Michael Shermer: por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?

Michael Shermer é um psicólogo e historiador da ciência. Em 1992 fundou a revista Skeptic (cético), onde expôs as falácias do Design Inteligente, das conspirações do 11 de setembro, visitas alienígenas e outras crenças e paranoias populares.  Shermer defende que só podemos entender o nosso mundo combinando boa teoria com a boa ciência.

Nesta palestra para o TED, Shermer analisa os motivos que levam as pessoas a “verem” a Virgem Maria em um sanduíche de queijo ou nas letras demoníacas que aparecem quando tocamos um disco ao contrário. O vídeo faz-nos perceber como nossa mente nos leva a acreditar em coisas estranhas, mesmo ignorando os fatos.

Veja outros vídeos do TED.


Olá, sou Michael Shermer, diretor da Sociedade dos Céticos e editor da revista Skeptic. Investigamos alegações de paranormalidade, pseudo-ciência, seitas, cultos e correlatos, ciência e pseudociência e não-ciência e ciência lixo, ciência vodu, ciência patológica, ciência ruim, não-ciência e o conhecido nonsense. E a não ser que estivessem em Marte ultimamente, vocês sabem que existe muito disso por aí.

Alguns nos chamam pejorativamente de “desbancadores”. Mas é preciso encarar, existem muitas fraudes e somos como o esquadrão anti-fraude do departamento de polícia, dando descarga. Bem, somos um tipo de Ralph Nader das más ideias tentando trocar más por boas ideias.

Vou lhes mostrar um exemplo de má ideia. Trouxe isto comigo. Foi nos enviado para testes pela NBC Dateline. Foi fabricado pela Quadro Corporation em West Virgínia. Chama-se a Varinha Detetora Quadro 2000. Foi vendida a diretores de escola por 900 dólares cada. É um pedaço de plástico com uma antena. Pode-se localizar qualquer coisa, mas esta, em particular, foi projetada para localizar maconha em armários de estudantes.

Funciona assim: você anda pelo corredor e verifica se a antena inclina para um armário específico e então você o abre. Parece que é assim. Vou mostrar. Não, bem, tem uma tendência a ir para direita. Então, vou mostrar… bem, isto é ciência, faremos um experimento controlado. Obviamente irei para este lado.

Senhor, poderia esvaziar os bolsos, por favor?

A pergunta é: isto pode realmente achar maconha nos armários dos estudantes? E a resposta é: se abrir a quantidade suficiente, sim.

Mas na ciência, temos que verificar os erros, não apenas os acertos. E esta é provavelmente a lição fundamental da minha pequena palestra, é assim que trabalham os médiuns, astrólogos, tarólogos e etc. As pessoas lembram dos acertos, esquecem os erros. Em ciência, temos que manter todos os dados e verificar se o número de acertos de alguma maneira foge do padrão esperado pelo acaso.

Neste caso, nós fizemos testes. Tínhamos duas caixas opacas, uma com maconha autorizada pelo governo e outra com nada dentro. E obtivemos 50 porcento todo o tempo… que é exatamente o que se espera num cara-coroa. Então isto é apenas um exemplo divertido do tipo de coisas que fazemos.

Skeptic é uma publicação trimestral. Cada uma tem tema específico, como esta que é sobre o futuro da inteligência. As pessoas estão ficando mais espertas ou mais bobas? Tenho um opinião formada sobre isto em razão de meus negócios. Mas, realmente, as pessoas, ao que parece, estão ficando mais espertas. Elevando 3 pontos de QI a cada 10 anos. Tipo da coisa interessante.

Não pense no ceticismo ou mesmo em ciência como uma coisa. Ciência e religião são compatíveis? É o mesmo que: ciência e hidraúlica são compatíveis? São duas coisas diferentes. Ciência não é uma coisa. É um verbo. É um jeito de pensar sobre coisas. É uma maneira de procurar explicações naturais para todos os fenômenos.

Quer dizer, o que é mais provável… que inteligências extraterrestres ou seres multi-dimensionais viajem pela vastidão do espaço interestelar para deixar um círculo na plantação do fazendeiro Bob em Puckerbrush, Kansas para promover nossa homepage? Ou é mais provável que um leitor de Skeptic fez no Photoshop? Em todo caso temos que perguntar: qual a explicação mais provável? E antes de dizer que algo é de outro mundo, precisamos ter certeza de que não é deste mundo. O que é mais provável: que Arnold teve uma pequena ajuda dos ETs em sua candidatura para governador? Ou que o World Weekly News faz uma tremenda gozação?

E parte disso… o mesmo tema é bem expresso aqui nesta charge de Sidney Harris. Para os que estão no fundo, está escrito “Então ocorre um milagre. Acho que precisamos ser mais explícitos no passo dois”. Este único slide desmantela completamente os argumentos do design inteligente. Nada mais a acrescentar. Você pode dizer que milagres acontecem. Só que isto não explica coisa alguma. Não oferece nada. Nada para ser testado. É fim de papo para os criacionistas do design inteligente.

Enquanto – é verdade, cientistas às vezes disparam termos como remendos linguísticos – energia escura ou matéria escura e coisas do gênero. Até que descubramos o que é, chamamos assim. É o começo da cadeia causa-efeito para a ciência. Para os criacionistas do design inteligente, é o fim da cadeia. Então novamente, podemos perguntar: O que é mais provável? OVNIs são espaçonaves alienígenas, erros de percepção cognitiva ou mesmo fraudes?

Este é um OVNI fotografado da minha casa em Altadena, Califórnia, voado acima de Pasadena. E se parece muito com uma calota de Buick, é porque é. Você não precisa nem de Photoshop, nem equipamento de alta tecnologia, você não precisa de computadores. Foi tirada com um câmera Kodak Instamatic descartável. Precisa só alguém escondido ao lado com a calota pronta para o arremesso. Preparar a câmera… Lá vai.

Embora seja possível que a maioria dessas coisas sejam fraudes ou ilusões ou sei lá e algumas reais, é mais provável que todas sejam fraudes, como os círculos nas plantações.

De uma maneira mais séria: em tudo na ciência, procuramos um equilíbrio entre os dados e a teoria. No caso de Galileu, ele teve dois problemas quando apontou o telescópio para Saturno. Primeiro, não existia teoria sobre anéis planetários. E segundo, seus dados eram granulados e borrados e ele quase não podia entender para o que ele estava olhando. Assim ele escreveu o que vira: “Tenho observado que o planeta mais distante possui três corpos.” E foi o que ele concluiu a partir do que viu. Assim sem uma teoria de anéis planetários e somente com dados granulados, você não consegue ter uma boa teoria. E isto não foi solucionado até 1655.

Este é o livro de Christiaan Huygens no qual ele cataloga todos os erros que as pessoas cometeram tentanto descobrir o que acontecia com Saturno. E não foi até… Huygens tinha duas coisas. Ele tinha uma boa teoria de anéis planetários e como funcionava o sistema solar. E então, ele tinha um telescópio melhor, dados de granulação mais fina nos quais ele podia concluir que, como a Terra está orbitando mais rápido – de acordo com as Leis de Kepler – que Saturno, logo, ficamos alinhados. E observamos a inclinação dos anéis por diferentes ãngulos. E isso fica, de fato, esclarecido.

Os problemas em ter uma teoria é que sua teoria pode estar carregada de tendências cognitivas. Assim, um dos problemas em explicar porque as pessoas acreditam em coisas estranhas, é que temos coisas em um nível simples. E então me dirigirei para coisas mais sérias. Como, temos uma tendência em ver rostos.

Este é o rosto em Marte que… em 1976, houve um movimento forte para que a NASA fotografasse aquela area porque as pessoas achavam que isto era um monumento arquitetônico feito por marcianos. Bem, ao que parece… aqui está um close feito em 2001. Se vocês apertarem os olhos, ainda conseguem ver a face. E quando vocês apertam os olhos, tudo que você faz é transformar a granulação da imagem de fina para grossa. E aí, vocês estão reduzindo a qualidade de seus dados. E se eu não dissesse a vocês o que enxergar, ainda sim veriam o rosto porque fomos programados pela evolução para enxergar rostos.

Rostos são importantes socialmente para nós. E, claro, caras felizes. Rostos de todos os tipos são fáceis de enxergar.  Vocês podem ver a cara feliz em Marte, aqui. Se astrônomos fossem sapos, talvez veriam Caco o sapo. Vocês enxergam ele aqui? Perninhas de sapo. Ou, e se geologistas fossem elefantes?

Iconografia religiosa.  Descoberto por um padeiro do Tennessee em 1996. Ele cobrou 5 pratas por cabeça para ver a broa da freira até que foi processado pelos advogados de Madre Teresa. Aqui está N. Sra. de Guadalupe e N. Sra de Watsonville, ladeira abaixo. Ou seria ladeira acima? Casca de árvore é particularmente boa porque é rugosa, lenhosa, malhada em preto-e-branco e vocês obtém um localizador de padrões… humanos são animais localizadores de padrão.

Aqui está a Virgem Maria em uma vidraça de São Paulo. Aqui, a Virgem Maria fez sua aparição em um sanduíche de queijo… que segurei de fato em um cassino de Las Vegas, claro, sendo América. O cassino pagou 28.500 dólares no eBay pelo sanduíche de queijo.  Mas com quem realmente parece a Virgem Maria? Tem lábios carnudos, visual dos anos 1940.

Virgem Maria em Clearwater, Flórida. Eu fui realmente ver esta. Tinha muita gente lá… os fiéis vieram para esta em suas… cadeiras de rodas e muletas, etc. E fomos lá, investigamos. Só para ter uma idéia do tamanho, ali estamos Dawkins, eu e O Admirável Randi, ao lado uma imagem de 2 andares e meio. Todas estas velas, muitas milhares de velas o povo acendera em devoção. Então caminhamos para os fundos, só para ver o que estava acontecendo lá, e parece que aonde quer que tenha um sprinkler e uma palmeira, se consegue o efeito. Aqui está a Virgem Maria nos fundos, aposto que só pode ter um milagre por edifício. Aí é realmente um milagre de Maria ou é um milagre da Marge?

E assim vou finalizar com outro exemplo disto com áudio… ilusões auditivas. Existe um filme, “Vozes do Além”, com Michael Keaton sobre os mortos conversando conosco. A propósito, esse negócio de falar com os mortos não é grande coisa. Ao que parece, qualquer um pode fazer. Fazer os mortos responderem é a parte mais difícil.

Neste caso, tais mensagens estão supostamente escondidas em fenômenos eletrônicos Tem um site, ReverseSpeech.com, aonde eu baixei este material. Aqui em sentido normal – este é o mais famoso. Aqui está a versão em sentido normal de uma canção muito famosa. Cara, vocês não ficariam ouvindo isto o dia inteirinho?

Tudo bem, agora em sentido inverso, e vejam se conseguem escutar a mensagem que está supostamente escondida. O que vocês conseguiram?

(Platéia: Satã.)

Michael Sermer: Satã? OK, bem, pelo menos conseguimos Satã. Agora, vou estimular a parte auditiva de seus cérebros. ao dizer o que vocês devem esperar ouvir, e ouviremos novamente. (Risos) (Aplausos)

Vocês não conseguem errar quando eu digo o que está lá.

Tudo certo, vou terminar com um boa estorinha edificante sobre – a Skeptics é uma organização educacional sem fins lucrativos. Estamos sempre atrás de coisinhas legais que as pessoas fazem.

E na Inglaterra, tem uma cantora pop. Muito… uma dos cantoras mais populares na Inglaterra hoje, Katie Melua. E ela compôs um linda canção. Chegou a uma das cinco mais em 2005, chamada “9 Milhões de bicicletas em Beijing”. É uma estória de amor – ela é a Norah Jones do Reino Unido — sobre o quanto ela ama o seu namorado. e compara a 9 milhões de bicicletas, e por aí vai. E tem esta passagem aqui.

♫Estamos a 12 bilhões de anos-luz da borda♫
♫É um palpite♫
♫Niguém pode afirmar que é verdade♫
♫ Mas sei que sempre estarei contigo♫

Bom, muito bacana. Pelo menos passou perto. Na América seria: “Estamos a 6.000 anos-luz da borda.”

Mas meu amigo, Simon Singh, físico de partículas, virou agora divulgador científico, e escreveu o livro “O Big Bang”. Ele aproveita cada chance para promover a boa ciência. E aí, escreveu um artigo no The Guardian sobre a canção de Katie. No qual ele diz, bem, sabemos exatamente a distância da borda. Vocês sabem, é 12… é 13,7 bilhões de anos-luz, e não é um palpite. Sabemos a distância com precisão e pequena margem de erro. E então, podemos dizer que, embora não absolutamente certo, está bem aproximado.

E, para sua surpresa, katie telefonou para ele após a publicação do artigo. E disse, “Estou tão constrangida. Sou membro do clube de astronomia e deveria saber disto.” E recompôs a canção. Assim, vou terminar ao som da nova versão.

♫Estamos a 13,7 bilhões de anos-luz♫
♫ da borda do universo observável ♫
♫ Esta é uma boa estimativa com pequena margem de erro ♫
♫ E com esta informação disponível ♫
♫ Eu prevejo que sempre estarei contigo ♫

Não é maneiro?


Fonte: TED
Tradução: Marcos Beraldo
Revisão: Fabio Ceconello
Anúncios

Um pensamento sobre “Michael Shermer: por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?

  1. Pingback: O padrão por trás do auto-engano | Livre Pensamento

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s