Ontopsicologia: a pseudociência unindo o charlatanismo ao capitalismo selvagem

Em 2003 foi produzido o livro Método Científico & Fronteiras do Conhecimento, um trabalho conjunto do físico Ronaldo Mota, do geneticista Renato Z. Flores e dos biólogos Lenira Sepel e Élgion Loreto, todos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O livro é dividido em duas partes. A primeira apresenta uma abordagem histórica do método científico, analisando desde as primeiras contribuições dos gregos, passando pelas bases do método científico no Renascimento, o seu amadurecimento (a partir da obra de Newton) até os filósofos da ciência contemporâneos, como Popper, Kuhn e Feyerabend.

A segunda parte utiliza temas contemporâneos para abordar as fronteiras do conhecimento. Para isso, analisa as pseudociências e apresenta conceitos e descobertas recentes nas áreas da genética, evolução e neourociências.

O texto a seguir é o capítulo 5 do livro, escrito pelo geneticista Renato Zamora Flores e é uma importante fonte de informação no debate sobre a fonteira entre o que é e o que não é ciência.


Ontopsicologia:
Um Estudo de Caso Sobre Pseudociência

Renato Zamora Flores

“Ciência não produz conhecimentos mágicos.”
ANA M. B. BOCK, 2002
Presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Comentário, em uma entrevista sobre a Ontopsicologia.

O que é uma pseudociência?

Pseudociência é um conjunto de idéias baseadas em teorias que se apresentam como científicas quando não o são. O termo pode ser usado para aqueles assuntos que, indiscutivelmente, não utilizam métodos de investigação experimental rigorosos, carecem de um substrato conceitual suficientemente coerente para ser testado quanto a falseabilidade e que costumam apregoar resultados importantes, mas por meio de métodos e testes questionáveis, e que não conseguem ser reproduzidos por analistas imparciais (KURTZ, 1978).

Certas teorias pseudocientíficas são baseadas na autoridade de um texto, e não em observações ou investigações experimentais, como o criacionismo. Podem apoiar-se em lenda e relatos míticos como o caso de Erich von Däniken, no conhecido livro “Eram os Deuses Astronautas?”. Algumas outras teorias pseudocientíficas explicam o que os descrentes, sequer, podem observar, como a energia orgânica. Outras, não podem ser testadas por serem tão vagas e maleáveis que qualquer aspecto relevante pode ser forçado a se encaixar na teoria como ocorre com a iridologia, o estudo da íris com o objetivo de diagnosticar doenças. Ainda existem aquelas que foram testadas experimentalmente e acabaram refutadas. Para continuar existindo, utilizam-se de numerosas hipóteses ad hoc para sustentá-las, como ocorreu com os biorritmos, na década de 1970, e com a percepção extra-sensorial, até os dias de hoje.

As mais conhecidas apoiam-se, principalmente, no uso seletivo de relatos que lhes são convenientes e na capacidade de confundir o raciocínio, mesclando alegações mágicas ou fantásticas com informações científicas conhecidas, como ocorre com a homeopatia (CARROLL, 2002).

A partir da década de 1970, podemos assistir ao nascer e impetuoso desenvolvimento, em vários países, como Itália, Rússia e Brasil, de uma nova forma de pseudociência, denominada Ontopsicologia.

Ela foi fundada por um biblioteçário italiano, nascido em 1936, ex-religioso franciscano, Antonio Meneghetti, de quem se afirma haver obtido, antes dos 33 anos, diplomas de PhD em teologia, ciências sociais e filosofia (MILIACCA & CIOCCARI, 1998, p.15).

O objetivo deste capítulo é examinar a cientificidade do discurso ontopsicológico e verificar a qualidade de sua produção científica. Considerando-se a pouca quantidade de análises deste tipo, na literatura técnica, é uma boa oportunidade para identificar-se as técnicas utilizadas para tentar validar, cientificamente, as proposições de uma pseudociência.

O que é a Ontopsicologia?

A ontopsicologia pretende ser a ciência que estuda a atividade psíquica nos seus comportamentos globais específicos (MENEGHETTI, 1997). O mesmo autor apela para uma tautologia ao tentar explicar melhor: “É o estudo do ser na psique humana. E a psicologia do ser no homem”. O “ser” é definido por ele como uma mescla de aspectos divinos – “ser transcendente ou ser como Deus” – e aspectos individuais – “ser como participação de mim” (MENEGHETTI, 1996, pág 22). Exceto pelo viés religioso, conclui-se que é o estudo da influência do indivíduo sobre ele mesmo.

Os seguidores de Meneghetti apresentam uma visão gongórica de sua área do conhecimento. Por exemplo, para ESPER (2001), a ontopsicologia, “a última nascida entre as ciências”, é “uma ciência que tem a capacidade de resolver a crise das ciências contemporâneas”. Já MILIACCA & CIOCCARI (1998) definem como “a contribuição interna á ciência da psicologia para exercitar uma função de exatidão”, ou seja, uma “psicologia epistêmica”.

Não é só isso. Para a Associação Brasileira de Ontopsicologia – A.B.O. (2002), trata-se de “um movimento de pensamento racional-humanístico que compreende todas as análises que se motivam sempre da intencionalidade ontológica: identificar, isolar, realizar o princípio que motiva o humano, em afirmação histórica e metafísica”. A Ontopsicologia estuda “a atividade psíquica, racionalmente constatada, seja enquanto fundamento de qualquer fenomenologia existencial, mundana, bem como intrínseca finalidade metafísica”.

A linguagem dos textos ontopsicológicos parece ser deliberadamente obscura, com termos que soam conhecidos, mas que são utilizados de maneira incomum ou mesmo ininteligível. Um exemplo desta técnica: “O Eu encontrava-se oposto ao não-Eu quando não é capaz de ser transparente transcendência da própria projeção de asseidade histórica”. Ou ainda:

“A reflexão do Eu colhe a intuição do Em Si ôntico: o núcleo que intercepta o real á medida e proporção do operador. Mas para esta compreensão, é necessário autenticar-se de três incidências que alteram a lógica-base da natureza racional” (MENEGHETTI, 1997).

Esta técnica literária visa dar a impressão, ao leitor desavisado, de que ele precisa de uma exegese (uma explicação fundamental para dar sentido á interpretação de textos religiosos) para passar por uma experiência semelhante a uma revelação, a fim de compreender o conteúdo. Ela é apresentada, por SOKAL & BRICMONT (1999), como uma das técnicas utilizadas para esconder-se um discurso banal e vazio, envolvendo-o, propositadamente, com um discurso de difícil entendimento. Textos de difícil entendimento podem não ser conseqüência da profundidade do tema. Podem ser, apenas, mal escritos.

Assim, para poder apresentar-se como ciência, houve a necessidade, de redefini-la para o público leigo, de modo muito amplo. Ciência passou a ser – para a Ontopsicologia – “o conhecimento que vai junto com as coisas como são, junto com a ação da vida”, ciência “é somente quando o que sei, sou; o que sou, faço; aquilo que sou, sei” (ESPER, 2001). Para MENEGHETTI (199ó), “fazer ciência significa escolher um espaço operativo e compreender a causa que variar a descrição da funcionalidade humana”.

Os textos de entidades ontopsicológicas também são muito enfáticos ao afirmar o caráter científico da Ontopsicologia, que “nasce no âmbito da psicologia científica e humanista e é uma ciência e uma escola de pesquisa analítica aplicada sobre todas as modalidades dos processos psíquicos conscientes e inconscientes” (A.B.O., 2002).

Entretanto, as evidências empíricas de que se trata de uma ciência estão ausentes. No final de 2002, não foi possível encontrar-se nenhum artigo científico com resultados de pesquisas empíricas, utilizado-se o termo “Ontopsicologia”, quer em português, inglês, russo ou italiano, nos mais importantes bancos de dados de literatura científica: SCIELO, LILACS, PUBMED/MEDLINE, PSYCINFO e WEB OF SCIENCE.

Não é muito fácil obter-se informações sobre esta pretensa ciência. A principai dificuldade é que grande parte da bibliografia é de autoria do próprio Meneghetti, autor de cerca de 30 livros, e publicada exclusivamente em editoras de associações ontopsicológicas. Meneghetti, aparentemente, nunca publicou um único artigo em uma revista científica independente.

Além disso, não há quaisquer artigos de ontopsicólogos em revistas que se utilizem do sistema de “peer review”.

A questão das referências bibliográficas também é problemática nos textos ontopsicológicos. Em seus dois livros mais divulgados dos em língua portuguesa, MENEGHETTI (199ó e 2001) lista, na bibliografia, mais de 170 artigos e textos, todos seus, e nenhuma referência a outros autores, sem incluir um único resultado de pesquisa, conduta absolutamente incompatível com um texto científico.

Outra característica marcante desta área do conhecimento è a capacidade de fazer, em tons peremptórios, afirmativas de difícil comprovação. A seguir estão três exemplos de afirmativas possíveis de serem demonstradas com evidências empíricas, mas que os autores, nos textos citados ou em suas referências bibliográficas, não apresentam quaisquer indícios de dados ou provas: “É um fato da história que o avanço das sociedades é sempre obra de líderançãs individuais” (BUONANNO e cols., 2001).

“Para se ter certeza do tamanho do erro que é se prestar a atacar empresários, basta analisar os resultados da chamada ‘operação mãos limpas’ na Itália. Alguns poucos, muito poucos, acabaram sendo acusados, mas milhares perderam seus empregos, pois a maneira como foi feita desestimulou a ação de quem proporciona progresso” (FOCKINK,1998).

“Ainda hoje, toda a produção cinematográfica de qualquer parte do mundo, não exprime outra coisa senão a esquizofrenia. Os maiores filmes são escritos por psiquiatras que extraem os personagens dos doentes mentais que hospedam nos seus manicômios” (MENEGHETTI, 2001).

Esta forma de organizar o discurso, encontrada na Ontopsicologia, produz críticas severas da comunidade cientíifica como esta, do Conselho Regionai de Psicologia do Rio Gran do Sul: “Através de conceitos obscuros como o ‘em si ôntico’… o Doutor Meneghetti esforça-se em travestir de ciência argumentos mais próprios de uma ficção de gosto duvidoso” (CRUZ, 1998).

Além disso, textos ontopsicológicos aceitam, como verdades, informações sem qualquer credibilidade científica. VIDOR (1996) informa que “as pulsações e ritmos [de um embrião humano] são anteriores a existência dos órgãos do coração e pulmões… verificou-se que o movimento é anterior à constituição física ou que a atividade orgânica é precedida pela dinâmica energética pré-constituída”.

Um outro exemplo pode ser encontrado em FOCKINK (1998), ao analisar empresas familiares:

“Com os instrumentos e conhecimentos hoje disponíveis  não só na biologia, mas no comportamento institucional e pessoal, a partir de algumas ‘mexidas’ no código genético e eliminação de ‘bugs’ ou ‘vírus’ presentes na programação, no software adquirido na ‘infância’ da empresa, existe uma segura evolução”.

Recentemente, MENEGHETTI (2006) passou a utilizar-se do conceito de meme em seus textos. Entretanto, ou o alterou propositadamente ou o entendeu de maneira equivocada: “os primeiros memes são palavras. Uma palavra é uma imitação da ação”. Tal afirmativa está incorreta.

Um meme – uma inovadora percepção de que ideias se espalham e evoluem por algoritmos semelhantes aos que regem o comportamento dos genes – é qualquer coisa que se possa aprender por imitação. Uma criança aprende comportamentos antes de aprender palavras, da mesma forma que animais transmitir memes sem utilizar-se da fala (FLORES, 2003). A afirmativas de que “o gene é um portador do meme, pelo qual o meme seria a parte mais dinâmica do gene” (MENEGHETTI, 2001a) carece de sentido. Já esta, “nós somos uns depósitos portadores e transmissores de genes” (MENEGHETTI, 2001a), é um truísmo.

A ontopsicologia tem diversas ramificações por áreas variadas do conhecimento, como a melonística e a ontoarte.

A ontoarte “é compreendida como o formalizado apriórico do acontecimento de nosso existir”. Não se trata de uma técnica ou estilo. É um movimento de pensamento que cobre todas as artes e tem o objetivo de “proporcionar o sentido interno do prazer estético”. Para se praticar a ontoarte é necessária a sanidade biológica. Este requisito é importante para diferenciá-la de arte esquizofrênica que é aquela “produzida por uma precisa situação complexual” (I.O.A., 2002).

Acredita-se, na Ontopsicologia, que a arte é um grande perigo para a mente, quando é negativa. Assim, Ontoarte é uma tentativa de arte positiva, na qual acontece a recuperação metafísica do indivíduo (WERLE, 1998). Conforme se percebe nas ilustrações dos livros de Ontopsicologia, a ênfase é em formas abstratas e seu principai artista é o próprio Meneghetti.

A melonística, uma marca registrada (®), é a musicoterapia ontopsicológica, objetivando “exercitar. a musicalidade com a finalidade curativa que, sobretudo, seja autogenética da funcionalidade organísmica e da eficiência estética e criativa do sujeito” (MILIACCA & CIOCCARI, 1998). Apesar de possuir seis escolas na Itália, não foi possível identificar qualquer produção científica em revistas indexadas.

Religiosidade

A formação religiosa de Meneguetti influenciou sua criação pseudocientífica a ponto do jomal italiano La Repubblica, em 1998, colocar a Ontopsicologia dentre as psico-seitas atuam na Itália, ao lado da Cientologia e da Ananda Marga (LA REPUBBLICA, 2002). A orientação doutrinária católica da Ontopsicologia é uma reciclagem da escolastica (escola filosófica católica que esteve no auge durante a idade média). Segundo SANTIBAÑEZ-HIDALGO (2000), o objetivo mais amplo seria tentar obter um melhor controle das mudançãs culturais, por meio do manejo psicológico em larga escala social, como já ocorreu em outras épocas da história Igreja Católica.

A análise da história e dos fundamentos deste movimento pode nos mostrar uma nova face de grupos místicos dogmáticos: a utilização sistemática de jargões técnicos – da psicologia e da física, neste caso – para a reconstrução de um discurso religioso baseado, no presente exemplo, da teologia cristã. SANTIBAÑEZ-HIDALGO (2000) tem uma interpretação semelhante, quando afirma que a Ontopsicologia altera o significado de conceitos básicos da psicologia e da psicanálise, substituindo-os por expressões equivalentes da escolástica.

Na teoria ontopsicológica, um conceito central é o do campo semântico. MENEGHETTI (1997) o define como “a leitura das relações que a vida e a natureza deste planeta usa na gestão das suas próprias individuações” ou como “o critério base que a natureza usa para projetar nascimento, existência e evolução de um ser humano no contexto sociológico”. Para entender o conceito é “suficiente suspender a fixidez lógica do pensamento e deter-se em si mesmo”, mas uma metáfora ajuda: “Quando mando uma carta, existe um endereço e com base no endereço, a carta chega num local preciso. O campo semântico é o navio, o papel, o mar, o avião, isto é, todos os meios que servem para chegar ali” (MENEGHETTI, 199ó, p. 63). Assim, deve constituir-se em algo físico, já que motivou, segundo o currículo do autor, diversos prêmios nesta ciência. Trata-se do fenômeno católico, descrito no evangelho de S. João – O verbo era Deus… O verbo se fez carne – reapresentado por meio de conceitos científicos.

Meneghetti considera esta a grande descoberta da Ontopsicologia, que lhe permite uma visão superior e mais eficiente, quando comparada ás demais ciências da mente.
Entretanto, é algo denominado “Em Si ôntico” que é mais indecifrável para os não iniciados. Conforme a A.B.O. (2002), ele seria “o critério da sanidade existencial” e, por meio dele, “é possível prever o comportamento da vida no interior do ser humano”. O “Em Si ôntico”, também conhecido como “150 da natureza”, é “o critério operativo e certificante garantindo a exatidão do conhecimento nos planos biológico, psicológico e racional”.

O conceito não parece estar acessível para um não ontopsicólogo, já que pode ser percebido por métodos não racionais, como a intuição e a utilização de outras dimensões físicas: “a intuição do Em Si ôntico é a projeção especular da arquitetura do orgânico histórico-real. Basta ter um eu operativo na Quarta Dimensão, a intuição é práxis normativa” (MENEGHETTI, 1997).

O que só fica claro depois de uma exegese, é que o “Em Si ôntico” e apenas um termo sofisticado para alma ou espírito. Conforme CARMEN-MANRIQUE (2001), esta entidade é “o elemento estranho do enfoque ontopsicológico na linguagem científica experimental”. Assim, cria-se uma categoria nova de doenças para aqueles que são sadios de corpo e de mente, as neuroses ontopsíquicas, que pode incluir qualquer forma de insatisfação com a vida. São doenças do espírito, tratáveis, então, por métodos religiosos, mais uma vez camuflados de ciência e com os mesmos objetivos de muitas religiões que é o de produzir mais e mais adeptos, muitas vezes sem qualquer consideração quanto aos custos pessoais.

Em um livro para adolescentes, MENEGHETTI (1997a) explica, em linguagem mais simples: “O Em Si ôntico parece ser a alma invisível do sujeito, isto é, uma forma de inteligência que está em qualquer lugar, toda presente no real psicossomático do indivíduo”.

Podemos concluir que há uma ampla influência religiosa na maneira de pensar dos adeptos da ontopsicologia que tem pretensões científicas.

Quem é Meneghetti?

Em muitas áreas do conhecimento, a vida do indivíduo que a sistematizou influenciou a teoria ou modelo que desenvolveu. Isto ocorreu com Charles Darwin e a teoria da seleção natural, com Viktor Frankl e a logoterapia e Sigmund Freud, na psicanálise. É interessante, por isso, examinar a história de vida dos sistematizadores de teorias.
Antonio Meneghetti é apresentado, além de seu extenso currículo acadêmico, como desenhista de moda, concertista, pintor, decorador e fotógrafo, entre outras competências. En-tretanto, o que primeiro aparece, em sua história, são algumas incongruências. Meneguetti teria obtido um diploma de PhD, em Filosofia, três anos antes de sua graduação nesta área, que foi obtida em 1972. Não possui qualquer diploma de graduação formal em áreas de ciências da mente ou da saúde. Mesmo que não seja um impedimento para opinar sobre o tema, sugere uma ausência de treinamento formal no assunto.

Ainda assim, seu currículo relata que ensinava psicologia e sicoterapia em uma universidade italiana, na década de 1970 e que sua ciência nasceu da “evidência interna da prática clínica” (MILIACCA & CIOCCARI, 1998) da qual não foi possível obter nenhuma produção científica que comprovasse declarações de alto impacto, feitas pela A.B.O. (2002), que afirma que a Ontopsicologia se diferencia da psicologia tradicional no que diz respeito à cura, pois resolve dramaticamente, em poucas entrevistas, num período inferior a três meses. Afirma também que as descobertas de Meneghetti explicam processos inerentes ao câncer e à esquizofrenia. Novamente, não foi possível identificar qualquer evidência empírica para estas afirmações.

No portal da Intemational Ontopsychology Association -I.O.A. (2002), somos informados de que Meneghetti teria exposto no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 199ó (Meneghetti’s personal exhibitions). Um exame do material de divulgação do evento mostrou uma exposição em uma galeria particular. Meneghetti apenas alugou salas no MASP para um seminário. Parece ser um fenômeno freqüente, na Ontopsicologia, um certo exagero nas informações, sejam elas científicas, sobre titulação ou mesmo sobre atividades artísticas.

DALBOSCO (1998) afirma que o “cientista-acadêmico” – termo como os discípulos se referem a Meneghetti – recebeu, em 1994, o título de Dr. Honoris Causa, em Física, pela descoberta de algo denominado “campo semântico”, que teria sido conferido por uma Universidade Pro Deo, de Nova York – USA, instituição cuja existência não foi possível comprovar. Outra referência informa que a comenda te ria sido ofertada pela Universidade de Nova York (EDITORIAL, 1994), o que também não ocorreu. A contracapa de um dos seus livros (MENEGHETTI, 1999), informa que recebeu um PhD em Ciências Médicas, do qual não foi possível, mais uma vez, obter confirmação.

Existem muitas informaçóes sobre os problemas de Meneghetti com a justiça italiana. Em 1993 foi condenado por homicidio culposo de uma discípula, Marina Furlan (confirmada em 18 de janeiro de 199ó, pela corte de Apelação de Cagliari, Itália). Documentos obtidos junto ao poder judiciário da Itália (SICA, 1999) listam diversas denúncias contra Meneghetti, incluindo furtos, falsificações e exercício ilegal de Medicina. Não é um currículo ortodoxo.

Ontopsicologia empresarial

No infcio da década de 80, Meneghetti, que também é um bem sucedido empresário, vislumbrou um novo caminho em seu futuro, abandonou seu interesse por aquilo que denominava “psicoterapia da cura” e migrou para a psicologia empresarial. Desejava estudar o fenômeno do empresário que enriqueceu, pois este possui “a energia primária da vida”, a inteligência e seus sinônimos, “o momento providencial do espírito humano”, o ideal da consciência humana, denominado o líder.

Na visão empresarial da ontopsicologia, o lucro nos negócios e o progresso da humanidade são sinônimos. Para obtê-los, tanto um como o outro, é necessário transcender diversos aspectos comezinhos da existência humana. Dentre estes: amor, família, filhos e o modo como os tratamos, necessidade de amigos, convicções políticas e, ainda, a ética e a moralidade.

Todos são tratados como estereótipos, um hábito mental comum a toda a sociedade. Para MENEGHETTI (2001), um homem de negócios que almeja o sucesso deve possuir uma inteligência econômica que transcende aos estereótipos comuns à maioria dos indivíduos. Salienta que dois deles, mais perigosos, tendem a paralisar o líder em seu progresso: filhos e parceiros sexuais, maridos ou esposas, que não devem ser humilhados, ofendidos ou agredidos; devem ser transcendidos, o que na prática significa abandoná-los em favor da convivência com seus iguais, outros líderes de formação ontopsicológica. Para um líder em posição superior, esta separação deve ser extrema e total.

Quando um especialista em ontopsicologia prega o bem comum, ele, certamente, vem depois, bem depois, do lucro pessoal. Conforme MENEGHETTI (1999):

“o dinheiro é uma lógica completamente diversa do nosso sentimentalismo, dos nossos estereótipos sociais, dos nossos instintos. Um líder deve estar livre de tudo ao seu redor. Ele deve ser um falso adaptado. Deve ser diplomático, alguém que se relaciona com aqueles valores, mas, no íntimo de si, deve estar fora deles”

Este tipo de orientação levou, no Brasil e na Itália, à acusação de que se trata de uma seita que propugna a separação dos convertidos de suas famílias.

Uma vívida descrição deste raciocínio tendencioso, parco de sentimentos, é apresentada pelo cientista-acadêmico, ao explicar a referida transcendência:

“Tomemos o exemplo da venda de armas. Quem fabrica armas e quem as vende não se sente responsável pelas guerras e pelos assassinatos que acontecem no mundo. Na sua ótica, o responsável não é quem as vende, mas quem as usa. Por exemplo, a intenção de quem dirige uma fábrica de facas é a de fabriçá-las para usá-las na cozinha, não para fazer armas assassinas. O responsável é quem compra a faca, depende do uso que ele faz. Portanto quem fabrica armas é ‘transcendente’ aos usos que delas farão os adquirentes. Pode-se usar a mesma lógica também no que diz respeito ao problema das drogas que de per si é só um elemento químico: o responsável é quem a usa de modo perverso. Antes de dar a culpa a quem a produz e aos comerciantes considero maior culpado quem a toma de modo habitual e distorcido. Com isso não quero justificar, mas simplesmente explicar o que é a transcendência dos estereótipos” (MENEGHETTI, 2001).

Uma consultoria ontopsicológica, para empresas, é baseada na ótica exposta acima e ocorre, usualmente, por meio de um “residence”, um treinamento em horário integral, realizado em um local isolado, com duração de alguns dias, separando-se o indivíduo de seu ambiente cotidiano, similar a um retiro religioso. E “uma verificação do próprio modelo de vida, ou seja, se além de ser sadio, este está, também, em gestão eficiente, em êxito vencedor”(A.B.O., 2001).
Em um “residence”, conforme um folheto de divulgação, se aprende “uma ética humanística segundo os correlatos metodológicos da Ontopsicologia, especialmente se operados por homens sadios que atuam na própria líderança por meio de um atento serviço ás progressivas exigências do humano e da sociedade”. Ou seja, há critérios de certo e de errado que são condicionais, melhor interpretado do ponto de vista dos empresários (A.B.O., 2001).

Neste humanismo heterodoxo, educadores de formação ontopsicológica crêem que talvez não valha a pena combater-se fenômenos sociais como o racismo, pois isto apenas iria uma falsa inferioridade de certos grupos étnicos.

Melhor seria investir em uma nova pedagogia voltada aos critérios de líderança. O empenho é tanto que a I.O.A. tem propostas concretas para educar os jovens do 3° mundo a partir de sua estranha filosofia moral. Sem os conhecimentos ontopsicológicos, um jovem candidato a líder corre o risco de perder suas potencialidades e de se misturar aos restantes seres humanos medíocres, se envolvendo com família, filhos e outros «típicos padrões cívicos e morais”. Por insistir nestes valores ultrapassados, a educação fornecida atualmente é completamente inadequada, pelos cânones ontopsicológicos (BUONANNO e cols., 2002a). Em um mundo ontopsicológico, o líder é um ditador onipotente.

“A democracia, em sentido contemporâneo, não tem muita importância. . Em ciência, em economia, em filosofia ontológica, por si mesma, a democracia não tem nenhum sentido. A democracia contemporânea é somente a violência dos números… Milhões de ignorantes, quando se unem, reforçam a ignorância com todas as suas conseqüências” (MENEGHETTI, 2001).

Neste modelo, a assistência social é um infantilismo humano, um assassinato moral e psicológico que aniquila a alma do indivíduo: “o problema do assistencialismo é sua tendência a dar privilégios a todos aqueles que são subdesenvolvidos” (MENEGHETTI, 1994). È uma visão de mundo selvagem e cruel, sem dúvida, mas que não impede MENEGHETTI (1999) de contradizer-se, ao questionar “se a sociedade se privar de inteligências superiores, quem proverá os infelizes, os incapazes?”

Mas isto ainda não é tudo. Na utopia idealizada por este movimento com pretensões científicas, nem um sistema legal se preserva. O líder não deve estar atrelado a mais este estereótipo superado: a justica pública, “um sistemismo legai que pode ser ativado por qualquer um”. Para Meneghetti, os policiais e os juízes são “pessoas frustradas nas próprias vidas e, tendo a sua frente um cidadão vencedor é impossível que sejam justos. Neles é muito forte a psicologia da revanche” (MENEGHETTI, 2001). Além disso, o já mencionado sistemismo persegue os líderes de sucesso, com diferentes desculpas, como drogas ou impostos. Mais de 70% das polícias européias e norte-americanas perdem seu tempo com isso.

MENEGHETTI (1994) adverte que os empresário devem ser cautelosos, para não serem confundidos com prepotentes ou nazistas. Podem ser “exterminados pela massa”. Não parece conveniente que idéias e conceitos, tão contundentes como os apresentados, sej am de domínio público, pois prejudicaria a imagem pública das entidades ontopsicológicas. As críticas poderiam diminuir o desenvolvimento do grupo e, por isso, em diversas oportunidades, críticos da ontopsicologia são, paradoxalmente, ameaçados de processos de calúnia e danos morais, como forma de intimidação.

Situação no Brasil

A ontopsicologia não é, apesar da denominação, uma especialidade, ramo ou divisão da psicologia. Exemplos de especialidades, ramos ou divisões, oficialmente reconhecidas, da psicologia são a psicanálise, a psicologia cognitiva e a terapia de família. Ela não é ministrada ou ensinada em qualquer curso de psicologia no Brasil. Ocasionalmente, é possível encontrar-se algum curso de especialização “latu sensu”, em universidades ou faculdades de pequena expressão, no interior do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
A ontopsicologia não é reconhecida como método ou técnica pelo Conselho Federal de Psicologia. Assim, é vedado ao psicólogo a prática desta atividade. Para termos um ponto de comparação, uma outra prática que recebe idêntico tratamento ao que é dado à ontopsicologia é a regressão a vidas passadas Apesar disso, no portal da A.B.O, encontramos que, entre os instrumentos de intervenção desta suposta ciência, estão a psicoterapia individual e a psicoterapia de grupo. A entidade oferece um curso de pós-graduação enì psicoterapia aberto a médicos e psicólogos, mas que não tem reconhecimento oficial.

O Conselho Regional de Psicologia do Estado de S. Paulo (CARTAS, 2000) recomenda: “.. esta prática não constitui uma técnica científica reconhecida pela psicologia. Portanto, seu uso por parte de psicólogos infringe a ética, devendo ser denunciado ao CRP SP”.

Conclusões

A Ontopsicologia preenche muitos critérios para ser considerada uma pseudociência:

  1. não gera hipóteses compatíveis com e conhecimento científico atual, apesar das pretensões de seus divulgadores;
  2. não utiliza metodologia experimental que possa ser confirmada por observadores independentes;
  3. não divulga seus métodos e resultados de maneira transparente e
  4. apresenta-se fortemente impregnada de conteúdos religiosos e ideológicos, que tendenciam a interpretação dos fenômenos que estuda.

O que mais surpreende na Ontopsicologia é o seu sucesso comparado à sua pífia contribuição real para o avanço do conhecimento científico, o que pode ser verificado pela desconsideração que recebe de outras área do conhecimento, a despeito da prolixa literatura.

O sucesso, então, parece dever-se ao carisma de seu líder e às técnicas retóricas utilizadas, que não devem intimidar, com sua terminologia esotérica e seus raciocínios obscuros, um observador atento e crítico. Ciência de boa qualidade tem objetividade e clareza no discurso.

Método Científico & Fronteiras do ConhecimentoMétodo Científico & Fronteiras do Conhecimento
Ronaldo Mota, Renato Zamora Flores, Lenira Sepel e Elgion Loreto
Capítulo 5
CESMA – Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria
2003
156 páginas
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