Molly Crockett: Cuidado com a neuro-bobagem

Molly Crockett é neurocientista, PhD em Psicologia Experimental pela Universidade de Cambridge. Atualmente faz o pós doutorado no departamento de neuroimagem da University College London.

O centro da pesquisa de Molly é a compreensão da base neural do altruísmo, moralidade e valores do ser humano. Ela investiga como os neurotransmissores agem no cérebro para influenciar o comportamento social e econômico do indivíduo.

Nesta palestra para o TED, Molly analisa a moda de “tunning” cerebral e afirma que esta é uma prática pseudocientífica, já que nenhum desses “melhoramentos químicos” é comprovado.

Veja outros vídeos do TED.


Eu sou uma neurocientista e estudo tomadas de decisões. Eu realizo experimentos para testar como as substâncias químicas do cérebro influencia as escolhas que fazemos.

Eu estou aqui para lhes contar o segredo para uma decisão bem sucedida: um sanduíche de queijo. É isso mesmo. De acordo com os cientistas, um sanduíche de queijo é a solução para todas as suas decisões difíceis.

Como eu sei disso? Eu sou a cientista que fez o estudo.

Alguns anos atrás, meus colegas e eu nos interessamos em como uma substância química do cérebro chamada serotonina poderia influenciar as decisões das pessoas em situações pessoais. Especificamente, nós queríamos saber como a serotonina iria afetar a maneira que as pessoas reagem quando são tratadas injustamente.

Então fizemos um experimento: nós manipulamos os níveis de serotonina das pessoas dando a elas essa limonada com um gosto horrível que funciona eliminando o ingrediente básico para serotonina no cérebro, que é o aminoácido triptofano. Então o que descobrimos foi que, quando o triptofano estava reduzido, as pessoas tendem a se vingar quando são tratadas injustamente.

Esse foi o estudo que fizemos e eis aqui algumas das manchetes que surgiram depois:

“Um sanduíche de queijo é tudo o que você precisa para tomar decisões difíceis”

“Que amigo temos em queijos”

“Comer queijo e carne pode aumentar o auto-controle”.

Nesse ponto, vocês podem se perguntar: eu perdi alguma coisa?

“Comprovado! O chocolate não deixa você ficar ranzinza”.

Queijo? Chocolate? De onde veio isso? E eu pensei a mesma coisa quando isso apareceu, pois o estudo não tinha nada a ver com queijo ou chocolate. Nós demos as pessoas essa bebida de gosto horrível que afetou seus níveis de triptofano. Mas acontece que triptofano pode ser encontrado em queijo e chocolate. É claro, se a ciência diz que queijo e chocolate ajudam você a tomar decisões melhores, com certeza isso prende a atenção das pessoas. Então é isso que temos: a evolução de uma manchete.

Quando isso aconteceu, parte de mim pensou: “bom, qual é o problema? A imprensa simplificou algumas coisas, mas no final, é apenas uma reportagem”. E eu acho que vários cientistas têm essa atitude. Mas o problema é que esse tipo de coisa acontece o tempo todo e isso afeta não só as reportagens que você lê nos jornais mas também os produtos que você vê nas prateleiras. Quando as manchetes apareceram, o que aconteceu foi que os comerciantes começaram a me ligar perguntando se eu gostaria de dar respaldo científico a uma bebida que melhora o humor ou se eu poderia aparecer na TV para mostrar, diante de uma audiência ao vivo, que comidas reconfortantes fazem você se sentir melhor. Eu acho que essas pessoas tinham boas intenções, mas se eu tivesse aceitado suas ofertas, eu estaria indo além da ciência, e bons cientistas são cuidadosos em não fazer isso.

Mas, de qualquer forma, as neurociências estão cada vez mais presentes no mercado. Eis um exemplo: neuro-drinques, uma linha de produtos, incluindo Neuro Bliss aqui, que de acordo com sua embalagem ajuda a diminuir o estresse, melhora o humor, aumenta a concentração e promover uma postura positiva. Eu tenho que admitir, isso parece fantástico! Eu poderia ter usado isso dez minutos atrás. Quando isso apareceu na loja da minha rua, eu estava curiosa sobre os endossos científicos que apoiavam essas propagandas. Então fui ao website da companhia tentando encontrar alguns dos testes controlados de seus produtos. Mas não encontrei nenhum.

Com ou sem teste, essas propagandas estão nas embalagens junto com um desenho de um cérebro. E acontece que desenhos de cérebros têm propriedades especiais. Alguns pesquisadores pediram a centenas de pessoas para ler um artigo científico. Para metade das pessoas, o artigo incluía uma imagem cerebral e para outra metade, era o mesmo artigo mas sem a imagem cerebral. E no final – vocês sabem onde isso vai chegar – perguntaram as pessoas se elas concordavam com as conclusões do artigo. Então isso é o quanto as pessoas concordam com as conclusões sem a imagem. E isso é quanto concordam com o mesmo artigo que incluía a imagem cerebral. Então a mensagem para levar é a seguinte: “Você quer vender isso? Ponha um cérebro nisso”.

Agora vou fazer uma pausa e usar esse momento para dizer que a neurociência avançou muito nas últimas décadas e nós estamos descobrindo coisas incríveis o tempo todo sobre o cérebro. Por exemplo, há algumas semanas, neurocientistas do MIT descobriram como parar hábitos em ratos apenas controlando a atividade neural numa parte específica de seu cérebro. Uma coisa muito legal. Mas a promessa da neurociência levou a algumas expectativas enormes e declarações absurdas e não comprovadas.

Então o que vou fazer é mostrar a vocês como checar algumas manobras clássicas e sinais óbvios, na verdade, para o que tem sido chamado de neuro-bobagem, neuro-besteira ou, como prefiro, neuro-absurdo.

Então a primeira declaração não comprovada é que você usa escaneamento cerebral para ler os pensamentos e emoções das pessoas. Eis aqui um estudo publicado por uma equipe de pesquisadores na seção de Opinião do New York Times. A manchete? “Você ama seu iPhone. Literalmente.” Rapidamente, ele foi o artigo mais compartilhado do site.

Mas como eles descobriram isso? Eles colocaram 16 pessoas dentro de um scanner cerebral e mostraram a elas vídeos de iPhones tocando. Os scans cerebrais mostraram ativação dessa parte do cérebro chamada ínsula, uma região que eles dizem estar ligada ao amor e compaixão. Então concluíram que porque eles viram a ativação da ínsula, isso significava que os sujeitos amavam seus iPhones. Agora, só tem um problema com essa linha de raciocínio e é que a ínsula faz muitas coisas. Certo, ela está envolvida em emoções positivas como amor e compaixão, mas também está envolvida com vários outros processos, como memória, linguagem, atenção, até mesmo raiva, repugnância e dor. Então, com base na mesma lógica, eu poderia igualmente concluir que você odeia seu iPhone. O ponto aqui é, quando você vê a ativação da ínsula você não pode escolher a sua explicação favorita dessa lista (e é uma lista bem grande). Meus colegas Tal Yarkoni e Russ Poldrack mostraram que a ínsula é ativada em quase um terço de todos os estudos de neuroimagem já publicados. Então as chances são bem grandes de que sua ínsula vai se ativar agora mesmo, mas eu não vou me enganar pensando que isso significa que vocês me amam.

Por falar em amor e cérebro, há um pesquisador, conhecido por alguns como Dr. Love, que afirma que os cientistas encontraram a cola que junta a sociedade, a fonte do amor e da prosperidade. Dessa vez não é um sanduíche de queijo. Não, é um hormônio chamado ocitocina. Provavelmente vocês já ouviram falar. Então, o Dr. Love baseia seu argumento em estudos que mostram que quando você aumenta a ocitocina das pessoas, isso aumenta sua confiança, empatia e cooperação. Então ele chama ocitocina de “molécula da moral”.

Agora esses estudos são cientificamente válidos e eles foram replicados, mas isso não é a história toda. Outros estudos mostraram que a elevação de ocitocina aumenta a inveja. Aumenta a arrogância. A ocitocina pode enviesar as pessoas a favorecer seu próprio grupo às custas de outros grupos. E em alguns casos, a ocitocina pode até mesmo diminuir a cooperação. Então baseado nesses estudos, eu poderia dizer que a ocitocina é uma molécula imoral, e me chamar de Dra. Strangelove.

Então vemos neuro-absurdos em todas as manchetes. E vemos nos supermercados, nas capas de livros. E nos laboratórios clínicos?

O imageamento por SPECT é uma tecnologia de escaneamento cerebral que usa um traçador radioativo para rastrear o fluxo de sangue no cérebro. Pela barganha de alguns milhares de dólares, há clínicas nos Estados Unidos que lhes fornecem um desses scans de SPECT e usam a imagem para ajudar a diagnosticar seus problemas. Esses scans, as clínicas dizem, podem ajudar a prevenir Mal de Alzheimer, solucionar problemas de vício e de dieta, superar conflitos matrimoniais e tratar, é claro, uma variedade de distúrbios mentais desde depressão para ansiedade e TDAH. Isso parece ótimo. Muitas pessoas concordam. Algumas dessas clínicas estão lucrando dezenas de milhões de dólares por ano.

Só tem um problema. O amplo consenso na neurociência é que você não pode diagnosticar distúrbios mentais a partir de um único escaneamento cerebral. Mas essas clínicas trataram dezenas de milhares de pacientes até hoje, muitas delas crianças, e a imagem por SPECT envolve injeção de radioativos, expondo as pessoas à radiação, que é potencialmente nociva.

Eu estou mais animada que a maioria das pessoas, como neurocientista, sobre o potencial da neurociência de tratar distúrbios mentais e até mesmo nos tornar melhores e mais espertos talvez. E se um dia pudermos dizer que queijo e chocolate nos ajudam a tomar melhores decisões, contem comigo. Mas não chegamos lá ainda. Nós não encontramos um botão de “comprar” no cérebro, nós não podemos dizer se alguém está mentindo ou amando apenas olhando seus scans cerebrais e não podemos transformar pecadores em santos com hormônios. Talvez algum dia possamos, mas até lá, precisamos ter cuidado para não deixar que afirmações exageradas desviem recursos e atenção para a verdadeira ciência que é montar um quebra-cabeças muito maior.

Então é aqui que vocês entram. Se alguém tentar vender a vocês algo com um cérebro junto, não confiem apenas em suas palavras. Perguntem as questões complicadas. Peçam para ver as evidências. Perguntem a parte da história que não está sendo contada. As respostas não deveriam ser simples, porque o cérebro não é simples. Mas isso não nos impede de tentar entendê-lo, de qualquer forma.

Obrigada.


Fonte: TED
Tradução: Francisco Dubiela
Revisão: Nadja Nathan
Revisão da transcrição: Maurício Sauerbronn de Moura
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