O que é método científico?

Isaac Asimov*

Método científico é, obviamente, o método usado pelos cientistas ao fazerem descobertas científicas. Esta definição, porém, parece não ajudar muito. É possível entrar em maiores detalhes?

Poderíamos dar uma versão idealizada do método:

  1. Reconhecer que existe um problema – pode-se perguntar, por exemplo, por que o movimento dos corpos é acelerado em certas condições e retardado em outras.
  2. Selecionar e desprezar aspectos não essenciais do problema. Por exemplo, o cheiro de um objeto é irrelevante ao seu movimento.
  3. Coletar todos os dados disponíveis referentes ao problema. Na Antiguidade e na Idade Média, essa atitude equivalia a apenas uma observação perspicaz da natureza, tal qual era. Com o advento dos Tempos Modernos, surgiu a noção de que o homem poderia intervir no curso da natureza, podendo planejar uma situação na qual os objetos fossem levados a se comportar de forma que os dados obtidos estivessem relacionados com o problema em questão. Esferas poderiam ser postas a rolar sobre planos inclinados, variando-se ora o ângulo de inclinação do plano, ora a sua superfície, ora o tamanho das esferas etc.
    Tais situações deliberadamente planejadas constituem os experimentos em devido ao papel central que desempenham na Ciência Moderna, esta é, por vezes, denominada “Ciência Experimental”, a fim de distingui-la da ciência dos gregos antigos.
  4. De posse desses dados, formular uma generalização provisória que os descreva do modo mais simples possível – algum enunciado breve ou alguma relação matemática. Eis uma hipótese.
  5. A hipótese permite prever resultados de experimentos que sem ela nem mesmo se teria pensado em realizá-los. Realizá-los e verificar a validade da hipótese.
  6. Caso os experimentos correspondam ao esperado, a hipótese é fortalecida e talvez passe a ser considerada uma teoria ou mesmo uma “lei natural”.

Claro está que nenhuma teoria ou lei natural é estabelecida de maneira conclusiva. O processo acima descrito repete-se continuamente. Mediante novos dados, novas observações e novos experimentos, as leis naturais mais antigas vão sendo constantemente suplantadas por leis mais gerais, que não só explicam tudo o que as anteriores explicavam, porém vão mais além.

Como já foi mencionado, essa é uma versão idealizada do método científico. Na prática, os cientistas não necessitam segui-la como a um conjunto de “receitas” científicas e, geralmente, não o fazem.

Fatores tais como intuição, rápidos vislumbres mentais (insights) ou mera sorte tem, mais do que quaisquer outros, um papel a desempenhar. A história da ciência é pródiga em exemplos de cientistas que tiveram repentinas e inspiradas ideias a partir de dados bastante inadequados e de pouca ou nenhuma base experimental, chegando a verdades úteis que talvez levassem anos para serem atingidas, seguindo-se passo a passo a versão idealizada do método científico.

A estrutura do benzeno ocorreu a F. A. Kekulé enquanto ele dormitava em um ônibus. Otto Loewi despertou no meio da noite com a solução para o problema da condução sináptica. Donald Glaser estava a olhar distraidamente para o copo de cerveja quando teve a ideia para a câmara de bolhas.

Quer isso dizer, afinal, que tudo o que se requer é apenas sorte e nenhum esforço intelectual? Não, mil vezes não! Esse tipo de “sorte” o ocorre apenas aos melhores cérebros; apenas àqueles indivíduos cuja “intuição” é fruto de grande experiência, profunda compreensão e árdua reflexão.


* Isaac Asimov foi escritor e bioquímico nascido na Russia.  Foi um dos maiores autores de Ficção Científica da História e um dos grandes nomes da divulgação científica de todos os tempos.

ASIMOV, Isaac. Asimov Explica. Trad. Edna Feldman. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1986.
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