O pós-modernismo despido

Richard Dawkins

Suponha que você é um impostor intelectual com nada a dizer, mas com fortes ambições de ter sucesso na vida acadêmica, reunir um círculo de discípulos reverentes e ter estudantes ao redor do mundo ungindo suas páginas com um respeitoso marcador amarelo. Qual tipo de estilo literário você cultivaria? Não um lúcido, claro, já que a clareza poderia expor sua falta de conteúdo. As chances são de você ter algo como isso:

Podemos ver claramente que não existe nenhuma correspondência biunívoca entre elos lineares significantes ou de arquiescritura, que dependa do autor, e esta catálise maquínica multirreferencial, multidimensional. A simetria de escala, a transversalidade, o caráter pático não-discursivo de sua expansão: todas essas dimensões nos removem da lógica do meio excluído e nos fortalecem em nossa renúncia ao binarismo ontológico que havíamos criticado previamente.

Essa é uma citação do psicanalista Félix Guattari, um dos mais elegantes “intelectuais” franceses publicados por Alan Sokal e Jean Bricmont em seu esplêndido livro Imposturas Intelectuais, publicado anteriormente em francês e agora lançado em uma completamente reescrita e revisada edição em inglês. Guattari continua indefinidamente nessa linha e oferece, na opinião de Sokal e Bricmont, “a mais brilhante mélange de jargões científicos, pseudo-científicos e filosóficos que já encontramos”. Colaborador próximo de Guattari, o falecido Gilles Deleuze tem um talento similar para escrever:

Em primeiro lugar, os eventos-singularidades correspondem a séries heterogêneas que se organizam em um sistema que não é nem estável nem instável, mas “metastável”, dotado de uma energia potencial em que se distribuem as diferenças entre séries. Em segundo lugar, as angularidades gozam de um processo de auto-unificação, sempre móvel e deslocado na medida em que um elemento paradoxal percorre as séries e as faz ressoar, envolvendo os correspondentes pontos angulares num único ponto aleatório e todas as emissões, todos os arremessos dos dados em um único arremesso.

Isso chama a atenção para a caracterização anterior de Peter Medawar de um certo tipo de estilo intelectual francês (nota, de passagem, o contraste oferecido pela própria prosa elegante e clara de Medawar):

O Estilo se tornou um objeto de primeira importância, e que estiloso isso é! Para mim há uma pirueta, de alta qualidade, cheio de auto-importância. Elevada, de fato, mas como um balé, e para de tempos em tempos em atitudes estudadas, com se esperasse uma explosão de aplausos. Isso tem tido uma influência deplorável na qualidade do pensamento moderno…

Retornando a atacar os mesmos alvos de outro ângulo, Medawar diz:

Eu poderia citar a evidência do início de uma campanha de boatos contra a virtude da clareza. Um escritor sobre o estruturalismo no Times Literary Supplement sugeriu que os pensamentos que são confusos e tortuosos devido à sua profundidade, são mais apropriadamente expressos em prosa que é deliberadamente obscura. Mas que ideia absurdamente estúpida! Eu me recordo de um diretor de ataque aéreo em Oxford dos tempos da guerra que, quando o brilho do luar parecia estar derrotando o espírito da escuridão, exortava-nos a usar óculos escuros. Ele, entretanto, era divertido em seu propósito.

Isto é da palestra de Medawar em 1968 na “Ciência e Literatura”, reimpresso em República de Platão (Oxford University Press, 1982). Desde o tempo de Medawar, a campanha de boatos elevou sua voz.

Deleuze e Guattari tem escrito e colaborado em livros descritos pela celebridade Michel Foucault como “entre os maiores dos maiores… Algum dia, talvez, o século será Deleuziano”. Sokal e Bricmont, entretanto, pensam o contrário: “tais textos contem um punhado de sentenças ininteligíveis – algumas vezes banais, outras vezes errôneas – e temos comentado sobre alguns deles em notas de rodapé. Para o resto, nós deixamos o julgamento ao  leitor”.

Mas é difícil para o leitor. Sem dúvida existem pensamentos tão profundos que a maioria de nós não vai entender a linguagem em que eles são expressos. E sem dúvida que também existe a linguagem projetada para ser ininteligível a fim de esconder uma ausência de pensamentos honestos. Mas como nós podemos dizer a diferença? E se realmente é preciso um especialista para detectar se o imperador tem roupas? Em particular, como vamos saber se a “filosofia” francesa da moda, cujos discípulos e expoentes tem tomado grandes partes da vida acadêmica americana, é genuinamente profunda ou a retórica vazia de saltimbancos e charlatães?

Sokal e Bricmont são professores de física, respectivamente, na Universidade de Nova Iorque e na Universidade de Louven na Bélgica. Eles tem limitado sua crítica a aqueles livros que tem se aventurado em invocar conceitos da física e matemática. Aqui eles sabem do que estão falando e seu veredito é inequívoco. Em Jacques Lacan, por exemplo, cujo nome é reverenciado em vários departamentos de humanidades por todas as universidades dos EUA e britânicas, sem dúvida, em parte porque ele simula uma profunda compreensão da matemática:

…embora Lacan use algumas palavras-chave da teoria matemática da compactação, ele as mistura arbitrariamente e sem a menor consideração por seus significados. Sua “definição” de compactação não é apenas falsa: é incompreensível.

Eles vão citar a seguinte peça memorável do raciocínio por Lacan:

Assim, ao calcular o significado de acordo com o método algébrico usado aqui, a saber:

Raciocinio-de-Lacan

Você não precisa ser um matemático para ver que isso é ridículo. Isso lembra o personagem de Aldous Huxley que provou a existência de Deus dividindo zero por um número, derivando assim o infinito. Numa outra peça de raciocínio que é inteiramente típica do gênero, Lacan passa a concluir que o órgão erétil:

… é equivalente a √-1 da significação produzida acima, do gozo que ele restaura pelo coeficiente de sua declaração para a função da falta de significante (-1).

Nós não precisamos da perícia matemática de Sokal e Bricmont para nos assegurar que o autor desta coisa é uma farsa. Talvez ele seja genuíno quando fala sobre assuntos não-científicos? Mas um filósofo que é flagrado igualando o órgão erétil à raiz quadrada de menos um, na minha opinião, matou suas credenciais quando se trata de coisas que eu não sei nada sobre.

A “filósofa” feminista Luce Irigaray é outra que conseguiu o tratamento de um capítulo inteiro de Sokal e Bricmont. Em uma passagem remanescente de uma notória descrição feminista de Principia de Newton (um “manual de estupro”), Irigaray argumenta que  E=mc2 é uma “equação sexista”. Por quê? Porque “privilegia a velocidade da luz sobre outras velocidades que são vitalmente necessárias para nós” (minha ênfase é na palavra que estou rapidamente começando a aprender). Tão típica desta escola de pensamento é a tese de Irigaray sobre a mecânica dos fluídos. Fluídos, você sabe, tem sido injustamente negligenciados. “Física masculina” privilegia coisas rígidas, sólidas. Sua expositora estadunidense, Katherine Hayles, cometeu o erro de re-expressar o pensamento de Irigaray em uma linguagem (comparativamente) clara. Pela primeira vez, temos um olhar razoavelmente desobstruído do imperador e, sim, ele não tem roupas:

O privilégio da mecânica de sólidos sobre a de fluídos, e realmente a inabilidade da ciência de lidar com fluxos turbulentos em tudo, ela atribui à associação da fluidez com a feminilidade. Enquanto os homens tem órgãos sexuais que se projetam e ficam rígidos, mulheres tem aberturas que vazam sangue menstrual e fluidos vaginais… Dessa perspectiva, não é de admirar que a ciência não tem sido capaz de alcançar modelo de sucesso para turbulências. O problema do fluxo turbulento não pode ser solucionado porque as concepções de fluídos (e da mulher) tem sido formuladas como se fosse necessário deixar restos desarticulados.

Você não precisa ser um físico para desvendar o absurdo insensato deste tipo de argumento (o tom disso ficou muito familiar), mas ajuda ter Sokal e Bricmont a mão para nos dizer a razão real de o fluxo turbulento ser um problema difícil: as equações de Navier-Stokes são difíceis de resolver.

De uma maneira similar, Sokal e Bricmont expõe a confusão de Bruno Latour da relatividade com o relativismo, “ciência pós-moderna” de  Jean-François Lyotard e os maus usos generalizados e previsíveis do Teorema de Gödel, Teoria Quântica e Teoria do Caos. O renomado Jean Baudrillard é apenas um dos muitos que acham a teoria do caos uma ferramenta útil para enganar os leitores. Uma vez mais, Sokal e Bricmont nos ajudam através da análise dos truques usados. A seguinte sentença, “embora construída a partir de uma terminologia científica, não tem sentido a partir de um ponto de vista científico”:

Talvez a própria história deva ser considerada como uma formação caótica, na qual a aceleração põe fim à linearidade e a turbulência criada pela aceleração desvia a história definitivamente do seu fim, exatamente como tais turbulências distanciam os efeitos de suas causas.

Não vou citar mais pois, como dizem Sokal e Bricmont, o texto de Baudrillard “continua em uma crescente gradual de absurdos”. Eles novamente chama a atenção apara “a alta densidade de terminologia científica e pseudocientífica – inseridas em sentenças que são, até onde podemos compreender, desprovidas de sentido”. Seu resumo de Baudrillard poderia representar qualquer um dos autores criticados aqui e celebrizado em todo os EUA:

Em suma, encontra-se na obra de Baudrillard uma profusão de termos científicos, utilizados com total menosprezo por seu significado e, acima de tudo, num contexto em que são manifestamente irrelevantes. Quer os interpretemos ou não como metáforas, é difícil compreender que papel poderiam desempenhar, a não ser transferir uma aparência de profundidade a banais observações sobre sociologia e história. Além do mais, a terminologia científica está mesclada com um vocabulário não-científico empregado com semelhante ligeireza. E é possível perguntar o que restaria do pensamento de Baudrillard se o verniz verbal que o reveste fosse retirado.

Mas as alegações pós-modernistas não são apenas para “jogar jogos”? Não é o ponto de toda a sua filosofia que vale tudo, que não há nenhuma verdade absoluta, que qualquer coisa escrita vale o mesmo que qualquer outra coisa e nenhum ponto de vista é privilegiado? Dado seus próprios padrões de verdade relativa, não é um pouco injusto dá-los a tarefa de brincar por aí com jogos de palavras, jogando piadinhas sobre os leitores? Talvez, mas resta a curiosidade de saber por que seus escritos são tão espantosamente chatos. Jogos não deveriam pelo menos serem divertidos, ao invés de sem humor, solenes a pretensiosos? Mais impressionante, se eles estão apenas fazendo piada, por que eles reagem com tais gritos de consternação quando alguém faz uma piada às suas custas? A gênese do Imposturas Intelectuais foi um brilhante farsa perpetrada por Sokal e o assombroso sucesso de seu golpe não ter sido saudado com risadas de prazer que se poderiam esperar depois de tal proeza de jogada desconstrutiva. Aparentemente, quando você se torna o establishment, deixa de ser engraçado quando alguém perfura a bolsa de vento estabelecida.

Como agora ficou bastante claro, em 1996 Sokal enviou à revista dos EUA Social Text, uma artigo chamado “Transgressing the boundaries: towards a transformative hermeneutics of quantum gravity” [Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica]. Do início ao fim o artigo é nonsense. Era uma paródia cuidadosamente construída do meta-disparate pós-moderno. Sokal foi inspirado para fazer isso pelo Higher Superstition: The Academic Left and its Quarrels with Science [Alta Superstição: A Esquerda Acadêmica e sua Briga com a Ciência] (Johns Hopkins University Press, 1994), de Paul Gross e Norman Levitt, um importante livro que merece se tornar tão conhecido na Grâ-Bretanha como é nos Estados Unicos. Quase incapaz de acreditar no que leu nesse livro, Sokal seguiu as referências da literatura pós-moderna e descobriu que Gross e Levitt não exageraram. Ele resolveu fazer algo quanto a isso. Nas palavras do jornalista Gary Kamiya:

Qualquer um que gaste algum tempo vasculhando a hipocrisia piedosa, obscurantista, cheia de jargões, que agora passa por pensamento “avançado” na área de humanas sabia que isso aconteceria cedo ou tarde: algum acadêmico inteligente, armado com senhas não tão secretas (“hermenêutica”, “transgressivo”, “Lacaniano”, “hegemonia”, para citar apenas algumas) iria escrever um artigo completamente falso, submetê-lo a uma revista consciente e tê-lo aceito… A peça de Sokal usa todos os termos certos. Cita todas as melhores pessoas. Castiga os pecadores (homem branco, o “mundo real”), aplaude os virtuosos (mulheres, loucuras metafísicas em geral)… E está completo, besteira não adulterada – um fato que de alguma forma escapou da atenção dos ultra-poderosos editores da Social Text, que agora devem estar experimentando essa sensação de náusea que afligiu os troianos na manhã depois de puxarem aquele cavalo grande agradável de presente para dentro de sua cidade.

O artigo de Sokal deve ter parecido um presente para os editores porque era um físico dizendo exatamente as coisas que eles queriam ouvir, atacando a “hegemonia pós-iluminista” e qualquer noção fora de moda como a existência do mundo real. Eles não sabiam que Sokal havia abarrotado seu artigo com disparates científicos flagrantes, do tipo que qualquer julgador com uma graduação em Física teria detectado instantaneamente. Ele foi enviado para tal julgador. Os editores, Andrew Ross e outros, estavam satisfeitos que tal ideologia se conformava com as deles próprios e talvez tenham ficado lisonjeados pela referências a seus próprios trabalhos. Esta ignominiosa peça de edição foi justamente a que lhes rendeu o Prêmio Ig Nobel de literatura de 1996.

Não obstante parecerem estúpidos, e apesar de suas pretensões feministas, esses editores são machos dominantes no establishment acadêmico.Ross tem a confiança grosseira, dominante de quem diz coisas como “eu estou contente de me librar dos departamentos de inglês. Eu odeio literatura, por um lado, e os departamentos de inglês tendem a estar cheios de pessoas que amam literatura” e a complacência brutal para começar um livro sobre “estudos científicos” com essas palavras: “este livro é dedicado a todos os professores de ciência que eu nunca tive. Só poderia ter sido escrito sem eles”.

Ele e seus companheiros barões “estudos culturais” e “estudos científicos” não são excêntricos inofensivos em faculdades de terceira categoria. Vários deles tem cátedras permanentes em algumas da melhores universidades nos Estados Unidos. Homens desse tipo sentam em comitês de nomeação, exercendo poder sobre jovens acadêmicos que podem secretamente aspirar uma honesta carreira acadêmica in estudos literários ou, digamos, antropologia. Eu sei – porque vários deles me disseram – que existem pesquisadores sinceros lá fora que falariam se ousassem, mas que são intimidados a permanecer no silêncio. Para eles, Sokal vai aparecer como um herói e ninguém com senso de humor ou senso de justiça vai discordar. Ajuda, de qualquer forma, embora seja estritamente irrelevante, o fato de que suas credenciais de esquerda são impecáveis.

Em um detalhado post-mortem do seu famoso embuste, enviado ao Social Text mas previsivelmente rejeitado por eles e publicado em outro lugar, Sokal nota que, além das numerosas meias-verdades, falsidades e non sequiturs, seu artigo original continha algumas “sentenças sintaticamente corretas que não tinham qualquer significado”. Ele lamenta não haver mais dessas: “eu tentei arduamente produzi-las, mas achei que, salvo raras explosões de inspiração, eu simplesmente não tenho o dom”. Se ele estivesse escrevendo sua paródia hoje, ele certamente seria ajudado pela virtuosa peca de programação de Andrew Bulhak de Melbourne, Austrália: o Gerador de Pós-Modernismo. Toda vez que você o visita, no elsewhere.org/pomo, será gerado espontaneamente para você, usando princípios gramaticais impecáveis, um formidável novo discurso pós-moderno nunca visto antes.

Eu apenas estive lá e ele produziu para mim um artigo de 6 mil palavras chamado “Teoria capitalista e o paradigma subtextual do contexto” por “David I. L.Werther e Rudolf du Garbandier do Departamento de Inglês da Universidade de Cambridge” (justiça poética aqui, já que foi Cambridge que achou por bem dar um título honorário a Jacques Derrida). Eis uma passagem típica deste impressionantemente erudito trabalho:

Se examinarmos a teoria capitalista, seremos confrontados com uma escolha: ou rejeitar o materialismo neocontextual ou concluir que a sociedade tem valor objetivo. Se o dessituacionismo dialético detém, nós temos que escolher entre o discurso Habermasiano e o paradigma subtextual do contexto. Pode-se dizer que o assunto é contextualizado em um nacionalismo textual que inclui verdade como uma realidade. Em um certo sentido, a premissa do paradigma subtextual do contexto afirma que a realidade vem do inconsciente coletivo.

Visite o Gerador de Pós-modernismo. É uma fonte literalmente infinita de absurdos sintaticamente corretos gerados aleatoriamente, distinguíveis da coisa real apenas por ser mais divertido de ler.Você pode gerar milhares de artigos por dia, cada um único e pronto para publicação, completo com notas de rodapé numeradas. Manuscritos podem ser submetidos para o “Coletivo Editorial” da Social Text, com espaçamento duplo e em triplicata.

Por mais que seja difícil a tarefa de recuperar os departamentos literários dos EUA para os estudiosos genuínos, Sokal e Bricmont se juntaram a Gross e Levitt em dar uma vantagem amigável e simpática para o mundo da ciência. Esperamos que isso seja seguido.


Imposturas-Intelectuais-Sokal-Bricmont

Imposturas Intelectuais
O abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos
Alan Sokal & Jean Bricmont
Tradução Max Altman
Editora Record
2010

Fonte: Revista Nature #394
Tradução: Maurício Moura
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