você faz o que chamam de Prova. Uma Prova, na Homeopatia – e eu não vou entrar nos detalhes, ficaria três noites aqui – a Prova consiste em pegar a substânica, vamos chamar de Substância X, e você dá para um paciente que está são. Quer dizer, para uma pessoa bem de saúde. Bem, essa definição, pode ser alguém que consegue andar e se sentar e levantar de novo e esta quente. Seria uma pessoa que está “bem”? Eu não sei, mas você dá para uma pessoa sã e a pessoa apresenta os Sintomas A, B e C. Digamos que a substância seja uma seiva qualuqer, deve ter um gosto horrível. Você dá aquilo para um paciente são, na Prova e o paciente apresenta esses três sintomas: A, o rosto fica muito, muito vermelho, então a cabeça incha como um balão e a cada vinte minutos ele cai no chão e desmaia. Esses sintomas, você provavelmente vai notar, acho que concordam.

Então eles escrevem isso em um livro e isso se chama Prova. É a primeira regra da Homeopatia.

A segunda regra da Homeopatia é: suponha que um outro paciente entre no consultório e o paciente se senta e diz: “Eu estou doente”. E o homeopata olha para o paciente e vê que ele está com a cabeça inchada como um balão e está bastante vermelho. O homeopata vê isso e fala: “Hmm, a cada vinte minutos você desmaia, certo?” e o paciente diz: “doutor, o senhor e maravilhoso, é verdade!”. “Espera aí um minuto”, ele folheia o Livro. Você descobre o que causou aquilo num paciente que estava bem de saúde e você receita o mesmo remedio, para reverter os efeitos. Não olhe pra mim, e ideia deles!

E as pessoas olham para mim e falam: “o que?”. É ideia deles, não minha, eu estou só contando o que e a Homeopatia.

A terceira regra da Homeopatia diz que você não faz isso. Eu avisei que ficava mais ridículo conforme avança. A terceira regra da Homeopatia diz que você dá uma dose muito diluída daquela substância. Vocês não ouviram falar de delírio até ouvirem isso!

Eu vou me aproximar do quadro, aqui. Essa e uma lição matemática simples, OK?

Dez à primeira potência e dez, nós sabemos disso. Dez à segunda é cem. O número de zeros depois do um é igual ao índice da potência. Dez à terceira potência tem três zeros e assim por diante. OK?

Bem, na Homeopatia, para preparar uma solução, você pega uma parte da substância e põe em dez partes de água e “sucussa”. Isso se chama Solução Um. Eles nunca usariam isso, é muito concentrada.

O que eles fazem para prepará-la é pegar a substância, colocar na água e então sucussar. Isso significa chacoalhar a solução para cima e para baixo, dez vezes, de lado, dez vezes, e para frente e para trás, dez vezes. São três dimensões diferentes, dez vezes cada. Isso é chamado de sucussão. Eu chamo de chacoalhar. Mas eu não sou científico, então o que eu sei?

Essa e a Solução Um. Como eu disse, eles nunca usam isso. Então eles pegam uma parte daquela solução e colocam em dez partes de água e chug chug chug, fazem tudo de novo. E esta é a Solução Dois. Uma parte para cem, vocês estão acompanhando?

Então eles repetem de novo, mais dez partes, e chegam a uma parte para mil. Mas isso e muito, muito, muito concentrado. Não! Eles preferem soluções em um para dez elevado a vinte partes de água. Isso é um com vinte zeros depois. Isso e o que eu chamo de diluído. Atenuado, é o termo que usam. Atenuado, isso e realmente atenuado.

E, a quarta regra da Homeopatia – como se vocês já não estivessem prontos para ouvir isso. Quanto mais diluída a substância, mais forte ela é. Eu avisei que ficaria mais ridículo conforme avançamos.

Eu tenho alguns remédios homeopáticos na mesa. Não, eu tenho preparados homeopáticos. Eu não vou dignificá-los chamando-os de remédios.

Esse aqui se chama Colem Flueli, e um spray. Ih, tinha um desconto, eu perdi esse. “Remédio inovador, sem efeitos colaterais”. Com certeza. Minha pergunta e: será que tem algum outro efeito?

Ele remove aquele inchaço na sua carteira, porque é muito caro.

“Ingredientes ativos”, ouçam isso agora. O que vem listado primeiro é o mais ativo do composto. “Arsenicum Album”, entre parênteses, “ácido arsênico”. Não confundam com Arsenio Hall. Ácido arsênico. Qual a concentração? “Trinta X”. Isso significa um seguido de trinta zeros (1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000) partes de água por parte de Arsenicum Album.

Eu não ficaria preocupado! Eu não me preocuparia, porque é isso mesmo que 30X significa.

Agora, espere um minuto, nós passamos um certo ponto aqui. Acho que é o Ponto Sem Retorno.

Um homem chamado Avogadro inventou o Número de Avogadro. Ele era meio estranho, mas estava correto.

O que foi? Eu ia contar isso agora.

Sim, 10 elevado a 23. Uma vez que chegamos à solução 23X lá, a chance é de apenas uma molécula da substância ainda presente na mistura. Então, quando chego a 10 elevando a 24, você tem uma chance em dez de ter uma molécula lá.

Eu vou ilustrar para vocês. Eu tenho aqui uma caixa de outro composto homeopata. Esse é o Calms Forte, um tranquilizante, não vicia, eu aposto. “Cem por cento natural. Nenhum efeito colateral”. De novo nos dizem isso. Bem, há trinta e duas cápsulas aqui.

Não faz muito tempo, eu fiz uma demonstração para o Congresso dos EUA, um grupo de congressistas e funcionários, e eu comecei a palestra indo ate um funcionário na primeira fila e dei a ele uma nota de 20 dólares e falei: “eu quero que você vá até a farmácia e compre duas caixas desse composto”. Entreguei-lhe a caixa e ele retornou com as duas caixas. Eu as abri, joguei todas, trinta e duas pílulas e trinta e duas pílulas – São… sessenta e quatro – e falei “coloque no copo ali”. Ele pôs no copo e eu falei aos funcionarios e aos congressistas lá o que era e então bebia as sessenta e quatro. Tomei um copo d’água e engoli. Elas são a base de lactose e têm gosto de material de embrulho, eu diria, gesso… Têm um gosto muito ruim. E diz o pacote, “dose máxima, dois tabletes a cada oito horas. Em caso de overdose, chame o centro de controle de envenenamentos”.

Eu ainda estou aqui.

E, ainda que alguns congressistas tenham caido no sono, eu nem dormi! Ainda estou aqui. E eu faço isso regularmente, exceto que não gosto muito dos que têm gosto horrível. É um negócio abjeto, mas não há nada dentro desses tabletes. Qual o ingrediente ativo? Bem, vocês já deveriam poder me dizer, a essa altura. Cafeína! Vocês acertaram. É uma pílula para dormir. Funciona do jeito invertido. Não olhem para mim, é ideia deles, não minha!

Isso é a Homeopatia.

Esperem, vai ficar melhor.

Eu falei que quanto mais diluído, maior o efeito, certo? Adivinhem até onde eles vão, amigos. Eles vão até dez elevado a 1.500. Eu não vou começar a escrever os zeros, vou avisando logo. Esses zeros iriam sair da sala, tenho certeza.

Esse é um negócio muito forte, quando chegam até esse ponto.

Eu perguntei ao meu grande amigo, Martin Gardner, da revista Scientific American, eu falei: “Martin, faça umas contas para mim, vai me ajudar a economizar tempo e eu acredito numa autoridade como você”.

Eu perguntei: “isso equivale a quê?”. Ele respondeu: “Em termos metafóricos?”, eu disse: “Sim”. Quero uma figura de expressão, porque estou falando com pessoas que têm cabeças técnicas, cabeças de cientistas e também com leigos, pessoas razoavelmente inteligentes que são capazes de imaginar algo assim, fica mais fácil.

Números como “diluído em 1.500 partes”. Não se pode ter uma noção, a nao ser que simplifiquemos. E ai está, ele disse: “isso equivale a pegar um grão de arroz, esmagá-lo ate virar pó e dissolvê-lo numa esfera d’água do tamanho do Sistema Solar, com o Sol no centro e a órbita de Plutão na extremidade”.

Espere um minuto… e quanto ao chug chug chug? Eu não sei. É problema deles, não meu. “E então, repetir esse processo dois bilhões de vezes”.

Se isso não está diluído, eu não conheço nada que esteja.

Gente… claro, vocês podem rir disso. Eu rio disso, é cômico. É juvenil. É asinino. Não há nenhuma outra maneira de descrever isso.

Mas coisas como isso estao sendo vendidas em grandes farmácias, na atualidade. Cadeias farmacêuticas no país inteiro e, recentemente, três ou quatro dias atrás, vieram na Internet oferecendo a pessoas preocupadas com ataques terroristas remedios homeopáticos que dizem ser efetivos contra: envenenamento radioativo, Peste Bubônica, Varíola e Antrax.

Se isso não é levar vantagem do medo, da necessidade de alívio das pessoas. Eu não consigo dar outro nome para isso.

Essas pessoas são trapaceiros, ladrões, mentirosos, fraudes, criminosos. Venham, me processem!

Não, eles não vão me processar. Eles sabem muito bem que não podem sustentar uma ação numa corte. Isso não se sustenta cientificamente de forma alguma. Isso se despedaça.

Agora eles fazem uns juramentos. É… e o Nixon falou que não sabia de Watergate, e ele era presidente dos EUA, lembra?

Bem, eu tenho razão de me irritar com isso?

Eu tenho uma boa razão para me irritar e para dirigir minha fundação na Flórida e tentar atrair pessoas para que apóiem a Fundação?

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Um pensamento sobre “James Randi explica a Homeopatia

  1. Minha mãe me levava para uma doutora homeopata quando piá, desde então aprendi a não confiar em “médicos” com uma pedra em cada canto da sala…

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