Marco Feliciano em defesa do estuprador

A gente sabe que há muita estupidez e ignorância por aí, mas eu sempre acho que  há um mínimo de decência e bom senso, que há sempre um limite pra quão absurdas possam ser as coisas que uma pessoa defende. Parece que estou errado.

No dia 1º de agosto último foi sancionada a lei que define que mulheres vítimas de violência sexual devem ter atendimento prioritário nos hospitais. A lei define que qualquer vítima de violência sexual (seja homem, mulher ou criança) deve ter atendimento imediato com três objetivos claros: curar as lesões físicas e psicológicas, evitar ou minimizar sequelas físicas e psicológicas e facilitar o trabalho policial de identificação do agressor.

Penso eu, na minha ignorância, que qualquer ser humano seria a favor de defender a vida e a saúde de quem já sofreu tão vil violência. Parece-me absolutamente surreal que algum representante eleito possa ser contrário à vítima e defensor do agressor. Ledo engano.

O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC), já deu vários exemplos de quão misógino, racista e homofóbico é, mas agora extrapolou qualquer limite: está defendendo o estupro, a prática da violência sexual, está defendendo o estuprador, nega qualquer direito humano ou legal à vítima de estupro. Para ele, uma criança abusada sexualmente não deve ter nenhum direito garantido.

O mundo real

Segundo a ONU 1, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante sua vida. Mulheres de 14 a 44 anos correm mais risco de serem estupradas ou sofrerem violência doméstica do que de terem câncer, sofrerem um acidente de carro ou contrair malária. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a quantidade de mulheres vítimas de violência sexual por país pode chegar a 59%.

Uma em cada cinco mulheres sofreu ou sofrerá um estupro ou tentativa.

No Brasil, isso não é diferente. Uma pesquisa de 2001 realizada pela USP e OMS 2, que entrevistou 4.299 mulheres na Grande São Paulo e Zona da Mata, apurou que 29% das entrevistadas com mais de 15 anos sofreram violência sexual por parte de estranhos. A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. E a situação está piorando: entre 2009 e 2012, os casos notificados de estupro cresceram 157% 3.

Dados do Ministério da Justiça dão conta que entre 2001 e 2009, foram registrados 16.802 casos de abuso sexual de crianças 4. Isso quer dizer que uma criança sofre violência sexual a cada 4 horas!

Segundo dados do IPAS, o número de sobreviventes de violência sexual que são infectadas por DSTs (como a AIDS) pode chegar a 50%!

A lógica do agressor sexual

Para o pastor Marco Feliciano e Legião (porque são muitos 5) não interessa se a vítima tem ferimentos físicos. Não interessa que esses ferimentos podem levar a sequelas que podem, inclusive, levá-las a não mais poderem ter filhos. Não interessam as sequelas psicológicas. Não interessa a punição do estuprador. Não interessa se a vítima contrair AIDS, cancro, gonorreia, sífilis ou hepatite.

O que importa é que a vítima cale a boca porque a culpa por qualquer violência, pela sua lógica, é da vítima, nunca do agressor.

Para ele, estupro não passa AIDS, afinal, ele acha que o estupro é mais “natural” do que um relacionamento homoafetivo. Para ele, se é um homem estuprando uma mulher, ela não terá AIDS, já que “AIDS é o câncer gay”. Ele faz questão de rasgar qualquer noção de ciência, qualquer noção de bom senso e de humanidade.

Ele afirma com todas as letras que as mulheres não podem ter direitos, não podem trabalhar 6. Elas devem apenas servir a seu marido, seu “mestre”.

A mulher é só um vaso de planta

Mas os ataques ao bom senso e a falta de respeito à mulher não param por aí.

Feliciano afirma que marido pode obrigar a esposa a fazer sexo! Feliciano nega à mulher o direito de dizer não! Para o pastor, se não há violência física, então não há violência sexual. Para ele, sexo não consentido pode!

Recentemente, o dito fez a biltre defesa da ideia de que a mulher deve assumir como filho o resultado de um estupro. Inclusive propõe que o Estado cale a boca da vítima do estupro com um pagamento mensal de um salário mínimo 7.

Mais do que isso: a proposta defendida por Feliciano (PL 478/07), defende que o estuprador tenha direitos de pai!!!! Defende que um filho, fruto de um estupro, deva carregar pelo resto da vida o nome do agressor em seus documentos! Feliciano defende que um óvulo fecundado tem mais direitos civis do que uma mulher!

Para ele, a mulher é só um receptáculo, um buraco fadado a servir aos desejos sexuais dos homens e a reproduzir seus descendentes.

Ficha corrida

Não é de hoje que Feliciano demonstra sua total falta de humanidade e respeito. Ele constantemente ataca aos homossexuais, aos negros, às mulheres e a qualquer coisa que não seja seu próprio umbigo.

Para tal criatura, o negro é amaldiçoado, o sentimento entre pessoas do mesmo sexo é “podre” (SIC) e leva ao ódio e ao crime, a luta das mulheres por seus direitos destrói a família vai extinguir a humanidade.

Os absurdos da insanidade desse cara não conhecem limites.

Mais do que isso: a canalha conservadora brasileira saiu um defesa de seu novo pupilo. O colunista da Veja, Reinaldo Azevedo, publicou em sua coluna uma nota em defesa do pastor 8. Atitude coerente, afinal, de outro conservador, defensor do obscurantismo medieval e do preconceito racial e de gênero. Outros declararam sua concordância com o preconceito, a misoginia e a defesa do estupro: Jair Bolsonaro, Marina Silva e Mara Maravilha!

E ainda tem gente defendendo Feliciano ou Marina Silva pra presidente da república… Ninguém merece.

Para saber mais


Notas

  1. Violência contra as mulheres: a situação
  2. Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres
  3. Dilma sanciona lei sobre atendimento a vítimas de violência sexual
  4. Citado em: A cada quatro horas uma criança é abusada sexualmente no Brasil
  5. “E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos” – Marcos 5:9
  6. Marco Feliciano diz que direitos das mulheres atingem a família
  7. Feliciano quer votar ‘bolsa estupro’ na Comissão de Direitos Humanos
  8. Colunista da Veja defende Marco Feliciano: ‘Ele é negro, não pode ser racista’
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