Manal al-Sharif: Uma mulher saudita que ousou dirigir

Manal al-Sharif

Manal al-Sharif é uma cientista da computação saudita especialista em segurança da Internet.

Em maio de 2011 ela descobriu que não havia, na Arábia  Saudita, nenhuma legislação que proibisse a mulher de dirigir. A proibição era baseada única e exclusivamente na tradição e nos dogmas religiosos. Ela, então, iniciou uma campanha para que as mulheres sauditas começassem a dirigir. Ela se deixou filmar dirigindo e postou esse vídeo no Youtube e no Facebook (veja aqui).

Manal nunca pretendeu romper com sua religião nem com as leis de seu país. Mesmo assim, foi presa várias vezes e tornou-se um símbolo feminista no mundo todo.

Apesar da campanha anti-islâmica feita pela mídia mundial utilizando seu nome, a luta de Manal não é menor. Seu rompimento com um que seja dos dogmas religiosos pode permitir que as mulheres (não só as islâmicas) passem a repensar outros dogmas, outras tradições, e fazer com que caminhem no sentido de pensarem por si mesmas, livrando-se de todos os dogmas e tradições e levando o mundo a  um novo patamar do conhecimento, baseado na realidade.

Veja outros vídeos do TED.


Permitam-me começar esta palestra com uma pergunta a todos. Vocês sabem que pelo mundo todo, as pessoas lutam por liberdade, lutam por seus direitos. Algumas lutam contra governos opressores. Outras lutam contra sociedades opressoras. Qual luta vocês acham que é mais difícil? Vou tentar responder essa questão nos próximos minutos.

Deixem-me voltar dois anos em minha vida. Era hora do meu filho Aboody ir para a cama. Ele tinha cinco anos na época. Depois de terminar os rituais antes de dormir, ele olhou para mim e fez uma pergunta: “Mamãe, nós somos pessoas más?”. Eu fiquei chocada. “Por que você está dizendo isso, Aboody?”. Naquele dia mais cedo, eu notei umas marcas no rosto dele quando ele voltou da escola. Ele não queria me contar o que havia acontecido. [Mas agora] ele estava pronto para contar: “Dois meninos bateram em mim hoje na escola. Eles me disseram, ‘Nós vimos sua mãe no Facebook. Você e sua mãe deveriam ir para a cadeia.'”

Eu nunca tive medo de dizer nada a Aboody. Sempre fui uma mulher orgulhosa de minhas conquistas. Mas aqueles olhos questionadores do meu filho foram meu momento da verdade, quando tudo se encaixou.

Vejam, sou uma mulher saudita que já esteve na cadeia por dirigir em um país onde mulheres não deveriam dirigir carros. Apenas por me dar as chaves de seu carro, meu irmão já foi detido duas vezes, e ele já foi assediado ao ponto de ter que abandonar seu trabalho como geólogo, deixar o país com sua esposa e seu filho de dois anos. Meu pai teve que escutar um sermão de sexta-feira ouvindo o imame1 condenar mulheres que dirigem e chamá-las de prostitutas no meio de muitos adoradores, alguns deles nossos amigos e família de meu próprio pai. Eu encarei uma campanha organizada de difamação na mídia local combinada com falsos boatos espalhados em reuniões familiares, nas ruas e nas escolas.

Aí me caiu a ficha. Ficou claro que aqueles garotos não queriam ser rudes com meu filho. Foram apenas influenciados pelos adultos ao seu redor. E não era por minha causa, não era por causa de uma punição por pegar o volante e dirigir alguns quilômetros. era uma punição por atrever-se a desafiar as regras da sociedade.

Mas minha história vai além desse meu momento da verdade. Permitam-me fazer-lhes um resumo da minha história. Era maio de 2011, e eu estava reclamando para um colega de trabalho sobre o assédio que eu vinha sofrendo ao procurar uma carona de volta para casa, apesar de eu ter um carro e uma carteira de motorista internacional. Eu sempre soube que as mulheres na Arábia Saudita sempre reclamaram da proibição, mas já faz 20 anos que ninguém tenta fazer nada a respeito disso, uma geração inteira. Ele jogou as boas/más notícias na minha cara: “Mas não há nenhuma lei te proibindo de dirigir.”

Eu pesquisei e ele estava certo. Não havia mesmo uma lei na Arábia Saudita. Era só um costume e tradição que estava consagrada num rígido fatwa2 religioso e imposto sobre as mulheres. Aquela percepção acendeu a ideia de 17 de junho, quando nós incentivamos as mulheres a pegar o volante e sair dirigindo.

Algumas semanas depois, começamos a receber estas “Homens lobos vão te estuprar se você sair dirigindo”.

Uma mulher corajosa, seu nome é Najla Hariri, ela é uma mulher saudita da cidade de Jeddah, ela dirigiu um carro e anunciou, mas ela não gravou um vídeo. Nós precisávamos de provas. Então eu dirigi e postei um vídeo no YouTube. Para minha surpresa, tive centenas de milhares de visualizações no primeiro dia. O que aconteceu depois, claro? Comecei a receber ameaças de morte, estupro, só para parar essa campanha.

As autoridades sauditas ficaram bem quietas. Aquilo nos deixou preocupadas. Eu estava na campanha com outras mulheres sauditas e até homens ativistas. Queríamos saber como as autoridades responderiam no dia, 17 de junho, quando as mulheres saírem e dirigirem. E dessa vez eu pedi ao meu irmão para vir comigo e passar dirigindo por um carro de polícia. Foi rápido. Nós fomos presos, assinamos um compromisso de não dirigir de novo e nos soltaram. Fomos presos de novo, ele foi mandado para detenção por um dia e eu fui para a prisão. Eu não entendia por que me mandaram para lá porque não enfrentei nenhuma acusação nos interrogatórios. Mas eu estava certa de que era inocente. Eu não desobedeci a lei e mantive minha abaya – é um véu preto que usamos na Arábia Saudita antes de sair de casa – e minhas colegas de cela ficaram me dizendo para tirar, mas eu tinha tanta certeza da minha inocência que eu dizia, “Não, vou sair hoje.”

Fora da prisão, o país todo estava num frenesi, Alguns me atacando de verdade, e outros me apoiando e até coletando assinaturas em uma petição para enviar ao rei para me libertarem. Eu fui liberada depois de nove dias.

17 de junho estava vindo. As ruas estavam cheias de carros de polícia e carros de polícia religiosos, mas algumas centenas de corajosas mulheres sauditas quebraram a proibição e dirigiram naquele dia. Nenhuma foi presa. Nós quebramos o tabu.

Então, agora eu penso, todos sabem que não podemos dirigir, ou que mulheres não podem dirigir na Arábia Saudita, Mas talvez alguns saibam por quê.

Deixem-me ajudá-los a responder essa pergunta. Houve esse estudo oficial que foi apresentado ao Conselho de Shura – é o conselho consultivo indicado pelo rei da Arábia Saudita – e foi feito por um professor local, um professor universitário. ele alega que foi feito baseado num estudo da UNESCO. E o estudo diz: a taxa de estupro, adultério, crianças ilegítimas, até abuso de drogas, prostituição em países onde as mulheres dirigem é maior do que em países onde elas não dirigem.

Eu sei, eu fiquei assim, chocada. Eu fiquei assim, “Nós somos o último país no mundo onde as mulheres não dirigem.” Então se você olhar para o mapa mundi, só sobram dois países: A Arábia Saudita e a outra sociedade é o resto do mundo.

Nós começamos um hashtag no Twitter tirando sarro do estudo, E ele apareceu em manchetes do mundo.

[BBC News: ‘Fim da virgindade’ se as mulheres dirigirem, alerta clérigo saudita]

E só então percebemos que é tão efetivo tirar sarro do opressor. Isso o despoja de sua maior arma: o medo. Este sistema é baseado no ultra-conservadorismo, tradições e costumes que trata as mulheres como se elas fossem inferiores e elas precisassem de um guardião para protegê-las, e elas precisam pedir permissão a esse guardião, seja verbal ou escrita, por toda a vida.

Somos menores de idade até o dia de nossa morte.

E fica ainda pior quando está consagrado em fatwa religioso baseado numa má interpretação da lei charia. ou da lei religiosa. O que é pior, quando elas são codificadas como leis do sistema, e quando as próprias mulheres acreditam em sua inferioridade, e até lutam contra aqueles que tentam questionar essas regras.

Então para mim, não se tratava somente desses ataques que eu tive que enfrentar. Tratava-se de viver duas percepções totalmente diferentes da minha personalidade, da minha pessoa – a vilã em meu país natal, e a heroína fora.

Só para vocês saberem, duas histórias aconteceram nos últimos dois anos. Uma delas foi quando eu estava na prisão. Tenho certeza que quando eu estava na prisão, todo mundo viu manchetes na mídia internacional algo como isto durante esses nove dias em que estive presa. Mas no meu país natal, a história era totalmente diferente. Era mais parecido com isso:

“Manal al-Sharif é acusada de perturbar a ordem pública e incitar mulheres a dirigir.”

Eu sei.

“Manal al-Sharif recua em sua campanha.”

Ah, tudo bem. Esta é minha favorita.

“Manal al-Sharif se abala e confessa: ‘Forças estrangeiros me incitaram.'”

E assim por diante, até julgamento e castigo em público.

Então, a história é totalmente diferente. Me pediram ano passado para discursar no Fórum da Liberdade em Oslo. Eu estava cercada por esse amor e o apoio de pessoas ao meu redor, e elas olhavam para mim como inspiração. Ao mesmo tempo, eu voltei para meu país natal, Eles odiaram tanto aquele discurso. Como eles o chamaram: uma traição ao país saudita a ao povo saudita, e ainda lançaram um hashtag chamado #OsloTraitor no Twitter. Cerca de 10.000 tuítes foram publicados com esse hashtag, enquanto o hashtag oposto, #OsloHero, havia um tanto de tuítes publicados.

Eles até mesmo iniciaram uma pesquisa que teve mais de 13 mil respostas: se eles me consideravam traidora ou não depois daquele discurso. 90% disseram sim, ela é traidora.

Então há essas duas percepções diferentes da minha personalidade. Para mim, eu sou uma mulher saudita orgulhosa, e eu amo meu país, e porque eu amo meu país estou fazendo isso. Porque eu acredito que uma sociedade só será livre quando as mulheres dessa sociedade forem livres.

Mas eu aprendi lições dessas coisas que me aconteceram. Eu aprendi a sempre estar lá. A primeira coisa que fiz ao sair da prisão, depois, claro, de tomar um banho, eu entrei na Internet, abri meu Twitter e meu Facebook, e eu sempre fui muito respeitosa com as pessoas que me dizem sua opinião. Eu escuto o que elas têm a dizer, e eu nunca me defenderia com palavras apenas. Eu agiria.

Quando disseram que eu deveria recuar com a campanha, eu movi a primeira ação judicial contra o diretório geral de polícia de tráfego por não emitirem minha carteira de motorista. Há muitas pessoas também – um grande apoio, cerca de 3 mil pessoas – que assinaram a petição para me libertar. Nós mandamos uma petição ao Conselho de Shura  em favor de suspender a proibição das mulheres sauditas, e haviam cerca de 3.500 cidadãos que acreditavam naquilo e eles assinaram a petição. Havia pessoas como aquelas, só mostrei alguns exemplos, que são incríveis, que acreditam nos direitos das mulheres na Arábia Saudita, e estão tentando e também estão enfrentando muito ódio por falar e expressar suas visões.

A Arábia Saudita hoje está dando pequenos passos em direção à melhora dos direitos da mulher. O Conselho de Shura, que é indicado pelo rei, por decreto real do rei Abdullah, ano passado havia 30 mulheres nesse Conselho, cerca de 20%.

20% do Conselho.

Ao mesmo tempo, finalmente, esse Conselho, depois de rejeitar nossa petição quatro vezes para as mulheres dirigirem, eles finalmente aceitaram em fevereiro.

Depois de ser mandada para a prisão ou castigada ou mandada a julgamento, o porta-voz da polícia de tráfego disse, nós só vamos emitir infrações de trânsito para motoristas mulheres.

O Grande Mufti, que é o chefe da fundação religiosa na Arábia Saudita, ele disse que não é recomendado que mulheres dirijam. Antigamente era haraam, proibido pelo Grande Mufti anterior. Então para mim, não se trata somente desses pequenos passos. Trata-se das próprias mulheres.

Uma amiga uma vez me perguntou, ela disse, “Quando você acha que vai acontecer isso das mulheres dirigirem?” Eu disse a ela, “Só se as mulheres pararem de perguntar ‘Quando?’ e agirem para que seja agora.”

Então não se trata somente do sistema, também se trata de nós mulheres dirigirmos nossa própria vida, eu diria. Eu não tenho ideia, mesmo, de como me tornei uma ativista. E não sei como ainda sou uma. Mas tudo que eu sei, e de que eu tenho certeza, no futuro quando alguém me perguntar sobre a minha história, eu vou dizer, “Tenho orgulho de estar entre aquelas mulheres que suspenderam a proibição, lutaram contra ela, e celebraram a liberdade de todos.” Então a pergunta com que comecei minha palestra, quem você acha que é mais difícil de enfrentar, governos opressores ou sociedades opressoras?

Espero que vocês encontrem pistas para a resposta no meu discurso. Obrigada a todos.


Notas

  1. Imame (ou Imã) é o líder religioso islâmico, quem dirige o culto.
  2. Fatwa é um pronunciamento legal feito por um mufti (um especialista na lei Islâmica) sobre um assunto específico.
  3. Haraam é uma proibição da lei islâmica. É um tabu (ou pecado) mas que, nos países islâmicos, é tomado como lei do Estado. O termo também é usado na tradição judaica.

Fonte: TED
Tradução: Gustavo Rocha
Revisão e notas: Maurício Sauerbronn de Moura
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3 pensamentos sobre “Manal al-Sharif: Uma mulher saudita que ousou dirigir

  1. Acho que o problema é bem simples: Os homens de lá estão com medo de competir com as mulheres ou de dividir o espaço (que antes sempre foi deles) com elas. A solução ao problema, no entanto, não é assim tão simples. Espero que Manal Al-Sharif consiga mesmo melhorar a situação das mulheres no país dela…

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    • Não creio, Nicolle.

      Vários teóricos já discorreram sobre o assunto. A opressão da mulher nunca foi uma questão de homem X mulher. Há uma questão que é religiosa, claro, e dogmática, mas as religiões modernas servem a um propósito que já há muito não é mais tentar explicar o mundo.

      A função das religiões, já há muito tempo, é a de alienação. É a de facilitar a vida do opressor, do dominador, do poderoso. Todos os grandes impérios utilizaram esse aspecto da religião muito bem (veja o Império Romano e os Jesuítas na América, por exemplo).

      A opressão da mulher só aparece no mundo quando aparece a propriedade privada. Quando a posse das coisas era coletiva (e, portanto, não havia herança), também não havia opressão da mulher. Essa opressão se intensificou quando os seres humanos (machos ou fêmeas) passaram a ser oprimidos por outros seres humanos.

      Veja: quem tem interesse na opressão da mulher não é o homem. Quem tem interesse a alienação e na opressão é o poderoso. É o patrão! É o banqueiro! É o proprietário!

      Esse é o ponto onde sua lógica peca: antes o espaço não era “deles”, antes o espaço era de todos. Agora que o espaço é de poucos, esses poucos patrocinam a divisão, a cizânia.

      Qualquer pessoa que passe a pensar livremente é uma vitória, claro. Uma grande vitória. Mas a vitória final só virá quando nenhum ser humano mais for explorado e oprimido por outro ser humano.

      Sobre isso, por favor, leia meu post anterior: Babeuf e a igualdade entre os homens.

      Obrigado por acompanhar o Livre Pensamento.

      Porantim

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