O cérebro crente: porque a ciência é o único caminho para fora do realismo dependente da crença

Michael Shermer *

O presidente Barack Obama nasceu no Havaí? Eu achei a questão tão absurda, sem mencionar a possibilidade de racismo em sua motivação, que quando eu foi confrontado com “birthers”1 que acreditam em outra coisa, eu achei difícil até mesmo me concentrar em seus argumentos sobre a diferença entre uma certidão de nascimento e um certificado de nascido vivo. A razão é porque uma vez que eu formei uma opinião sobre o assunto, tornou-se uma crença, sujeita a uma série de vieses cognitivos para garantir a sua verosimilhança. Eu fiquei irracional? Possivelmente. De fato, é assim que a maioria dos sistema de crença funcionam para a maioria de nós na maioria do tempo.

Nós formamos nossas crenças a partir de uma variedade de razões subjetivas, emocionais e psicológicas no contexto do ambiente criado pela família, amigos, colegas, cultura e sociedade em geral. Depois de formar nossas crenças, nós as defendemos, justificando e racionalizando-as com uma série de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. Crenças vem primeiro; explicações para as crenças vem em seguida. No meu livro Cérebro e Crença2, eu chamo esse processo, em que as nossas percepções sobre a realidade são dependentes das crenças que temos sobre ela, de “realismo dependente de crença”. A realidade existe independente das mentes humanas, mas nossa compreensão disso depende das crenças que temos em um determinado momento.

Eu moldei o realismo dependente de crença após o realismo dependente de modelo, apresentado pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow em seu livro O Grande Projeto3. Ali eles argumentam que, já que nenhum modelo é adequado para explicar a realidade, “um não pode ser dito mais real que o outro”. Quando esses modelos são unidos a teorias, eles formam visões de mundo completas.

Uma vez que tenhamos formado crenças e feito compromissos com elas, nós mantemos e reforçamo-as com uma variedade de tendências cognitivas que distorcem nossas percepções para caber nos conceitos da crença. Entre eles temos:

Viés de Ancoragem. Baseando muito fortemente em uma âncora de referência ou peça de informação quando tomamos decisões.

Viés de Autoridade. Valorizando a opinião de uma autoridade, especialmente na avaliação de alguma coisa que concemos pouco.

Viés da Crença. Avaliando a força de um argumento baseado na credibilidade de sua conclusão.

Viés de Confirmação. Procurando e encontrando evidências que confirmem as crenças já existentes e ignorando ou reinterpretando as evidências em contrário.

No topo de todas essas tendências, está o Viés Endogrupal, onde nós valorizamos mais as crenças dos que são membros de nosso grupo e menos nas crenças de quem é de diferentes grupos. Isso é resultado de nossos cérebros tribais nos levando não apenas para fazer tais juízos de valor sobre as crenças mas também de demonizar e descartá-las como sem sentido ou más, ou ambos.

O realismo dependente da crença é impulsionado ainda mais profundamente por um meta-viés chamado de Viés de Ponto Cego, ou a tendência para reconhecer o poder de tendências cognitivas em outras pessoas, mas ser cego para a sua influência em suas próprias crenças. Mesmos cientistas não estão imunes, sujeitos ao viés experimentador-expectativa, ou a tendência de observadores perceberem, selecionarem e publicaram dados que corroboram suas expectativas para o resultado de um experimento e ignorar, descartar ou não acreditar em dados que não.

Essa dependência na crença e sua série de tendências psicológicas é porque, na ciência, nós temos mecanismos internos de auto-correção. Controles duplo-cegos rigorosos são necessários, nos qual nem os sujeitos nem os pesquisadores sabem as condições durante a coleta de dados. Colaboração com os colegas é vital. Resultados são examinados em conferências e publicações revistas por pares. Pesquisa é replicada em outros laboratórios. Evidências de desconformidade e interpretações contraditórias de dados são incluídas na análise. Se você não buscar dados e argumentos contra sua teoria, alguém o fará, geralmente com grande alegria e em fórum público. Isto é o motivo de o ceticismo ser sine qua non da ciência, a única escapatória que nós temos das armadilhas do realismo dependente da crença criadas por nossos próprios cérebros crentes.


44477-michael_shermer* Michael Shermer é psicólogo, escritor e historiador da ciência.
É colunista da revista Scientific American,
fundador da Skeptic Magazine
e diretor executivo da Skeptics Society

 


  1. Birthers é como são chamadas as pessoas que duvidam da legitimidade da presidência de Barack Obama por conta de uma teoria da conspiração que afirma que Obama não é nascido nos EUA (NdT)
  2. The Believing Brain (Holt, 2011). Publicado em português com o título de Cérebro e Crença. São Paulo: JSN Editora, 2012.
  3. The Grand Design (Nova Iorque: Bantam Books, 2010). Publicado em português com o título O grande projeto. São Paulo: Nova Fronteira, 2011
Fonte: Scientific American
Tradução: Maurício Moura
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Um pensamento sobre “O cérebro crente: porque a ciência é o único caminho para fora do realismo dependente da crença

  1. Muito bom texto, e partes dele me lembraram demais As Armas da Persuasão, de Robert Cialdini (principalmente por mencionar a questão da autoridade e da aprovação social). Também gostei muito do fato do autor ter reconhecido que mesmo os cientistas não estão imunes a tudo isso, daí a importância de certas rotinas na hora de publicar um estudo.

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