Laura Snyder: A Sociedade do Café Filosófico

Laura Snyder é historiadora e professora do Departamento de Filosofia da Universidade St. John, em Nova Iorque. O centro da pesquisa de Laura é a história da filosofia da ciência, tendo sido presidente da Sociedade Internacional para a História da Filosofia da Ciência em 2009 e 2010.

Laura é autora dos livros Reforming Philosophy: A Victorian Debate on Science and Society (University of Chicago Press, 2006) e The Philosophical Breakfast Club. Four Remarkable Men (Random House, 2011). Esta palestra no TED é sobre esse último.

No início do século XIX, quatro homens se encontraram para discutir o futuro da ciência. Chamaram esse encontro de “café filosófico”. É dessas quatro personagens e deste encontro que esta palestra trata.

Veja outros vídeos do TED.


Gostaria que vocês voltassem comigo, por um momento, ao século XIX, especificamente para 24 de junho de 1833. A Associação Britânica para o Avanço da Ciência está realizando seu terceiro encontro na Universidade de Cambridge. É a primeira noite do encontro e está para acontecer um confronto que mudará a ciência para sempre.

Um homem de idade, cabelos brancos, se levanta. Os membros da Associação ficam surpresos ao perceber que é o poeta Samuel Taylor Coleridge, que não saía de casa há anos. Ficam mais surpresos ainda pelo que ele diz.

“Vocês devem parar de chamar a si mesmos de filósofos naturais.”

Coleridge entendia que verdadeiros filósofos como ele próprio ponderavam sobre cosmo de suas poltronas. Eles não ficavam se sujando ao redor de escavações de fósseis ou conduzindo confusos experimentos com pilhas elétricas como os membros da Associação Britânica.

A audiência tornou-se raivosa e começou a reclamar aos brados. Um jovem estudioso de Cambridge chamado William Whewell levantou-se e aquietou a plateia. Educadamente concordou que não existia um nome apropriado para os membros da associação.

“Se ‘filósofos’ é um termo considerado demasiadamente grandioso e imponente,” disse ele, “então, por analogia com ‘artista’, podemos formar ‘cientista’.” Esta foi a primeira vez que a palavra cientista foi pronunciada em público, somente 179 anos atrás.

Soube desta confrontação, pela primeira vez, quando estava na pós-graduação, e isso como que me deixou atônita. Quero dizer, como pode a palavra cientista não ter existido até 1833? De que eram chamados os cientistas antes? O que tinha mudado para tornar necessário um novo nome exatamente naquele momento? Anteriormente a esse encontro, aqueles que estudavam o mundo natural eram amadores talentosos. Pense no clérigo ou magistrado do interior colecionando besouros ou fósseis, como Charles Darwin, por exemplo, ou no assistente contratado de um nobre, como Joseph Priestley, que era o acompanhante literário do Marquês de Lansdowne quando descobriu o oxigênio. Depois disso, eles eram cientistas, profissionais com um método científico específico, metas, sociedades e recursos financeiros.

Muito dessa revolução pode ser atribuído a quatro homens que se encontraram na Universidade de Cambridge em 1812: Charles Babbage, John Herschel, Richard Jones e William Whewell. Esses eram homens incitantes, brilhantes que realizaram coisas extraordinárias. Charles Babbage, penso que conhecido da maioria dos TEDsters, inventou a primeira calculadora mecânica e o primeiro protótipo do computador moderno. John Herschel mapeou as estrelas do hemisfério sul e, em seu tempo livre, coinventou a fotografia. Tenho certeza de que poderíamos ser igualmente produtivos sem Facebook ou Twitter apossando-se de nosso tempo. Richard Jones tornou-se um economista importante que mais tarde influenciou Karl Marx. E Whewell não só cunhou o termo cientista, e também as palavras anodo, catodo e íon, mas ainda iniciou a grande ciência internacional com sua pesquisa global sobre as marés. Em Cambridge, no inverno entre 1812 e 1813, os quatro se encontravam para o que chamaram de café filosófico. Conversavam sobre ciência e a necessidade de uma nova revolução científica. Sentiam que a ciência tinha estagnado desde os dias da revolução científica que tinha acontecido no século XVII. Era tempo de uma nova revolução, que eles prometeram realizar, e o que é tão surpreendente sobre esses homens é que não apenas tinham esses sonhos grandiosos, como também realmente os levavam a efeito, indo até mesmo além de seus sonhos mais fantásticos. E vou contar-lhes hoje sobre quatro grandes mudanças que esses homens fizeram na ciência.

Aproximadamente 200 anos antes, Francis Bacon e, mais tarde, Isaac Newton, tinham proposto o método científico indutivo. Bem, esse é um método que começa com observações e experimentos e conduz a generalizações sobre a natureza, chamadas leis naturais, que são sempre submetidas a revisão ou rejeição, se surge nova evidência. Entretanto, em 1809, David Ricardo turvou as águas argumentando que a ciência da economia deveria usar um método diferente, o dedutivo. O problema era que um grupo influente em Oxford começou a argumentar assim porque, se funcionou tão bem em economia, esse método dedutivo deveria ser aplicado às ciências naturais também. Os membros do café filosófico discordaram. Escreveram livros e artigos promovendo o método indutivo em todas as ciências que eram extensamenete lidos por filósofos naturais, estudantes universitários e pessoas em geral. Ler um dos livros de Herschel foi um momento tão marcante para Charles Darwin que mais tarde ele diria: “Dificilmente algo causou-me uma impressão tão profunda em minha vida. Fez com que desejasse acrescentar minha energia à reserva acumulada do conhecimento natural.” Ele também formatou o método científico de Darwin, assim como o usado por seus pares.

Ciência para o bem público

Anteriormente, acreditava-se que o conhecimento científico deveria ser usado para o bem do rei ou rainha, ou para o ganho pessoal de alguém. Por exemplo, capitães de navios precisavam ter informações sobre as marés para atracar com segurança nos portos. Os controladores dos portos reuniam esse conhecimento e o vendiam aos capitães de navios. A sociedade do café filosófico mudou isso, trabalhando juntos. O estudo global das marés de Whewell resultou em tabelas públicas das marés e mapas das marés que forneciam gratuitamente o conhecimento dos controladores de portos a todos os capitães de navios. Herschel auxiliou fazendo observações sobre as marés da costa da África do Sul, já que, confome lamentou-se com Whewell, fora atirado fora das docas durante uma violenta maré alta. Os quatro homens realmente se auxiliavam de todas a formas. Eles também pressionaram sem descanso o governo britânico por dinheiro para construir as máquinas de Babbage porque acreditavam que essas máquinas teriam um impacto utilitário monumental na sociedade. Na época anterior às calculadoras de bolso, os números de que a maioria dos profissionais necessitava — banqueiros, agentes de seguros, capitães de navios, engenheiros — eram encontrados em livros de consulta como este, cheios de tabelas de números. Essas tabelas eram calculadas usando-se um procedimento fixo repetidamente por trabalhadores de meio expediente conhecidos como — e isso é surpreendente — computadores, mas esses cálculos eram realmente difíceis. Quero dizer, este almanaque náutico publicou as diferenças lunares para cada mês do ano. Cada mês exigia 1.365 cálculos, portanto essas tabelas estavam cheias de enganos. A máquina diferencial de Babbage foi a primeira calculadora mecânica concebida para calcular precisamente qualquer dessas tabelas. Dois modelos de sua máquina foram construídos nos últimos 20 anos por uma equipe do Museu de Ciências de Londres usando os planos originais. Esta é a que está agora no Museu de História do Computador, na Califórnia, e calcula precisamente. Realmente funciona. Depois, a máquina analítica de Babbage foi o primeiro computador mecânico no sentido moderno. Ela tinha memória separada e processador central. Era capaz de repetição, comando condicional e processamento paralelo, e era programável usando-se cartões perfurados, uma ideia que Babbage tirou da tecelagem de Jacquard. Tragicamente, as máquinas de Babbage nunca foram construídas em seu tempo porque a maioria das pessoas pensavam que computadores não humanos não teriam utilidade para o público.

Novas instituições científicas

Fundada à época de Bacon, a Real Sociedade de Londres era a sociedade científica mais avançada na Inglaterra e mesmo no restante do mundo. No século XIX, tinha se tornado uma espécie de clube de cavalheiros frequentada principalmente por antiquários, por literatos e pela nobreza. Os membros da sociedade do café filosófico auxiliaram a formar uma série de novas sociedades científicas, incluindo a Associação Britânica. Essas novas sociedades exigiam que os membros fossem pesquisadores atuantes, publicando suas pesquisas. Elas restabeleceram a tradição das perguntas e respostas depois que estudos científicos eram lidos, o que tinha sido interrompido pela Real Sociedade por ser deselegante. E pela primeira vez, deram às mulheres um espaço no portal da ciência. Os membros eram encorajados a trazer suas esposas, filhas e irmãs aos encontros da Associação Britânica, e, ainda que se esperasse que as mulheres frequentassem apenas as palestras públicas e os eventos sociais como este, elas começaram a se inflitrar nas reuniões científicas também. A Associação Britânica, mais tarde, seria a primeira, entre as principais organizações de ciências nacionais, no mundo a admitir mulheres como membros plenos. [Financiamento externo para a ciência]

Até o século XIX, esperava-se que os filósofos naturais pagassem por seu próprio equipamento e suprimentos. Ocasionalmente, havia prêmios, como o que foi concedido a John Harrison, no século XVIII, por solucionar o assim chamado problema da longitude, mas os prêmios eram conferidos somente após o fato, quando eram outorgados. Com o conselho da sociedade do café filosófico, a Associação Britânica começou a usar o dinheiro extra, gerado pelos encontros, para conceder subvenções para pesquisa em astronomia, marés, peixes fósseis, construção de navios e muitas outras áreas. Essas subvenções não apenas permitiram a homens menos ricos conduzir pesquisas, mas também encorajaram o pensar fora dos limites, em vez de apenas tentar resolver uma questão predeterminada. Finalmente, a Real Sociedade e as sociedades científicas de outros países seguiram o processo e isso se tornou – felizmente se tornou – a parte principal da paisagem científica hoje.

Assim a sociedade do café filosófico auxiliou a inventar o cientista moderno. Essa é a parte heroica da história deles. Mas há um outro lado também. Eles não previram pelo menos uma consequência dessa revolução. Ficariam profundamente consternados pela atual separação entre ciência e o restante da cultura. É chocante constatar que apenas 28 por cento dos americanos adultos têm um nível muito básico de conhecimento de ciências e isso foi verificado perguntando-se questões simples como: “Humanos e dinossauros habitaram a Terra ao mesmo tempo?” e “Qual proporção da Terra é coberta pela água?” Quando os cientistas se tornaram membros de um grupo profissional, lentamente foram afastados do restante de nós. Esta é a consequência não intencional da revolução que começou com nosso quatro amigos.

Charles Darwin afirmou: “Às vezes penso que acordos gerais e populares são quase tão importantes para o progresso da ciência quanto o trabalho original.” De fato, “A Origem das Espécies” foi escrito para um público geral e popular, e foi amplamente lido quando surgiu. Darwin sabia, o que parece termos esquecido, que ciência não é apenas para cientistas.

Obrigada.


Fonte: TED
Tradução: Isabel Villan
Revisão: Cristiano Garcia
Revisão da transcrição: Maurício Sauerbronn de Moura
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