Palestina: não há outra saída além da saída democrática

No momento em que os trabalhadores e os povos do mundo todo sofrem o impacto da guerra de extermínio desencadeada por Israel contra o povo palestino, em particular na Faixa de Gaza… No momento em que os direitos do povo palestino são pisoteados, todos se interrogam: há uma saída?

Há 66 anos, o grupo trotsquista palestino declarava, a propósito do Estado de Israel, em janeiro de 1948:

“Este Estado não tem qualquer futuro histórico. Sujeito a crises e convulsões permanentes – a guerra civil em permanência só pode ser evitada pelo extermínio completo de todos os povoados árabes em seu território –, ele afundará em uma pavorosa carnificina até a próxima etapa da revolução árabe, se o proletariado judeu não se separar a tempo do chauvinismo sionista. A tarefa dos revolucionários judeus em Israel é a de preparar esta ruptura. Sua linha política deve permanecer inabalavelmente a da luta contra a partição da Palestina, pela reintegração do território de Israel em uma Palestina unida, no quadro de uma Federação dos Estados Árabes do Oriente Médio, que garanta à minoria judaica todos os direitos de autonomia cultural nacional.”

Para os militantes da 4ª Internacional, só a revolução proletária permite, ao abater o imperialismo, resolver até o fim as questões nacionais que a história deixou sem solução, incluindo as aspirações das populações judias imigradas para a Palestina, que, para os trotsquistas, em nenhum caso podem se opor à aspiração das massas árabes à soberania.
A partição da Palestina em 1946 pelos imperialismos vencedores da 2ª Guerra Mundial, apoiados pela burocracia stalinista, validada pela ONU em 1947 e a fundação de um pretenso “Estado judeu” no próprio coração do Oriente Médio só poderiam arrastar os povos da região a guerras e destruições, a começar pelo povo árabe da Palestina.

A posição da 4ª Internacional, desde 1948, é inequívoca:

“Abaixo a partição da Palestina! Por uma Palestina árabe unida e independente, com plenos direitos de minoria nacional à comunidade judaica. Abaixo a intervenção imperialista na Palestina! Fora da região todas as tropas estrangeiras, os “mediadores” e “observadores” da ONU! Pelo direito das massas árabes a disporem de si próprias. Pela eleição de uma Assembleia Constituinte com base no sufrágio universal e secreto! Pela revolução agrária! Abaixo a Liga Árabe, instrumento do imperialismo! Abaixo os reis corruptos e os exploradores feudais! Viva a revolução socialista árabe no Oriente Médio!”

“Não há outra saída além da saída democrática”

Passaram-se 70 anos. Nesse tempo, muitos dos dirigentes do movimento operário internacional, dos partidos “comunistas” à Internacional “socialista”, explicaram aos trabalhadores e jovens do mundo todo que essas palavras de ordem não eram “realistas”, que a única solução “realista” seria uma solução com “dois Estados” na Palestina.

A esta objeção, o camarada Pierre Lambert, dirigente da 4ª Internacional, respondeu em um ato público convocado em junho de 1982 pelo PCI (seção francesa da 4ª Internacional), às vésperas dos massacres de Sabra e Chatila. Acusando Begin-Sharon, ele declarava então:

“Os realistas, todos os que nos dizem que nossa posição e nosso combate são utópicos, levam aonde os povos? Para onde levam hoje essa região do mundo na qual se desencadeiam o fogo, o massacre, a destruição? Não, não há outra saída além da saída democrática, que é a única que pode levar a paz a essa região passa pela desaparição do Estado de Israel, passa pela Constituinte palestina edificando então a nação palestina com suas duas componentes. Todos os planos, todas as soluções que não partam desta perspectiva democrática não representam outra realidade que a dos repetidos massacres. Houve a guerra de 1948, houve a guerra de 1956, houve a guerra de 1967, houve o “Setembro Negro” de 1971 – este Setembro Negro que viu o rei da Jordânia utilizar as forças que o imperialismo dos Estados Unidos lhe forneceu para esmagar, ou tentar esmagar, os palestinos. Houve a guerra em 1973, houve Tall-el-Zattar em 1976. A manutenção do Estado de Israel só pode conduzir à guerra.”

Nunca o Estado colono, o Estado segregacionista e teocrático esteve tão frágil!

Como se coloca hoje essa questão depois de um mês e meio do pior massacre organizado contra a população palestina da Faixa de Gaza em continuidade à limpeza étnica começada em 1948? Certamente, as forças militares do Estado de Israel ostentam uma superioridade esmagadora… Entretanto, a verdade obriga a dizer que nunca o Estado colono, o Estado segregacionista e teocrático esteve tão frágil!

Despejando como nunca o ferro e o fogo contra a população civil da Faixa de Gaza, massacrando indistintamente mulheres, idosos e crianças ele uniu o povo da Palestina: da Faixa de Gaza aos territórios de 1948 (Estado de Israel) passando pela Cisjordânia e pelos campos de refugiados espalhados por todos os países da região. Ele uniu o povo da Palestina em torno da Resistência. Ele desferiu um golpe maior à pretensa “solução” dos dois Estados – e ao que subsistia dos Acordos de Oslo (1993) – fazendo da Faixa de Gaza o modelo desse segundo Estado: um gueto.

Despejando como nunca o ferro e o fogo ele disse bem alto ao mundo inteiro o que a manutenção da ordem imperialista, da qual o Estado de Israel é um executante, significa a exterminação de um povo que se recusa a se dobrar a opressão e à exploração.

Despejando como nunca o ferro e o fogo arruinou aos olhos do mundo a pretensão do Estado de Israel de encarnar a defesa dos valores democráticos – como lhe fizeram observar, com dignidade, em uma carta intitulada “Não em nosso nome!”, centenas de sobreviventes judeus de campos de concentração nazistas.

Ele colocou à luz do dia a hipocrisia dos governos imperialistas cúmplices, a começar pelos governos de Hollande (França), Cameron (Reino Unido) e Merkel (Alemanha) como sua verdadeira natureza. Ao provocar a indignação dos povos do mundo, o primeiro-ministro israelense Netanyahu obrigou Obama a, diante do mundo inteiro, fingir querer “moderá-lo”, sem deixar de arma-lo até os dentes. Freado por Obama em sua ofensiva exterminadora Netanyahu provocou a mais grave crise da história de seu Estado e de seu aparelho militar.

Todas as condições estão prestes a se reunir para uma virada maior

Todas as condições estão prestes a se reunir para uma virada maior… Para que, em um futuro próximo, se opere a junção entre setores das duas sociedades. Principalmente no interior da juventude, condenada pelo Estado de Israel a uma guerra sem fim, aos massacres e à barbárie contra o povo palestino dos dois lados do muro.
A resistência dos combatentes palestinos com sua luta heroica desferiu um golpe fatal ao mito do exército israelense invencível. Desferiu um golpe fatal ao mito do “cimento entre o exército e a nação israelense” – alimentado pela euforia das vitórias de seu exército. Com o fim dos bombardeios o povo palestino acaba de conquistar um recuo, desencadeando manifestações de alegria em toda a Palestina inclusive no interior da população judaica.

Certamente não foram mais do que algumas centenas os que desafiaram o Estado-Maior de Israel e se recusaram a servir em Gaza e alguns milhares os que se manifestaram principalmente em Telaviv. Mas, com sua posição corajosa abriram uma brecha importante.

Quanto isso, um profundo movimento se desenvolve junto a essa camada de militantes palestinos engajados no combate. Eles fizeram a experiência da traição dos chefes de Estado árabes, em primeiro lugar dos quais o chefe de Estado egípcio. Eles fizeram a experiência do pretenso “programa de paz” do Fatah, que significou seu reconhecimento do Estado de Israel e a renúncia à Carta da de princípios da Organização pela Libertação da Palestina (a OLP). Eles recusaram qualquer tentativa de renúncia ao direito de retorno para os refugiados. Eles compreendem que a “solução” dos dois Estados (inclusive do Estado islâmico do Hamas) trancá-los-ia para sempre na Faixa de Gaza, em um campo de concentração a céu aberto. Eles observam com a maior apreensão as grandes manobras improvisadas pelo imperialismo estadunidense para tentar conter o desastre que provocou no Iraque. Eles compreendem o perigo que faz pesar sobre eles a reaproximação entre o Irã e os Estados Unidos, e o que se procura entre os Estados Unidos e o sírio Bashar al-Assad.

Enraíza-se a ideia de que nenhuma saída pode ser dada ao povo palestino se estiver subordinada às manobras diplomático-militares em curso.

É nesse sentido que se pode dizer hoje que a questão do combate por uma nação palestina unida, uma república palestina laica e democrática na qual vivam com igualdade de direitos todos os seus cidadãos quaisquer que sejam sua religião ou suas origens, se prepara para surgir em um futuro próximo de modo que possa ser amplamente abraçada.

Contra a conquista de sua soberania pelo povo palestino, de toda parte e em nome do “realismo” e dos imperativos de urgência humanitária, os trabalhadores de todos os países, em particular dos países imperialistas, são chamados – inclusive por suas direções – a se associar à campanha para “colocar a Faixa de Gaza sob a proteção da ONU” e os pontos de fronteira sob o controle de inspetores da União Europeia, pisoteando a exigência palestina de “fim incondicional do bloqueio!”.

A solidariedade concreta com o povo palestino é, ao contrário, a mais ampla unidade das organizações operárias e democráticas no mundo inteiro pelo fim imediato e incondicional da agressão israelense e pela retirada imediata, total e incondicional do bloqueio à Faixa de Gaza.

Essa solidariedade se inscreve no combate para ajudar a nossa classe a abater os governos a serviço do capital financeiro e da política de guerra do imperialismo estadunidense.

Ela se inscreve no combate para reforçar a organização da vanguarda consciente da classe operária. Ela se inscreve no combate pelo reforço da 4a Internacional!

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