Pseudojornalismo e pseudociência na Internet

O sensacionalismo é a forma tendenciosa de apresentar um assunto para aumentar a audiência. É a linha editorial dos tabloides e de vários programas com temática policial. O exagero como recurso retórico não é inválido. Títulos ou imagens são recursos importantes para chamar a atenção do leitor em um mundo infestado de informação ruim. O problema é quando induz ao erro ou inventa fatos.

No artigo a seguir, Marcel R. Goto discorre sobre a prática cada vez mais comum do sensacionalismo científico, analisando alguns dos sites mais populares de divulgação científica em língua portuguesa.

Eu incluiria nessa lista o History Channel, que foi apenas citado. O site do canal (Seu History) é um poço de pseudociência que beira o absurdo.

Marcel é psicólogo e jornalista, com trabalhos em várias publicações de peso, como Estadão, Rolling Stone e Superinteressante, além de diversas publicações relacionadas a quadrinhos, desenhos japoneses e videogames, como Herói, Anime-Do e EGM. A dica para o texto foi do Alexandre Linares, do Ativando Neurônios.


5 sites para não ler sobre ciência

Marcel R. Goto

A relação entre a popularidade de um veículo e a qualidade de seu conteúdo, se já era precária em mídias tradicionais como jornais e revistas, se tornou praticamente inexistente com a internet.

A ciência é vítima preferencial desse descolamento. Mesmo jornalistas da grande mídia cometem erros ao falarem sobre Física, Medicina, Psicologia, Astronomia, os últimos avanços tecnológicos, etc. Blogueiros, voluntários ou contratados, frequentemente sem a menor familiaridade tanto com a prática do jornalismo quanto com os rigores do método e da interpretação dos resultados de pesquisas científicas, costumam se limitar a copiar, traduzir ou resumir textos de fontes secundárias, propagando então os erros originais e ainda acrescentando os seus próprios.

Finalmente, num país em que a péssima qualidade da educação rouba o futuro dos estudantes, por responsabilidade do establishment pedagógico, mais preocupado com modas e ideologias do que com resultados, por responsabilidade do governo e com a conivência da sociedade, é inadmissível que a mídia online ainda atrapalhe o debate sobre o assunto espalhando desinformação ou reduzindo a ciência a um amontoado de curiosidades, sendo que, com pouco esforço, poderia ajudar tanto.

Então, segue uma lista dos sites que combinam o maior alcance com a cobertura mais questionável de temas relacionados a ciência. Seja por repassarem notícias falsas e hoaxes sem a menor crítica ou parcimônia jornalística, seja por fazerem afirmações sem apresentar fontes ou evidências que as justifiquem, copiarem matérias sem dar créditos, propagarem pseudociência e terapias alternativas que além de não curar podem fazer mal à saúde, misturarem pesquisas científicas com fé e confundirem, com a autoridade derivada da sua popularidade, essas duas esferas na consciência do público.

5 – HYPENESS (750 mil seguidores no Facebook)

O caso do Hypeness não seria tão grave se não fosse o alcance do site, devido à sua associação com o Terra. Ele traz conteúdo sobre “inovação e criatividade”, abordando algumas notícias de educação, saúde e ciência sob esse prisma.

Seu maior erro está em valorizar a inovação pela inovação, independente dos resultados que ela traz, e em condenar instituições tradicionais pelo mero fato de serem tradicionais, novamente sem se preocupar com suas características intrínsecas ou com a sua utilidade e função.

Sendo mais específico:

O texto Educação Fora da Caixa: conheça escolas onde o aprendizado vai muito além da lousa e do caderno começa assim:

Carteiras enfileiradas, giz, silêncio e lição de casa. Não é à toa que de cada quatro alunos que iniciam a educação fundamental no Brasil, um abandona a escola antes do último ano. Ou você realmente acha que uma lista com vinte exercícios é mais atraente do que um gibi, um livro ou o vídeo game?

Ele associa o estado lamentável do nosso ensino ao formato tradicional da educação. No entanto, esse argumento não se sustenta, por um fato muito simples: todos os países com educação superior à nossa, e são pelo menos 32 países segundo a OECD, usam o mesmo esquema carteiras enfileiradas, giz, silêncio e lição de casa. Inclusive e principalmente os países nórdicos, Finlândia, Suécia, Noruega, que educadores, com razão, adoram citar. O texto não apresenta evidência alguma de que o problema esteja nessa estrutura de ensino, e no entanto tenta vender alternativas a ela.

Mas qual é o resultado da implementação dessas alternativas? A autora não se dá o trabalho de responder isso, ou mesmo de formular a pergunta. E por acaso a disciplina para praticar atividades que não são imediatamente atraentes como gibi e videogame, mas que trazem ganhos incalculáveis ao longo da vida, não é algo que devemos incentivar nas crianças? Por que essa ênfase na satisfação imediata? O seu computador, os seus remédios, prédios, aviões, pontes, foguetes e satélites interplanetários, o conhecimento do ser humano, da vida e do universo, tudo isso só foi possível porque milhões de pessoas ao longo da História se dedicaram com grande disciplina à ciência, ao invés de procurarem satisfação imediata em outras atividades.

Mais:

Em escolas inovadoras, ir para a aula deixa de ser “um saco”.

Novamente, a escola é “um saco” (aspas, muitas aspas) por causa do esquema cadeiras enfileiradas, giz, silêncio e lição de casa, ou porque no Brasil os professores são mal-preparados, mal remunerados, desprovidos de autonomia? Porque alunos não têm base familiar ou emocional adequada? Porque tudo aquilo que cerca as aulas em si, excursões, atividades complementares, esportes, carece de estrutura, planejamento e investimento? Porque nossos pedagogos estão mais preocupados com doutrinação do que com ensino? Porque a sociedade brasileira não valoriza a educação, nem a escola ou os professores, e seu senso-comum insiste que estudar é “um saco”? Porque a educação de qualidade, portanto as melhores oportunidades de carreira e portanto a verificação empírica das vantagens de uma boa formação, só é acessível para poucos?

Nesta e em outras matérias (123) o Hypeness critica repetidamente a “decoreba”, a exposição sistemática a diferentes conteúdos, como se a aquisição de conhecimento, mesmo que ele não seja usado na vida adulta, não transformasse a pessoa pelo mero fato dela ter entrado em contato com isso em algum momento.

Sob o pretexto da inovação, já tivemos o construtivismo, a introdução de computadores em sala de aula, sem que isso trouxesse ganhos palpáveis, até desmontando o que antes funcionava, e ainda desviando recursos e o foco da discussão sobre a qualidade do ensino. Ao propor alternativas sem estudar ou discutir além do senso-comum o que há de errado com as escolas, sem deixar de lado o preconceito com o “tradicional” e procurar entender por que o esquema cadeiras enfileiradas, giz, silêncio e lição de casa funciona em outros países, o Hypeness faz propaganda ideológica, mas não informa nem faz jornalismo. É um desserviço num assunto tão importante.

A sede do site em ir atrás da inovação o torna especialmente vulnerável a hoaxes, boatos, desinformação. Um exemplo foi a notícia amplamente divulgada e comemorada de que a Finlândia estaria abandonando a divisão das disciplinas entre Matemática, Química, Biologia, etc: Finlândia vai ser o 1º país do mundo a acabar com as matérias escolares. Alguns sites publicaram errata quando se revelou que, na verdade, não era nada disso, mas não o Hypeness.

Outra notícia que tem toda cara de hoax e foi publicada sem a menor crítica ou verificação: A exemplo de Morgan Spurlock, que ficou famoso por passar um mês comendo apenas no McDonald’s e documentando as consequências, George Prior afirmou que tomou dez latas de Coca-Cola por dia durante um mês. Como inúmeros outros sites, o Hypeness não perdeu a oportunidade de divulgar a notícia (não encontro mais a página, mas aqui está o post no Facebook, e aqui está o texto copiado em outro lugar), inclusive como uma crítica indireta a um alvo frequente, os hábitos da civilização industrial. Mas se tivessem realizado um mínimo de jornalismo, teriam notado coisas estranhas e feito perguntas, ou, de preferência, não publicado nada. Diferente de Spurlock, Prior não cita nenhuma referência independente que verifique e confirme suas afirmações sobre as mudanças na saúde ao longo do mês. A foto abaixo, que ele divulgou como sendo seu corpo antes e depois, é tão obviamente manipulada em luz, ângulo e postura, sem falar na inverossimilhança de se afirmar que uma mudança tão grande de tônus muscular pudesse ocorrer em apenas um mês, que é incrível que tenha sido levada a sério.

Prior não produziu nenhum documentário nem publicou seus resultados de maneira sistemática, mas vende seu próprio livro de dietas e equipamento de churrasco no site. E está divulgando uma repetição do experimento, agora com Diet Coke, sem explicar exatamente aonde quer chegar. Não ocorreu a ninguém que se tratasse de um golpe, de uma campanha de autopromoção, que talvez nada do que ele disse seja verdade?

Se o Hypeness não se importa em verificar os fatos em matérias como a anterior, não é de estranhar, então, que publique outras como esta: 5 casos curiosos de crianças que afirmam se lembrar de suas vidas passadas.

O que acontece quando morremos? Vamos para o céu? Para o inferno? Viramos comidinha de verme? Voltamos à vida em outro corpo? A ciência não tem uma resposta definitiva para esta pergunta, mas estudos que se baseiam na Física Quântica têm avançado em pesquisas envolvendo crianças que dizem se lembrar de vidas passadas.

Mesmo que a premissa da matéria já não fosse absurda o suficiente, ela ainda cai no erro comum e sempre trágico de usar a coitada da física quântica para dar um verniz de legitimidade a todo tipo de bobagem. Não, “estudos que se baseiam na física quântica” não têm avançado em pesquisas envolvendo crianças que dizem se lembrar de vidas passadas. Jim Tucker, o acadêmico da matéria, é psiquiatra, e não físico, e ele especula a respeito da física quântica… mas poderia especular a respeito de unicórnios e fadas com a mesma propriedade. Obviamente, um físico não deve ter sido consultado para essa matéria.

4 – CATRACA LIVRE (4 milhões e 500 mil seguidores)

O Catraca Livre tem uma cobertura muito mais séria sobre problemas e soluções para a educação, mas também mostra alguns dos mesmos vícios do Hypeness, com três agravantes: é coordenado por Gilberto Dimenstein, um dos jornalistas mais respeitados do país, tem um alcance gigantesco nas mídias sociais, e conta com patrocínio de bancos, seguradoras, e outras multinacionais bilionárias.
O site costuma repassar notícias de fontes secundárias confiáveis, o que não é ideal e nenhum mérito por si próprio, centenas de outros lugares fazem o mesmo, mas está normalmente correto, dentro desse formato questionável de mostrar ciência como curiosidade. Mas quando produz conteúdo próprio ou usa o de sites parceiros, a qualidade deixa muito a desejar.

Também caiu no conto da Finlândia, e também deixou por isso mesmo, nada de errata: Finlândia será o primeiro país a abolir divisão do conteúdo escolar em matérias. Curiosamente, eles se isentam da responsabilidade pelo conteúdo.

Também acredita que a escola é “um saco”. A matéria Professores que fazem da sala de aula um local mais divertido e humano (como assim, mais “humano”?) diz:

O site Razões Para Acreditar fez uma seleção de professores que provam que para ensinar não é preciso apenas dominar o assunto. É preciso ser diferente, ter bastante atitude e muita empatia.

Ou seja, professor bom é o professor-palhaço de cursinho. Algo me diz que existe uma relação entre escrever pra esses sites e não ter se dado muito bem na escola, ou não entender direito o valor da educação.

Existem sete tipos de inteligência, descubra qual é a sua. Texto aparentemente, ahem, “inspirado” neste aqui: 7 Types of Intelligence: Discover Yours! Não bastasse isso, do que é que ele está falando, exatamente? No que ele baseia a afirmação do título e todo o resto do texto? Se se refere à teoria de inteligências múltiplas, elaborada por Howard Gardner, ela já teve 8, 9, mas creio que nunca 7 inteligências. Não que faça diferença, porque tem pouquíssimo suporte empírico, então não é levada muito a sério na academia.

Entenda o funcionamento do toque terapêutico. Pseudociência, provado que não funciona por uma menina de 9 anos (Emily Rosa, co-autora desse artigo, a pessoa mais jovem a publicar um paper numa revista médica), “indicado” para o tratamento de Alzheimer (?!?!), tirando novamente do chapéu a física quântica para se legitimizar, empurrado ao leitor incauto como medicina. Incidentalmente, pesquisando sobre toque terapêutico, encontrei este artigo afirmando eficácia, mas dentro de um experimento sem grupo de controle, sem randomização, sem procedimentos pra descartar efeito placebo. Evidência, como se mais alguma fosse necessária, de que os artigos científicos não nascem todos iguais.

Como entender gestos e posições da linguagem corporal. Existem muitos trabalhos sérios e interessantíssimos em Psicologia sobre linguagem corporal, mas esta matéria, que na verdade é uma prévia da matéria completa em outro site, não menciona nenhum deles, permanecendo no nível do senso-comum. Mas queria chamar a atenção para o começo do texto: “Você sabia que 55% da informação que uma pessoa repassa quando se comunica vem da linguagem corporal?”. Nada como alguns números pra dar aparência de seriedade a uma afirmação. Mas de onde veio esse dado? Seguindo os links, veio de um texto da revista Time, que o tirou de outro site, que o tirou de um livro, que o menciona meramente como uma anedota. Continuando a busca, agora pelo Google, descobre-se que é uma aproximação bastante artificial baseada em pesquisas de 1967, que francamente não deveria ser usada como argumento para nada.

Daniela Albuquerque passa xixi da filha no rosto para curar manchas. O texto em si não diz que funciona nem que não funciona, mas ao chamar isso de “tratamento”, lhe sugere credibilidade. Há um link ao lado: Urina pode ajudar no combate à acne, sugere experimento, relatando um “experimento” em que a pessoa teria usado “sua própria urina para deixar a sua pele macia e livre de espinhas”. Aqui citam a fonte, o jornal britânico Telegraph, mas não oferecem nenhum link. Fui atrás e encontrei a matéria. Trata-se de uma jornalista narrando seu contato com a suposta moda londrina de passar xixi no rosto, mas ela não faz referência a nenhuma comprovação sistemática de resultados, apenas oferece anedotas. Ou seja… algum redator não entendeu direito o que leu no texto em Inglês, e transformou isso em “Urina pode ajudar no combate à acne, sugere experimento”.

3 – BRASIL POST (cerca de 200 mil seguidores)

O Brasil Post é um site mais recente, filial nacional do norte-americano Huffington Post, que foi um dos principais focos do movimento anti-vacinação naquele país, promove a homeopatia, coloca gurus da nova era como Deepak Chopra escrevendo ao lado de médicos e autoridades de saúde, e tem uma seção dedicada a OVNIs e teorias conspiratórias relacionadas, entre outras coisas.

Este pedigree de obscurantismo não teria muita importância se todo o material publicado no Brasil Post fosse produzido aqui e com uma orientação editorial diferente… mas infelizmente não é o caso.
Não só colunistas americanos são traduzidos e publicados, como uma leva local de colaboradores foi reunida para promover o conteúdo pseudocientífico de sua preferência. Tudo isso em associação com a Editora Abril.

O resultado é o esperado: homeopatiahomeopatiahomeopatia, sempre repetindo a mesma ladainha da definição e da história desses preparos, jurando de pés juntos que funcionam, sem nunca apresentar uma gota superdiluída de evidência sistemática de que funcionem, nem comentar as inúmeras pesquisas demonstrando que não servem pra nada. Bizarramente, assim como nos EUA, o Brasil Post coloca ao lado um psiquiatra para tentar se fazer ouvir a favor da razão, como se houvesse alguma equivalência entre as duas posições e houvesse alguma virtude na postura do site de se abster de tomar partido editorialmente.

É por isso que todos nós adoramos uma boa coincidência. Misticismo misturado com neurociência e estatística. Uma salada profana que legitima indevidamente o primeiro e diminui a estatura dos demais enquanto áreas de estudo empíricas.

Como a ciência moderna endossa a sabedoria milenar da Índia. Primeiramente, cá está de novo a nossa velha amiga física quântica, esvaziada de todo o seu sentido real, tendo palavras colocadas em sua boca e usada como um fantoche para vender esoterismo e misticismo. O problema desse texto é mais sutil do que os dos demais que cito aqui, porque de fato coisas como a meditação oferecem benefícios seguidamente verificados por pesquisas científicas, mas isso independe da associação dessas práticas com doutrinas religiosas. A meditação tem certos efeitos quer seja praticada por um budista, um cristão ou um ateísta. E inclusive ela surgiu em diferentes culturas de maneira independente. Então, nada justifica afirmações como “A física nos conduz hoje a uma visão de mundo que é essencialmente mística”, e “algumas pesquisas de física quântica hoje embasam a visão oriental de que os estados mentais talvez não dependam exclusivamente dos estados materiais”.

Entender ciências é exceção no Brasil, mostra pesquisa. Ironia fina. Apesar de publicar textos originais sobre assuntos de Psicologia e saúde, o Brasil Post, como todos os outros sites aqui e inúmeros outros pela internet, apresenta a ciência como uma coletânea de curiosidades autorizadas por mantras como “pesquisadores descobriram” e “afirmam estudos”, sem nunca transmitir ao leitor uma noção real e palpável de como se dão tais descobertas. Eles informam, mas não educam. Não oferecem ao leitor recursos para organizar nem produzir novos conhecimentos, ou mesmo julgar o que é e o que não é uma informação verdadeira. A escola vem fracassando em promover essas habilidades, a mídia geral não tem interesse. Pelo menos os veículos que deram o primeiro passo de se proporem a falar sobre ciência deveriam dar o tão importante passo seguinte de habilitar seus leitores a compreendê-la por inteiro, e assim se envolverem mais intimamente com ela, ao invés de assistirem à distância, como a um estupefaciente show de mágica.

Ah, e é claro: eles também caíram no conto da Finlândia: Finlândia quer acabar com ensino por matérias e pode revolucionar educação ocidental. Não, não publicaram uma errata.

2 – HYPESCIENCE (400 mil seguidores)

O HypeScience foi a motivação original deste texto. Seu modus operandi é traduzir fontes secundárias de sites estrangeiros, isto é, textos que comentam artigos científicos, e não falar diretamente sobre os próprios artigos científicos. O problema com esse procedimento é a propagação de erro: se a fonte secundária deles exagera ou erra na interpretação do artigo original, eles vão reproduzir o erro e ainda potencialmente acrescentar outros.

Seus maiores defeitos:

O HypeScience não apenas não dá os devidos créditos para o material que traduz na íntegra, apenas colocando um link sem contexto no rodapé pra se proteger da acusação de plágio, como apresenta seus próprios redatores como autores. Isso é bastante antiético. Exemplo: 8 falácias lógicas que alimentam os sentimentos anticiênciaTexto original: 8 Logical Fallacies That Fuel Anti-Science Sentiments.

Às vezes a tradução é tão mal-feita que distorce completamente o sentido. Neste texto, a sentença original do Telegraph que deveria ser traduzida como “desejo evolucionário de ter uma parceira que produzirá filhos apenas de um único homem”, se transformou em “desejo evolucionário de ter uma parceira que produzirá apenas meninos”, um absurdo.

O apelo frequente ao sensacionalismo induz o leitor ao erro. A mesma matéria citada acima relata o resultado de uma pesquisa que aponta que mulheres com mais testosterona no organismo, que pode resultar numa mandíbula mais proeminente, tendem a ser mais infiéis. O título usado foi Mulheres Queixudas, Homens Chifrudos. Não apenas ele é vulgar, apelativo, como sugere que os efeitos observados na tal pesquisa foram bastante fortes: tais mulheres tenderiam a ser muito mais infieis. Mas o redator do HypeScience provavelmente apenas traduziu a matéria do Telegraph sem ler a pesquisa propriamente dita, então ele provavelmente não sabe qual a intensidade do fenômeno e nem a qualidade da pesquisa, e portanto está sendo irresponsável ao fazer tal sugestão. Nesse sentido, a própria matéria do Telegraph comete o mesmo erro, no que foi criticada pela Discover Magazine.

Os textos são traduzidos de outros lugares, ok, mas é razoável assumir que os redatores acreditem no que estão publicando. Então: eles apresentam erros grosseiros como se fossem fato. A matéria 5 mentiras sobre psicologia que você provavelmente acredita, outro título sensacionalista, contém afirmações como “ao ouvir qualquer coisa sobre QI, o que você deveria responder é: não tô nem aí. Isso porque esses testes não provam quase nada sobre as pessoas.” e “seu QI não é nada de especial porque ele mede apenas uma coisa: quão bom você é em fazer um teste de QI”, frases de senso-comum e completamente equivocadas que são justificadas com outro texto do mesmo site, que se baseia em outro texto de outro site, que finalmente se baseia numa pesquisa concreta, mas que provavelmente ninguém do HypeScience leu. Vamos torcer para que seja um material muito bom, já que ele chegou a nós não em segunda, não em terceira, mas em quarta mão.

…mas por acaso eu li a tal pesquisa, e infelizmente ela não prova nada do que a redatora acha e proclama. Ela não é exatamente legível para um leigo ou mesmo pra muitos psicólogos sem experiência com estatística e neurosciência, e definitivamente não abala o conceito de QI, ou mesmo de uma medida g de inteligência, porque permanece completamente em aberto a discussão sobre a relação entre os diversos processos neurológicos e a interpretação da soma dos seus produtos como sendo a capacidade cognitiva do indivíduo. O que o HypeScience faz em casos assim é apresentar preconceitos, ignorância, ideologia, como se fossem fatos científicos. Não bastasse isso, ele ainda se contradiz: a mesma redatora publicou outra matéria, chamada A inteligência humana está relacionada com nossos genes. Será que ela sabe que a inteligência, no caso, é medida através do QI? Se para ela o QI não tem importância, porque publicar uma matéria sobre a sua hereditariedade?

Não vejo motivo pra acreditar que eles saibam do que estão falando, que entendam a natureza da pesquisa e do conhecimento científico. Então, é um tanto prepotente se proporem a “melhorar a alfabetização científica do brasileiro ao divulgar ciência”, e dizerem que “mantêm sempre uma equipe redatores extremamente competentes” (sic).

1 – JORNAL CIÊNCIA (705 mil seguidores)

O Jornal Ciência é um fenômeno. Associado ao R7, portanto à Rede Record, tem “Ciência” no nome, seu slogan é “Conhecimento É Tudo”… mas lá no rodapé diz fazer parte da seção “R7 Esquisitices”?
Tem todos os mesmo vícios do HypeScience, e ainda uma vocação impressionante para cair em hoaxes e avançar teorias conspiratórias, e dar sentidos absurdos para textos ao fazer traduções erradas.

Frequentemente traduz textos de lugares como o Daily Mail, um tabloide inglês, sem dar os devidos créditos: tradução/originaltradução/original, etc. Já é ruim o suficiente se basear em fontes secundárias (ou terciárias, duvido que os jornalistas do DM leiam os artigos originais das pesquisas), mas tabloides? Esse bastião da qualidade e integridade jornalística? Por que?

Traduzindo outro texto de outro tabloide inglês, desta vez o Metro, o Jornal Ciência caiu neste hoax delicioso: Solidão entre os adolescentes na China está fazendo com que eles adotem acelgas para serem seus amigos. Veja só: eles realmente acreditaram que os chineses estavam adotando verduras como animais de estimação, e as levando para passear. Publicaram isso para as suas centenas de milhares de leitores sem um pingo de crítica, ou mesmo ironia. Curiosamente, se tivessem ficado com o Daily Mail desta vez, saberiam que se trata de uma performance, uma intervenção artística: “In reality, though, it was part of a ‘performance art’ piece by Chinese ‘artist’ Han Bing, and is not the widespread ‘trend’ news outlets reported it to be”.

O New Scientist, site americano de reputação, publicou que cientistas italianos estavam mapeando uma zona de radiação a centenas de quilômetros de altitude conhecida comoAnomalia do Atlântico Sul. Entre outras coisas, isso é importante porque, ao lançarmos foguetes e satélites, seus equipamentos eletrônicos podem ser danificados pela radiação. Por causa desse risco, essa região foi apelidada, um pouco exageradamente, de “Triângulo das Bermudas do Espaço”. Uma referência metafórica na mesma linha de “O Oscar da Moda”. Pois bem. O Jornal Ciência entendeu que se tratava literalmente do Triângulo das Bermudas, e publicou isso: Cientistas acreditam que o mistério sobre o Triângulo das Bermudas está no espaço e pretendem descobri-lo:

O Triângulo das Bermudas é uma zona de milhões de quilômetros quadrados de extensão e está localizado no Oceano Atlântico, entre as Ilhas Bermudas, Porto Rico e as Bahamas.
A região é conhecida por inúmeros desaparecimentos de barcos e navios sem nenhuma explicação e que, ao longo dos anos, vem criando uma série de mistérios, crenças e superstições.
Para isso, cientistas do Instituto Nacional de Astrofísica da Bolonha estão cogitando a ideia de mandar um satélite para o espaço a fim de fazer uma varredura na região, pois acreditam que o problema esteja, na verdade, além da superfície terrestre.

Primeiro parágrafo: errado, por entender que a notícia se referia literalmente a esse triângulo das bermudas.
Segundo parágrafo: hoax e teoria da conspiração. As narrativas sobre desaparecimentos nessa região são altamente exageradas, tanto é que, segundo a Wikipédia, companhias de seguro sequer cobram mais caro para cobrir veículos que passem por ali, já que a chance de acidentes é a mesma de qualquer outro lugar.
Terceiro parágrafo: distorção de tudo o que foi dito na notícia original.

Jornalismo de primeira classe.

O Jornal Ciência indica como fonte o History Channel, um caso à parte de veículo sério que se voltou ao sensacionalismo para conseguir público, mas o texto, chamado: Após relatos de astronautas, pesquisadores enviarão satélite para monitorar triangulo das Bermudas, parece ter saído do ar.

E o texto ainda é estranhamente parecido com este, de um site russo de naipe semelhante: The Mystery of the Bermuda Triangle is hidden in space.

E por falar em sensacionalismo, como eles adoram isso. Qualquer pedaço de pedra passando pela nossa vizinhança no espaço rende a mesma manchete:

Será o fim? Astrônomos encontram estrela que está em rota de colisão com a Terra! 

Será o fim? Asteroide que passará “raspando” na Terra em janeiro será observado por astrônomos

Será o fim? Asteroide com mais de 1 km está vindo em direção à Terra e astrônomos não sabem como desviá-lo

Mas leia o texto, e: o asteroide não vai passar tãaao raspando assim. Ou só vai passar daqui a 800 anos. Ou daqui a 500 mil anos.

E tem OVNIs e teoria conspiratória? Tem, sim senhor: A eterna busca da humanidade por vidas extraterrestres abordando o início dos dados ufológicos

Procuramos vida extraterrestre há vários anos, mas segundo centenas de ufólogos, as evidências do passado encontradas ao longo dos milhares de anos, confirmam que somos supostamente visitados desde os tempos mais remotos até os dias atuais.

E tem ainda mais sensacionalismo e promoção de afirmações completamente enganosas sobre experimentos científicos? Tem, sim senhor: 12 maneiras como a humanidade pode DESTRUIR o sistema solar

Tem disseminação de ignorância sobre escalas astronômicas? Tem, sim senhor: Astrônomos descobrem evidências de estrelas mais antigas do Universo, que podem ter sido centenas de vezes maiores que o Sol.

Astrônomos descobriram a primeira evidência de grandes estrelas, que podem ter sido uma das mais antigas do Universo. Com massa centenas de vezes maiores que a do Sol, elas existiram por pouco tempo e nenhuma deles existe mais.

Está tudo errado. Estrelas centenas de vezes maiores que o Sol não são nenhuma novidade, elas existem até hoje. A maior entre as que conhecemos, VY Canis Majoris, tem mais de mil vezes o diâmetro do Sol. (Edit: E estrelas como R136a1 e BAT99-98 têm mais de 200 vezes a sua massa. O texto em si não está errado, mas omite informações, e o título traduzido, diferente do original, induz ao erro de confundir volume com massa.)


Por tudo isso, e provavelmente muito mais, o Jornal Ciência ganha a infame recomendação de principal site a ser evitado quando o assunto é ciência.

Pretendo fazer o contrário a seguir e procurar páginas pra recomendar. Há dezenas de lugares ótimos em inglês e outros idiomas, mas em Português a coisa complica. Aceito sugestões.

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7 pensamentos sobre “Pseudojornalismo e pseudociência na Internet

  1. Concordo com o texto, acho desonesto atribuir à ciência feitos e discussões que não estão em seu escopo. É exatamente isso que se caracteriza pseudociência, que é prejudicial por dois lados, o primeiro e mais amplamente aceito é o da desinformação, os fatos apresentados não são científicos segundo a maioria das teorias de demarcação. O segundo é que dá um poder hierárquico à ciência como forma superior de conhecimento, crença injustificada e eu diria falsa.
    Há também muita desinformação filosófica na maioria dos (eu diria todos os) trabalhos de divulgação científica. No escopo das discussões científicas está o comprometimento da previsão de dados empíricos e NÃO de uma descrição da realidade, coisa há muito tempo desmistificada. Ocorre que na maioria dos trabalhos de divulgação científica os divulgadores associam fatos não-observáveis de teorias cientificamente aceitas a uma visão da realidade, das coisas em si, o que é igualmente desonesto e absurdamente ingênuo. Frases como “a física descreve como as coisas são”, “os elétrons realmente existem” etc deveriam entrar no barco das pseudociências pelos mesmos motivos.
    Resumindo, falta ler mais Guidorizzi e Feyman na vida das pessoas, mas também falta ler mais Kuhn e Feyerabend.

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  2. O autor comete sistematicamente o erro que critica: fazer afirmações sem apresentar evidência ou fonte. Apenas para citar um exemplo: “Sob o pretexto da inovação, já tivemos o construtivismo, a introdução de computadores em sala de aula, sem que isso trouxesse ganhos palpáveis…”. Me pergunto o quanto o autor conhece sobre construtivismo (ou se realmente sabe do que se trata) e suas duas principais correntes, a de Piaget e a de Vygotski, ou mesmo sobre os casos de sucesso no uso de computadores em sala de aula (o que eu infelizmente sou obrigado a reconhecer que, pelo menos no Brasil, são raros). O fato é que, com freqüência, o autor critica sem base, evidência, ou referência confiável, cometendo assim o mesmo pecado que critica. Concordo que as publicações citadas apresentam informação científica de péssima qualidade, porém não vejo grande vantagem em outros veículos, incluindo ai as chamadas revistas de divulgação científica, como a Superinteressante (que hoje é uma pálida representante do que foi quando criada) e a Galileu, que embora sejam melhores no quesito citação, ficam a dever devido a parcialidade com que divulgam ciência. Fica então a impressão de que o autor simplesmente direciona seu ódio às publicações por ele citadas, buscando de fato identificar qual seria a “pior” delas. Infelizmente a imprensa (ou a mídia em geral) são o pior lugar para se informar sobre ciência, com poucas nobres exceções, como a Scientific America ou a Ciência Hoje, embora mesmo essas sejam vítimas de uma certa polarização.

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    • Veja, Gilvan.

      Como você deve ter percebido, o texto é uma reprodução. Se deseja contatar o autor, creio que seria mais produtivo clicar no link e ir diretamente a ele.

      Você discorda do autor na frase citada por si? Você mesmo afirma que experiências que discordam da visão do autor são poucas e, entendo eu, não tem substância estatística para serem “palpáveis”. Não?

      E qual a relação entre a teoria construtivista e a veracidade ou não de seu resultado aplicado no Brasil sob pretexto de inovação? Meio pedante essa tentativa de demonstrar autoridade, não?

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      • O cabeçalho do texto diz: “Publicado em 24/06/2015 por LP”. daí depreendi que era uma publicação original do site. Depois percebi a citação da fonte no final.
        Não se trata de eu discordar do autor ou da frase, mas do método. Como deixei bem claro, o autor lança mão do método que ele mesmo critica. Se esta minha crítica pareceu “pedante”, peço desculpas.
        Quanto às experiências do construtivismo e do uso de informática nas escolas, o que eu afirmei é que os resultados positivos são raros no Brasil, mas estão longe de ser raros no resto do mundo.

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