Métodos científicos: método dedutivo

Continuando nossa análise dos métodos científicos, hoje apresentamos o método dedutivo. Tal método faz o caminho oposto ao método indutivo.

Enquanto o método indutivo parte de casos específicos para tentar chegar a uma regra geral (o que, muitas vezes, leva a uma generalização indevida), o método dedutivo parte da compreensão da regra geral para então compreender os casos específicos. Já no início do texto, essas diferenças ficam bastante claras.


Argumentos Dedutivos e Indutivos

Dois exemplos servem para ilustrar a diferença entre argumentos dedutivos e indutivos.

Dedutivo:
Todo mamífero tem um coração.
Ora, todos os cães são mamíferos.
Logo, todos os cães têm um coração.

Indutivo:
Todos os cães que foram observados tinham um coração.
Logo, todos os cães têm um coração.

Segundo Salmon (1978:30-1), as duas características básicas que distinguem os argumentos dedutivos dos indutivos são:

Dedutivos Indutivos
I. Se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão deve ser verdadeira. I. Se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão é provavelmente verdadeira, mas não necessariamente verdadeira.
II. Toda a informação ou conteúdo fatual da conclusão já estava, pelo menos implicitamente, nas premissas. II. A conclusão encerra informação que não estava, nem implicitamente, nas premissas.

Característica I. No argumento dedutivo, para que a conclusão “todos os cães têm um coração” fosse falsa, uma das ou as duas premissas teriam de ser falsas: ou nem todos os cães são mamíferos ou nem todos os mamíferos têm um coração. Por outro lado, no argumento indutivo é possível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa: o fato de não ter, até o presente, encontrado um cão sem coração, não é garantia de que todos os cães têm um coração.

Característica II. Quando a conclusão do argumento dedutivo afirma que todos os cães têm um coração, está dizendo alguma coisa que, na verdade, já tinha sido dita nas premissas; portanto, como todo argumento dedutivo, reformula ou enuncia de modo explícito a informação já contida nas premissas. Dessa forma, se a conclusão, a rigor, não diz mais que as premissas, ela tem de ser verdadeira se as premissas o forem. Por sua vez, no argumento indutivo, a premissa refere-se apenas aos cães já observados, ao passo que a conclusão diz respeito a cães ainda não observados; portanto, a conclusão enuncia algo não contido na premissa. É por este motivo que a conclusão pode ser falsa – ois pode ser falso o conteúdo adicional que encerra – , mesmo que a premissa seja verdadeira.

Os dois tipos de argumentos têm formalidades diversas – o dedutivo tem o propósito de explicar o conteúdo das premissas; o indutivo tem o desígnio de ampliar o alcance dos conhecimentos. Analisando isso sob outro enfoque, diríamos que os argumentos dedutivos ou estão corretos ou incorretos, ou as premissas sustentam de modo completo a conclusão ou, quando a forma é logicamente incorreta, não a sustentam de forma alguma; portanto, não há graduações intermediárias. Contrariamente, os argumentos indutivos admitem diferentes graus de força, dependendo da capacidade das premissas de sustentarem a conclusão. Resumindo, os argumentos indutivos aumentam o conteúdo das premissas, com sacrifício da precisão, ao passo que os argumentos dedutivos sacrificam a ampliação do conteúdo para atingir a “certeza”.

Os exemplos inicialmente citados mostram as características e a diferença entre os argumentos dedutivos e indutivos, mas não expressam sua real importância para a ciência. Dois exemplos, também tomados de Salmon, ilustram sua aplicação significativa para o conhecimento científico.

A relação entre a evidência observacional e a generalização científica é de tipo indutivo. As várias observações destinadas a determinar a posição do planeta Marte serviram de evidência para a primeira lei de Kepler, segundo a qual a órbita de Marte é elíptica. A lei refere-se à posição do planeta, observada ou não, isto é, o movimento passado era elíptico, o futuro também o será, assim como o é quando o planeta não pode ser observado, em decorrência de condições atmosféricas adversas. A lei – conclusão – tem conteúdo muito mais amplo. do que as premissas – enunciados que descrevem as posições observadas.

Por sua vez, os argumentos matemáticos são dedutivos. Na geometria euclidiana do plano, os teoremas são todos demonstrados a partir de axiomas e postulados; apesar do conteúdo dos teoremas já estar fixado neles, esse conteúdo está longe de ser óbvio.

Argumentos Condicionais

Dentre as diferentes formas de argumentos dedutivos, que o estudante pode encontrar em manuais de lógica e filosofia, os que mais nos interessam são os argumentos condicionais válidos. Estes são dois, a chamada “afirmação do antecedente” (modus ponens) e a denominada “negação do conseqüente” (modus tollens).

O primeiro tem a seguinte forma:

Se p, então q.
Ora,p.
Então, q.

Denomina-se “afirmação do antecedente”, porque a primeira premissa é um enunciado condicional, sendo que a segunda coloca o antecedente desse mesmo condicional; a conclusão é o conseqüente da primeira premissa.

Exemplos: 

Se José tirar nota inferior a 5, será reprovado.
José tirou nota inferior a 5.
José será reprovado.

Se uma criança for frustrada em seus esforços para conseguir algo, então reagirá através da agressão.
Ora, esta criança sofreu frustração.
Então, reagirá com agressão.

Nem sempre os argumentos são colocados na forma-padrão, mas podem ser reduzidos a ela. Exemplo: Esta sociedade apresenta um sistema de castas? Apresentará se for
dividida em grupos hereditariamente especializados, hierarquicamente sobrepostos e mutuamente opostos; se se opuser, ao mesmo tempo, às misturas de sangue, às conquistas de posição e às mudanças de ofício. Como tudo isso aparece nesta sociedade, a resposta é “sim”. Ou:

Se uma sociedade for dividida em grupos hereditariamente especializados, hierarquicamente sobrepostos e mutuamente opostos; se se opuser, ao mesmo tempo, às misturas de sangue, às conquistas de posição e às mudanças de ofício, então a sociedade terá um sistema de castas.
Ora, esta sociedade apresenta tais características.
Então, é uma sociedade de castas.

O segundo tipo de argumento condicional válido tem a seguinte forma:

Se p, então q.
Ora, não-q.
Então, não-p.

A denominação de “negação do conseqüente”, para este tipo, deriva do fato de que a primeira premissa é um condicional, sendo a segunda uma negação do conseqüente desse mesmo condicional.

Exemplos:

Se a água ferver, então a temperatura alcança 100°.
A temperatura não alcançou 100°.
Então, a água não ferverá.

Se José for bem nos exames, então tinha conhecimento das matérias.
Ora José não tinha nenhum conhecimento das matérias.
Então, José não foi bem nos exames.

Salmon (1978:42) cita um exemplo tirado da peça de Shakespeare, Julius Caesar, que não apresenta a forma-padrão e omite uma premissa; contudo, torna-se fácil identificá-la:

Ele não tomaria a coroa.
Logo, é certo que ele não era ambicioso.

Ou

Se César fosse ambicioso, então teria tomado a coroa.
Ora, ele não tomou a coroa.
Então, César não era ambicioso.


SALMON, Wesley C. Lógica. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

Fundamentos da Metodologia Científica

Marina de Andrade Marconi e Eva Maria Lakatos
5ª Edição – Editora Atlas – 2003
Capítulo 4.4

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18 pensamentos sobre “Métodos científicos: método dedutivo

  1. Pingback: O método hipotético-dedutivo | Livre Pensamento

  2. que Método eu usaria nessa afirmação e como: Em grandes multinacionais, brancos ainda são maioria em cargos de chefia. Urgente!!!

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      • qual o método cientifico usaria para resolver essa questão. essa pergunta a professora fez para resolvermos, não importa qual o método a ser utilizado, não tem dados estatístico.

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          • eu posso usar o método dialético:tese que e o problema,antítese que e o inverso do problema e a síntese que e resolução desse problema mais também tem as variável.
            Sei que e assim mais não sei como formular passo a passo entende.

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            • Mesaque, o método dialético não é bem isso. Sugiro a leitura deste artigo que trata do tema. Leia este outro sobre os métodos específicos das ciências sociais.

              Atente ao fato de que você pode usar qualquer método científico para provar o seu postulado. Você pode partir da indução, partindo dos dados de uma empresa e expandindo para outras empresas. Você pode usar o método dedutivo, partindo de dados estatísticos e procurando por especificidades. Você pode usar o método hipotético-dedutivo partindo de uma hipótese para explicar seu fenômeno e buscando dados que possam tornar a tese falsa e por aí vai.

              Você também pode utilizar o método dialético, mas seu primeiro passo teria que ser o estabelecimento do processo que leva ao fenômeno.

              O ponto chave aqui é: só é científico o método que é capaz de explicar o fenômeno, testar a teoria em busca de erros e alterar a teoria se um erro for encontrado. Além disso, sua teoria deve ser capaz de ser testada por qualquer outro interessado no assunto.

              Isto posto, perceba que seu postulado carece de definições vitais. Por exemplo, o que você considera uma multinacional “grande”? O que você considera “brancos”? Em qual teoria você se baseia para a temporalidade expressa no “ainda”?

              Esse “ainda” pressupõe que no passado esse fenômeno era verdadeiro e há uma perspectiva de mudança no quadro futuro. Bom, você precisa, então, além de embasar o fenômeno presente, embasar também o fenômeno passado e explicar a tese de que no futuro isso deve mudar. Em cada um dos três, você pode usar métodos procedimentais, como o Método Estatístico ou o Método Histórico.

              Percebeu?

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            • A não ser que você esteja buscando por lógica e não por método científico.

              A lógica se preocupa com a validade do raciocínio e não com a verdade. Assim, apesar de ser uma importante ferramenta para a ciência, a lógica não é necessariamente científica.

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  3. Antedi.Vou fazer com o Método Indutivo.fica assim.Em Grandes Multinacionais Brancos Ainda são Maioria em Cargos de Chefia.Logo a maioria dos Brancos São Chefes.
    entendeu o raciocino.

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    • Nossa, isso não é método indutivo e sua lógica está errada.

      Você pressupõe, nessa lógica, que a maioria dos cargos no mundo são chefes de grandes multinacionais, o que não está escrito em lugar nenhum.

      Atente também ao fato de que você está usando de lógica, mas não está usando nenhum método científico.

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    • Além disso, se você pretende usar um silogismo, precisa de três termos. Você usa apenas uma premissa e uma conclusão não relacionada, o que está errado. Você precisa de uma premissa maior e de uma premissa menor para chegar a uma conclusão.

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  4. Maurício, boa tarde!
    Poderia por gentileza me dar um exemplo de pesquisa científica de sua área acadêmica desenvolvida através do método indutivo ou um exemplo através do método dedutivo?

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