Os ataques “pós-modernos” à ciência e à realidade

Victor J. Stenger*

Tendências recentes em alguns círculos acadêmicos têm posto em causa noções convencionais de verdade e realidade. A reivindicação feita nesses círculos é que toda declaração, seja na ciência ou na literatura, são simples narrativas – histórias e mitos que não fazem nada mais do que articular os preconceitos culturais do narrador. Nessa visão, uma narrativa é tão boa quanto outra, uma vez que cada uma é expressa na linguagem de sua cultura particular e, portanto, contém todas as suposições sobre a verdade e a realidade incorporadas nessa cultura. Textos não tem significados intrínsecos. Em vez disso, os seus significados são criados pelo leitor. As conclusões que se tiram é que nenhuma narrativa pode ter validade universal e a ciência “ocidental” não é exceção.

Os estudantes universitários de hoje, nos Estados Unidos e outros lugares, escutam essa linha de raciocínio de vários dos seus professores de ciências sociais e humanidades. Defensores da “medicina alternativa” costumam usar argumentos similares para rejeitar a ciência como um método de determinação de verdades relacionadas à saúde.

A afirmação de que a ciência “ocidental” é corriqueira começa com uma plausível  mas enganosa noção de que nós humanos carecemos de acesso a qualquer mecanismo em que possamos conhecer a verdade sobre uma realidade objetiva que exista independente do processo de pensamento humano. Certamente, a ciência confia em processos de pensamento e não segue sempre um caminho claro e lógico para as conclusões que faz sobre a realidade. É verdade, ela nunca prova a justeza de suas conclusões. A ciência não tem nenhuma certeza sobre o mundo e deve ser conceber esses resultados em termos de probabilidades e possibilidades.  Geralmente a escolha entre teorias científicas concorrentes é baseada no gosto, moda ou noções subjetivas de simplicidade ou apelo estético.

Concordo. Cientistas nunca podem ter certeza sobre a “verdade” de suas teorias. Mesmo assim, as previsões das teorias científicas estão muitas vezes tão suficientemente perto da certeza que nós tamos apostamos nossa vida nisso, como quando nós estamos em um avião ou em uma mesa de operações. Quando previsões são confiáveis assim, nós podemos concluir racionalmente, se não provar, que os conceitos nos quais elas são baseadas tem que ter alguma validade universal. Ou seja, eles devem de alguma forma estar ligados à forma como as coisas realmente são.

Por exemplo, nós não podemos predizer com completa certeza o que vai acontecer se nós pularmos de um prédio alto. É sempre possível que nós pousemos em uma caixa de penas que, por sorte, apenas aconteceu de estar saindo pela janela do andar de baixo. Entretanto, baseado na lei da gravidade, nós podemos prever com grande probabilidade que nós vamos passar por esse piso e atingir o chão com um som mórbido. A lei da gravidade tem sido testada com experimentos suficientes para concluir seguramente que o conceito de gravidade é “real”.

A realidade  age para restringir nossas observações sobre o mundo, prevenindo pelo menos algumas dessas observações de serem completamente aleatórias, arbitrárias ou apenas o que forçamos que elas sejam. Embora muito do que nós observamos seja de fato aleatório – muito mais do que a maioria das pessoas percebe – nem tudo é.  Enquanto nós humanos podemos exercer um certo grau de controle sobre a realidade, essa realidade não é meramente a criação de nossos processos mentais. Em um sonho sobre pular de um prédio, nós podemos flutuar até o chão ilesos. Ao pensar sobre pular de um prédio, nós podemos i maginar qualquer coisa que quisermos sobre o resultado. O Super-Homem pode vir voando e nos resgatar, em nossas fantasias. Um avião com um colchão em suas asas pode aparecer bem a tempo. Mas, na realidade, nós cairemos até o chão não importa o quanto nós possamos querer o contrário.

Sem ser muito pedante sobre a definição da realidade, me deixe só dizer que nossas próprias observações todos os dias da vida tornam muito claro que nós e os objetos ao nosso redor são sujeitos a limitações impostas externamente que nem nós nem esses objetos podem controlar completamente. Se eu pudesse controlar a realidade com meus pensamentos, eu pareceria como eu era há vinte anos e ainda seria tão esperto como agora. Eu não. Na ciência nós usamos nossas observações sobre o que acontece quando nós não estamos dormindo ou fantasiando para fazer inferências razoáveis sobre a natureza  para o que supre o ímpeto para as limitações que nós registramos com nossos aparelhos de medição.

A Física moderna sugere fortemente uma surpreendentemente descomplicada e não-misteriosa “realidade irrevogável” que pode não ser o que nós queremos que seja, mas é suportada por todos os dados conhecidos. Além disso, essa realidade é muito mais parecida com o que foi inferido por alguns pensadores notáveis no mundo ancestral: um universo composto por objetos elementares que se move em torno de um deserto de outra maneira vazio. Eu chamo isto de realidade atômica.

Esta proposta bate de cara com a moda corrente. A moda repudia todas as tentativas, dentro ou fora da ciência, de descrever uma realidade objetiva, universal. Eu repudio essa moda. Onde a validade de certos conceitos antigos e modernos de verdade e realidade são negados, eu os afirmo. Onde se argumenta que a ciência ocidental não nos diz nada de profundamente significativo, eu afirmo que continua sendo nossa ferramenta mais importante para a descoberta da verdade fundamental.

Muitos professores de ciências naturais, com suas cabeças enterradas principalmente em pesquisa, tem ignorado os ataques à ciência e ao pensamento racional. Quando acontece de eles ouvirem afirmações de que a ciência é apenas outro conto de fadas, eles tipicamente repudiam a ideia como absurdo. Ao invés disso, eles deveriam estar falando abertamente sobre o assunto.


VictorStenger* Victor J. Stenger é professor de Física e Astronomia na Universidade do Havaí. Recebeu seu grau de doutoramento da UCLA em 1963 e tem tido uma ativa carreira como pesquisador de partículas elementares e astrofísica. Seus projetos incluem a elaboração de propriedades de quarks, gluons , neutrinos, simetria CP e a corrente neutra das interações fracas. Ele tem trabalhado com raios gama de alta energia e astronomia de neutrinos. Atualmente, é colaborar do Super-Kamiokande, um experimento em uma mina no Japão que recentemente confirmou o a anomalia dos neutrinos solares e é esperado que seja o mais definitivo experimento da década com neutrinos solares, decaimento de prótons e oscilações de neutrinos. Seus escritos incluem vários artigos para publicações céticas e três livros publicados pela Prometheus Books:  Not By Design: The Origin of the Universe Physics (1988), Psychics: The Search for a World Beyond the Senses (1990) e The Unconscious Quantum: Metaphysics in Modern Physics and Cosmology (1995), que a Times Literary Supplement descreveu como “uma interessante, provocativa, informativa e apaixonada tentativa de resgatar a Física das apropriações não-científicas ou anti-científicas contemporâneas das suas teorias mais suaves”.

Fonte: Quack Watch
Tradução: Maurício Moura
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