A ciência precisa combater a pseudociência: uma declaração de 32 cientistas e filósofos russos

Representantes de várias ciências e disciplinas – astrônomos, fisicistas, químicos, biólogos, filósofos, advogados, psicólogos – estão preocupados com o crescimento generalizado da astrologia, medicina alternativa, quiromancia, numerologia e pseudociências místicas na Russia e outros países do mundo. Nós queremos chamar a atenção do público para a ameaça  de uma atitude acrítica frente às profecias e conselhos dos modernos “praticantes da ciências ocultas”, oferecidas tanto privativamente quanto nos meios de comunicação de massa. Aqueles que acreditam na dependência da fé humana nos corpos celestes, substâncias mágicas ou bruxaria precisam entender que a ciência não pode dar suporte a essas crenças de forma alguma.

Em tempos passados, as pessoas acreditavam e usaram astrologia, alquimia, misticismo cabalístico e medicina alternativa popular. Essas ideias eram uma parte substancial na visão mitológica e mágica do mundo, oferecendo uma ideologia pré-científica e propósitos cognitivos, para uma ciência que dava seus primeiros passos. As pessoas acreditavam que os corpos celestes eram as manifestações das forças dos deuses que podiam magicamente influenciar objetos terrenos. Processos físicos  pareciam ser produto de enigmáticas “propriedades ocultas” e elementos químicos pareciam ser produtos da magia. As pessoas não tinham compreensão da natureza das interações químicas e físicas. Hoje, quando a ciência compreende as causas principais pelas quais os corpos celestes influenciam fenômenos na Terra, não há qualquer base científica para afirmar que essas interações ocultas podem influenciar o destino dos humanos.

As estruturas psicofisiológicas das pessoas não são determinadas pela posição das estrelas e planetas no momento e local do nascimento, mas pela código genético herdado e por fatores socioculturais. A astrologia interpreta misticamente que as variações do campo geomagnético e a atividade solar tem um efeito no bem-estar humano. As labaredas solares e tempestades magnéticas realmente tem um efeito sobre a psiquê humana e sobre o comportamento humano, mas a astrologia e a medicina charlatã não fornecem uma compreensão desses fenômenos.

Organismos vivos manifestam uma débil radiação eletromagnética, mas não há qualquer evidência científica conhecida para reivindicar a existência de “biocampos” ou “energia psíquica”. O calendário astrológico não corresponde à realidade física atual, mas apenas fornece uma descrição metafórica arcaica dos eventos astronômicos. Crenças supersticiosas e aceitação acrítica de coincidências como causas mina nossa confiança na capacidade do ser humano de encarar realisticamente os eventos da vida. Astrólogos, parapsicólogos e clarividentes sustentam afirmações não comprovadas baseadas em pseudociências; eles organizam estruturas acadêmicas e permitem diplomas.

Várias pessoas acreditam em clarividência, astrologia e outras superstições para compensar os desconfortos psicológicos do nosso tempo. Outras procuram os conselhos de uma autoridade externa para tomar decisões significativas. Problemas pessoais e sociais, com os quais não se pode lidar, conduzem a bruxas, xamãs e terapeutas charlatões. A crença em forças astrais oferece uma oportunidade para fugir da responsabilidade pelas escolhas e desobriga as pessoas da aceitação de seus próprios erros.

Em um tempo de difusão da educação científica e grandes avanços na ciência, já não podemos supor que as superstições vão desaparecer por sua própria conta. Ao contrário, a sociedade está agora inundada pelas “ciências ocultas”. Os propagadores de pseudociências e “conhecimento enigmático” tentam assumir o manto, os termos e os métodos da ciência genuína. A astrologia, por exemplo, tenta influenciar decisões políticas e econômicas, desavergonhadamente se intromete na vida pessoal das pessoas. Muito disso é encorajado pelos meios de comunicação de massa, jogando e explorando a falibilidade humana.

Pseudociências místicas são um mal internacional que tem acometido vários países do mundo. Isto provocou uma declaração pública em 1975 criticando a astrologia por 186 cientistas de ponta (incluindo dezoito ganhadores do Prêmio Nobel) que foi amplamente aclamada em todo o mundo.

Hoje é o tempo para a comunidade de cientistas da Rússia confrontar esses problemas com todo a sua energia.

Uma das inquestionáveis grandes realizações dos anos recentes é a oportunidade do povo expressar sua opinião abertamente. Infelizmente, várias pessoas são ludibriadas pelo poder persuasivo de superstições absurdas e perigosas. Eles não podem ser enganados pela seu adorno pseudocientífico. Nenhuma tentativa de tornar o pensamento mágico cientificamente respeitável pode eventualmente esconder sua completa incompatibilidade com a ciência.

Assinado por:

Vice-presidentes e membros do Conselho das Academias de Ciência da Russia (ACR)
  • V. Kudryavtsev (vice presidente, ACR)
  • O. Nefedov (vice presidente, ACR)
  • R. Petrov (vice presidente, ACR)
  • B. Topornin (secretário, Departamento de Filosofia, Sociologia, Psicologia e Leis, ACR)
Diretores de institutos de pesquisa
  • A. Boyarchuk, Instituto de Astronomia, membro da ACR
  • A. Brushlinskii, membro correspondente da ACR, Instituto de Psicologia
  • A. Cherepashchuk, membro correspondente da ACR, Instituto de Astronomia Sternberg State, Moscow State University
  • V. Skulachev, membro da ACR, Instituto de Física e Biologia Química, Moscow State University
  • V. Stepin, membro da ACR, Instituto de Filosofia
Membros da Academia de Ciências da Russia
  • I. Atabekov (biologia)
  • A. Bogdanov (biologia)
  • G. Dobrovolskii (biologia)
  • E. Feinberg (física)
  • V. Ginzburg (física)
  • D. Gvishiani (estudos de sistemas)
  • N. Kardashev (astronomia espacial)
  • V. Laptev (dreito)
  • T. Oizerman (filosofia)
  • M. Ostrovskii (biologia)
Membros correspondentes da Academia de Ciência da Russia
  • N. Bikkenin (filosofia)
  • E. Chekharin (direito)
  • V. Chkhikvadze (direito)
  • A. Guseinov (filosofia)
  • N. Lapin (filosofia)
  • V. Lektorskii (filosofia)
  • L. Mitrokhin (filosofia)
  • V. Nersesyantz (direito)
Doutores em ciência:
  • Yu. Efremov (astronomia)
  • I. Kasavin (filosofia)
  • A. Ogurtsov (filosofia)
  • B. Pruzhinin (filosofia)
  • M. Rozov (filosofia)
Esta declaração foi publicada no Izvestiya e, 17 de julho de 1998 e republicada na edição de janeiro/fevereiro de 1999 da Skeptical Inquirer.
Fonte: Quackwatch
Tradução: Maurício Sauerbronn de Moura
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