Sam Harris: A ciência pode responder questões morais.

Sam Harris é um neurocientista estadunidense. Escritor de vários livros, é profundo crítico do dogmatismo, inclusive do dogmatismo religioso.

Harris defende que é necessário questionar livremente os dogmas e que o tabu de que “religião não se discute” é um entrave à evolução humana e à justiça social.

Neste vídeo, Harris demonstra que a suposta ligação entre religiosidade e moral é um mito e que não está baseado em nenhuma evidência. Demonstra também que a utilização da razão, da ciência, do materialismo, é muito mais útil para definir valores morais do que qualquer sistema de crenças, dogmas ou fé.

Veja outros vídeos do TED.


Vou falar hoje sobre a relação entre ciência e valores humanos. É geralmente aceito que questões morais, questões sobre o bem e o mal e o certo e o errado, são questões sobre as quais a ciência oficialmente não possui opinião. Pensamos que a ciência pode nos ajudar a conseguir o que valorizamos, mas não pode nos dizer o que devemos valorizar. E, por consequência, a maioria das pessoas acha que a ciência nunca vai responder as questões mais importantes na vida humana, questões como, “Pelo que vale a pena viver?” “Pelo que vale a pena morrer?” “O que constitui uma vida boa?”

Então irei argumentar que isto é uma ilusão, e que a separação entre ciência e valores humanos é uma ilusão. E na verdade uma separação um tanto perigosa neste ponto da história humana. É geralmente dito que a ciência não pode nos dar uma base para a moralidade e valores humanos porque a ciência lida com fatos. E fatos e valores parecem pertencer a esferas diferentes. É geralmente aceito que não existe uma descrição de como o mundo é que possa nos dizer como o mundo deveria ser. Mas eu acho que isto é claramente falso. Valores são um certo tipo de fato. São fatos sobre o bem estar de criaturas conscientes.

Por que não possuímos obrigações éticas em relação às pedras? Por que não sentimos compaixão pelas pedras? Porque não pensamos que elas possam sofrer. E se somos mais preocupados com primatas do que com insetos, como de fato somos, é porque nós pensamos que eles estão expostos a maior quantidade de felicidade e sofrimento em potencial. O principal a ser observado aqui é que este é um argumento embasado em fatos. É algo sobre o qual poderíamos estar certos ou errados. E se erramos sobre a relação entre complexidade biológica e as possibilidades de experiência então podemos estar errados sobre as vidas dos insetos.

E não existe nenhuma noção, nenhuma versão de moralidade humana e valores humanos que encontrei que não é em algum ponto redutível a uma preocupação com experiências conscientes e suas possíveis variações. Mesmo se os seus valores vêm da religião, mesmo se você acha que o bem e o mal dependem de condições após a morte, seja para uma eternidade de felicidade com deus ou uma eternidade de sofrimento no inferno, você ainda está preocupado sobre a consciência e suas variações. E dizer que estas variações podem persistir após a morte é um argumento fatual por si só que, é claro, pode ou não ser verdade.

Agora, para falar sobre condições de bem estar nesta vida, para seres humanos, sabemos que existe um continuum destes fatos. Sabemos que é possível viver em um estado arruinado, onde tudo que pode dar errado dá errado, onde mães não conseguem alimentar suas crianças, onde desconhecidos não conseguem achar as bases para colaboração pacífica, onde pessoas são assassinadas indiscriminadamente. E sabemos que é possível se mover ao longo deste continuum, para algo um pouco mais ideal, para um lugar onde uma conferência como esta é sequer concebível.

E nós sabemos, sabemos, que existem respostas certas e erradas sobre como se mover neste espaço. Adicionar cólera na água seria uma boa idéia? Provavelmente não. Seria uma boa idéia se todos acreditassem no “mau-olhado”, tal que quando coisas ruins acontecerem todos culpariam seus vizinhos? Provavelmente não. Existem verdades a serem conhecidas sobre como comunidades humanas florescem, mesmo que não entendamos estas verdades. E a moralidade se relaciona a essas verdades.

Então, quando falamos sobre valores estamos falando sobre fatos. Agora, nossa situação no mundo pode ser entendida em muitos níveis. Do nível do genoma até o nível de sistemas econômicos e políticos. Mas se vamos falar sobre o bem estar humano vamos, necessariamente, falar sobre o cérebro humano. Porque sabemos que nossas experiências do mundo e de nós dentro dele são realizadas no cérebro.

Seja lá o que acontece depois da morte, mesmo se um homem-bomba ganha 72 virgens depois da morte, nesta vida, sua personalidade, sua personalidade um tanto infeliz, é produto deste cérebro. Então, as contribuições da cultura, se a cultura nos muda, como de fato muda, nos muda ao mudar nossos cérebros. E então, seja qual for a variação cultural que existe em como seres humanos florescem pode, ao menos em princípio, ser entendida no contexto de uma ciência da mente em amadurecimento, neurociência, psicologia, etc.

Então o que estou argumentando é que valores são redutíveis à fatos, fatos sobre a experiência consciente de seres conscientes. E podemos, portanto, visualizar um espaço de possíveis mudanças nas experiências destes seres. Imagino isto como um tipo de paisagem moral com picos e depressões que correspondem as diferenças no bem estar de criaturas conscientes, tanto pessoal como coletiva. E um ponto a ser notado é que talvez existam estados de bem estar humano que poucas pessoas atingem. E estes esperam a nossa descoberta. Talvez estes estados possam ser chamados de místicos ou espirituais. Talvez existam outros estados que não podemos atingir, por causa de como nossas mentes são estruturadas, mas que outras mentes poderiam possivelmente atingir.

Deixem me ser claro sobre o que não estou dizendo. Não estou dizendo que é garantido que a ciência irá mapear este espaço, ou que teremos respostas científicas a todas perguntas morais concebíveis. Não penso, por exemplo, que você um dia irá consultar um supercomputador sobre se deveria ter um segundo filho, ou sobre se devemos bombardear as bases nucleares iranianas, ou se você deveria deduzir o custo total do TED como despesas de trabalho. (risos) Mas se questões afetam o bem estar humano então elas possuem respostas, mesmo que não possamos encontrá-las. E apenas admitir isto, admitir que existem respostas certas e erradas as questões de como os seres humanos florescem irá mudar a forma com a qual falamos sobre a moralidade, e irá mudar nossas expectativas de cooperação humana no futuro.

Por exemplo, existem 21 estados no nosso país onde a punição física na sala de aula é legalizada. Não é um crime se um professor bater em uma criança com uma tábua de madeira, severamente, gerando grandes hematomas e feridas e até mesmo rompendo a pele. E centenas de milhares de crianças, a propósito, são sujeitas a isto todo o ano. Os locais destes distritos iluminados, eu suponho, falharão em surpreendê-los. Não estamos falando de Connecticut.

E as razões para este comportamento são explicitamente religiosas. O criador do universo nos disse para não poupar a vara, para não mimar a criança. Isto está nos Provérbios 13 e 20, e eu acho, 23. Mas podemos perguntar a questão óbvia. É uma boa idéia, generalizando, submeter crianças a dor e violência e humilhação pública como forma de encorajar um desenvolvimento emocional saudável e bom comportamento? (risos) Existe a menor dúvida que esta questão possui uma resposta, e que ela é importante?

Muitos de vocês podem estar questionando que a noção de bem estar é verdadeiramente indefinida, e perpetuamente aberta a ser reconstruída. E então, como pode existir uma noção objetiva de bem estar? Bem, considerem por analogia, o conceito de saúde física. O conceito de saúde física é indefinido, como acabamos de ouvir de Michael Specter. Ele mudou ao longo dos anos. Quando esta estátua foi esculpida a expectativa de vida era de provavelmente trinta anos. Agora é em torno de oitenta no mundo desenvolvido. Pode surgir uma era quando alteraremos nosso genoma de tal forma que não conseguir correr uma maratona aos 200 anos de vida, seja considerado uma deficiência profunda. Pessoas mandarão doações se você estiver nessa condição. (risos)

Note que o fato do conceito de saúde ser aberto, genuinamente aberto para revisão não o torna vazio. A distinção entre uma pessoa saudável e uma morta é tão clara e conseqüente como qualquer outra que fazemos na ciência. Agora, outro ponto a ser notado é que podem existir muitos picos na paisagem moral. Podem existir caminhos equivalentes para a prosperidade. Podem existir formas equivalentes de se organizar uma sociedade humana de tal forma a maximizar o florescimento humano.

Agora, por que isto não iria minar uma moralidade objetiva? Bem, pense como falamos sobre comida. Eu nunca tentaria discutir com você que deve existir uma comida certa para se comer. Claramente existe uma gama de materiais que constituem comidas saudáveis. Mas ainda assim existe uma clara distinção entre comida e veneno. O fato de existirem muitas respostas certas para a questão, “O que é comida?” não nos impede de dizer que existem verdades a serem conhecidas sobre a nutrição humana. Muitas pessoas se preocupam que uma moralidade universal necessitaria preceitos morais que não admitam exceções.

Então, por exemplo, se é realmente errado mentir, deve ser sempre errado mentir, e se você encontrar uma exceção, bem então a verdade moral não existe. Por que pensaríamos isto? Considere, por analogia, o jogo de xadrez. Se você vai jogar xadrez em um bom nível, um princípio como, “Não perca sua rainha.” é muito bom a ser seguido. Mas claramente ele admite exceções. Existem momentos em que entregar a rainha é uma atitude brilhante. Existem momentos em que é a única coisa que se pode fazer. E ainda assim, xadrez pertence à um domínio de perfeita objetividade. O fato de existirem exceções não altera nada.

Isto nos traz ao tipo de jogadas que as pessoas estão aptas a fazer na esfera moral. Considere o grande problema do corpo das mulheres. O que fazer quanto a isso? Bem, está é uma coisa que podemos fazer, podemos cobri-lo. É a posição, generalizando, da nossa comunidade intelectual, que mesmo que não gostemos disto, podemos pensar nisto como errado em Boston ou Palo Alto, quem somos nós para dizer que os orgulhosos cidadãos de uma cultura antiga estão errados em forçar suas esposas e filhas a viver dentro de sacos de tecido? E quem somos nós para dizer que eles estão errados ao bater nelas com cabos de aço, ou jogar ácido de bateria em suas faces se elas se negarem ao privilégio de serem sufocadas desta maneira?

Ou quem somos nós para não dizer isto? Quem somos nós para fingir que sabemos tão pouco sobre o bem estar humano que não podemos julgar práticas como estas? Não estou falando sobre o uso voluntário do véu, as mulheres devem ter o direito de usar o que elas quiserem, ao que me diz respeito. Mas o que significa voluntário em uma comunidade onde quando uma garota é estuprada o primeiro impulso dos pais, com freqüência, é assassinar ela por vergonha.

Deixem este fato detonar no cérebro de vocês por um minuto. A sua filha é estuprada, e o que você quer fazer é matá-la. Qual a probabilidade que isto representa um pico de florescimento humano?

Agora, dizer isto, não é dizer que nós temos a solução perfeita na nossa sociedade. Como por exemplo, isto é o que encontramos em qualquer banca de revistas no mundo civilizado. Agora, é certo que, para muitos homens, é necessário um diploma em filosofia para ver algo de errado com estas imagens. (risos) Mas se estamos em um humor reflexivo podemos perguntar, “Esta é a expressão perfeita de equilíbrio psicológico com respeito às variáveis como juventude e beleza e corpos femininos?” Quero dizer, este é o ambiente ótimo para criar nossas crianças? Provavelmente não. Então talvez exista um lugar no espectro entre estes dois extremos que represente um lugar de maior equilíbrio? (aplausos) Talvez existam muitos lugares assim.

De novo, dadas outras oportunidades na cultura humana podem existir muitos outros picos na paisagem moral. Mas o ponto a ser notado é que existem muito mais formas de não estar em um pico. Agora, a ironia, da minha perspectiva é que as únicas pessoas que parecem concordar comigo e que acham que existem respostas certas e erradas no mundo moral são demagogos religiosos de algum tipo.

E é claro que eles acham que possuem respostas certas para questões morais porque eles receberam essas respostas de uma voz ao vento, não porque eles fizeram uma análise inteligente das causas e das condições humanas e animais de bem estar. Na verdade, a persistência da religião como uma lente pela qual a maioria das pessoas enxergam questões morais, tem separado a maior parte das discussões morais de questões como o sofrimento humano e animal. É por isso que passamos nosso tempo falando sobre coisas como casamento gay e não sobre genocídio ou proliferação nuclear ou pobreza ou outras questões de conseqüências graves. Mas os demagogos estão certos sobre uma coisa, precisamos de uma concepção universal dos valores humanos.

O que está no meio do caminho disto? Bem, uma coisa a ser notada é que nós fazemos algo diferente quando falamos sobre moralidade, especialmente secular, acadêmica, científica. Quando falamos sobre moralidade valorizamos as diferenças de opinião de uma forma que não fazemos em qualquer outra área de nossas vidas. Então, por exemplo, o Dalai Lama acorda toda as manhãs meditando sobre a compaixão. E ele acha que ajudar outros seres humanos é um componente integral da felicidade humana. Por outro lado temos alguém como Ted Bundy. Ted Bundy gostava muito de seqüestrar e estuprar e torturar e matar jovens mulheres.

Então, parece que temos uma diferença de opinião genuína sobre como usufruir o seu tempo livre. (risos) A maior parte dos intelectuais ocidentais olham para esta situação e dizem, “Bem, não existe nada que diga que o Dalai Lama está realmente certo, ou que Ted Bundy está realmente errado que admita um argumento real que potencialmente caia dentro do âmbito da ciência. Ele gosta de chocolate, ele de baunilha. Não há nada que um poderia dizer ao outro que seria capaz de persuadi-lo. E note que não fazemos isto na ciência.

Na esquerda temos Edward Witten. Um teórico da teoria das cordas. Se você perguntar aos físicos mais inteligentes quem é o físico mais inteligente no mundo, minha experiência diz que metade deles dirão Ed Witten. E a outra metade dirá que eles não gostam da questão. (risos) Então, o que aconteceria se eu aparecesse em um congresso de física e dissesse, “A teoria das cordas é uma farsa. Não é a forma que eu escolho para ver o universo na escala pequena. Não sou um fã.” (risos) Bem, nada iria acontecer porque não sou um físico, não entendo a teoria das cordas. Sou o Ted Bundy da teoria das cordas. (risos) Eu não pertenceria a nenhum clube da teoria das cordas que me aceitasse como sócio.

Mas este é exatamente o ponto. Sempre que estamos falando sobre fatos certas opiniões devem ser excluídas. É isto que significa a existência de um domínio de especialistas. É isto que significa o conhecimento ser levado em conta. Como nos convencemos de que na esfera moral não existem especialistas morais, ou talentos morais, ou até mesmo gênios morais? Como nos convencemos de que todas as opiniões contam? Como nos convencemos de que todas as culturas possuem um ponto de vista que vale a pena ser considerado? O Talibã possui um ponto de vista sobre física que vale a pena ser considerado? Não. (risos) Como pode a ignorância deles ser menos óbvia no assunto do bem estar humano? (aplauso)

Isto, eu penso, é o que o mundo precisa agora. Precisa que pessoas como nós admitam que existem respostas certas e erradas para questões relacionadas ao florescimento humano, e que a moralidade pertence ao domínio dos fatos. É possível que indivíduos, e até que culturas inteiras se preocupem com coisas erradas. Que é dizer que é possível que elas tenham crenças e desejos que levam ao sofrimento humano desnecessário. Apenas admitir isto já vai transformar o nosso discurso sobre a moralidade. Vivemos em um mundo onde as fronteiras entre as nações significam cada vez menos, e um dia não irão significar nada.

Vivemos em um mundo cheio de tecnologia destrutiva, e esta tecnologia pode ser “desinventada”, será sempre mais fácil quebrar as coisas do que concertá-las. Me parece, portanto, notadamente óbvio que não podemos respeitar e tolerar vastas diferenças nas noções sobre o bem estar humano, mais do que podemos respeitar e tolerar as noções sobre como as doenças se espalham, ou sobre os padrões de segurança de prédios e aeronaves. Simplesmente devemos convergir nas respostas que damos as questões mais importantes da vida humana. E para fazer isto, temos que admitir que estas perguntas possuem respostas. Muito obrigado (aplauso)

Então… material explosivo aqui. Seja nesta platéia ou em outras partes do mundo, as pessoas ouvindo isto, podem muito bem estar gritando com raiva agora.

A linguagem parece ser muito importante aqui. Quando você estava falando sobre o véu, você estava falando sobre mulheres vestidas em sacos de tecido. Eu vivi no mundo muçulmano, falei com muitas mulheres muçulmanas. E algumas delas diriam algo diferente. Diriam, “Não, isto é uma celebração da especialidade feminina, ajuda a construir isto e é um resultado do fato de que…” e este é um ponto de vista psicológico sofisticado, “a luxúria masculina não pode ser confiada.” Você poderia se engajar uma conversa com este tipo de mulher sem parecer um imperialista cultural?

Bem, tentei abordar isto em uma frase cuidando o tempo passar, mas a questão é, o que é voluntário em um contexto onde homens tem certas expectativas, e é garantido que você será tratada de certa forma se você não usar o véu. Então, se qualquer um nesta sala quiser usar o véu, ou um chapéu engraçado, ou tatuar o seu rosto, acho que devemos ser livres para fazer voluntariamente o que queremos. Mas temos que ser honestos sobre as pressões que estas mulheres enfrentam. E então acho não deveríamos nos apressar em sempre aceitar a palavra delas, especialmente quando está 50 graus e elas estão usando uma burca completa.

Muitas pessoas querem acreditar neste conceito de progresso moral. Mas você consegue conciliar isto? Se não estou enganado você diz que poderia conciliar isto com um mundo que não se torne unidimensional, onde todos temos que pensar o mesmo. Qual a sua visão daqui a 50 anos, 100 anos, como você pensaria sobre o mundo, equilibrando progresso moral com riqueza cultural.

Bem, penso que uma vez que se admita que estamos no caminho do entendimento das nossas mentes no nível do cérebro, em detalhe importante, então você tem que admitir que vamos entender todas as qualidades positivas e negativas que possuímos em grande detalhe. Então entenderemos emoções sociais positivas como empatia e compaixão. E entenderemos os fatos que estimulam elas, sejam genéticos, sejam a conversa entre as pessoas, sejam sistemas econômicos. Assim que comecemos a iluminar estas questões iremos inevitavelmente convergir neste espaço.

Nem tudo estará no mesmo nível. Não será de tal forma que colocar a burca na minha filha desde o nascimento é tão bom como ensinar ela a ser confiante e bem educada na presença de homens que desejam mulheres. Não acho que precisamos de um financiamento do governo para saber que o uso compulsório do véu é uma má idéia. Mas em algum momento seremos capazes de escanear os cérebros de todos envolvidos e de fato interrogá-los. As pessoas amam suas filhas da mesma forma nestes sistemas? E acho que claramente existem respostas certas para isto.

A se os resultados forem que de fato eles amam, você está preparado para mudar atual julgamento instintivo em alguns destes casos?

A parte de um fato óbvio, de que você pode amar alguém no contexto de um sistema de crenças verdadeiramente falsas. Você pode dizer, “Porque eu sabia que meu filho gay iria para o inferno se ele encontrasse um namorado, eu o decapitei. E este foi o ato de maior compaixão que eu poderia fazer.” Se você considerar todas estas partes, sim eu acho que você provavelmente poderia estar sentido amor. Mas de novo, então teremos que falar no bem estar em um contexto mais amplo. Estamos todos juntos nisto, não é sobre um homem sentir êxtase e depois se explodir em um ônibus.

Esta parece ser uma conversa a qual eu adoraria que continuasse por horas. Não temos este tempo. Obrigado por vir ao TED.

Realmente uma honra. Obrigado.


Fonte: TED
Tradução:  Aurelio Tergolina Salton
Revisão:  Durval Castro
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2 pensamentos sobre “Sam Harris: A ciência pode responder questões morais.

  1. Talvez eu tenha lido o artigo com uma boa dose de preconceito em relação ao assunto, mas fato é que tive vontade de refutar cada uma das proposições do Sr. Harris. Eu também concordo com a posição dele de que valores morais não são derivados de conceitos religiosos, mas não acho os argumentos dele válidos. Inclusive, acho que qualquer tentativa de se estabelecer um conceito de moral da forma como ele faz leva a imposição de valores da mesma forma que a religião o faz.

    Em princípio, ele tenta estabelecer o vínculo entre moralidade e bem estar das “criaturas”. Vejamos, ao final do segundo parágrafo:

    “Valores são um certo tipo de fato. São fatos sobre o bem estar de criaturas conscientes.”

    Se valores por si só constituem fatos, eles devem poder ser verificados e ter sua veracidade atestada ou não de forma objetiva. Aqui talvez começa meu grande problema com as ideias do Harris. Por que ele estabelece logo a seguir que valores dizem respeito ao bem estar de criaturas conscientes. Então, se vamos estabelecer um teste de fatos, devemos, a princípio, considerar que conseguimos não só distinguir o que são criaturas conscientes como também determinar de forma objetiva o que vem a ser o bem estar dessas criaturas.

    O que define consciência e o que classifica algo como criatura consciente? Se definir consciência é algo complicado, inferir, de forma objetiva, a respeito da consciência alheia deve ser de fato impossível. Isso por que qualquer que seja a definição de consciência, seu teste envolverá a percepção de um indivíduo a cerca da percepção que outro indivíduo tem sobre si mesmo e sobre a realidade que o cerca. Se houver discrepância, como seria possível distinguir qual das duas é a verdadeira? Nesse momento, fica claro algo que Harris assumiu tacitamente: a existência de uma realidade objetiva que possa ser acessada de igual maneira por diferentes indivíduos. Mas para identificar e testar consciência, é necessário mais que isso, é necessário que diferentes consciências acessem de igual maneira elementos da realidade objetiva e a eles atribuam o mesmo significado ou, o que seria talvez pior, assumir que há uma visão privilegiada dessa realidade objetiva – algo semelhante ao que os religiosos chamam de deus. Sinceramente eu acho isso uma condição muito forte. E falo isso por que o que o Sr. Harris fala pode ter desdobramentos sérios, como por exemplo a tentativa de se aplicar essa moral supostamente absoluta para tratar de temas como eutanásia e aborto. Sob essa óptica, as colocações do Sr. Harris são no mínimo simplistas demais.

    A outra questão diz respeito ao bem estar das criaturas. Como seria possível inferir isso? Ele mesmo reconhece que isso é questionável e passa boa parte da matéria argumentando sobre sua possibilidade. Hoje em dia, há métodos que podem ser considerados científicos no sentido em que estabelecem um conhecimento objetivo verificável. É possível, por exemplo, usar neurociência para determinar objetivamente se um organismo está sentindo dor por exemplo. Mas como definir “bem-estar” de um indivíduo na forma de um fato objetivo?

    Se pararmos para olhar com calma, observaremos que, ainda que nosso conceito de moral possa ser estabelecido a partir de fatos científicos, ela sempre será dependente do significado que atribuimos aos fatos, e isso continua sendo subjetivo. Ainda não li o suficiente sobre moral e ética, mas aparentemente, na prática, a moral surge dentro de uma sociedade de forma natural a partir de uma concordância de valores individuais. Esses, por sua vez, são estabelecidos a partir de cada indivíduo numa tentativa de que, caso o grupo aceitar aquele valor, incorporando-o como regra de conduta, ele obtenha alguma vantagem ou atenuação de seu sofrimento. De forma reversa, valores podem ser incorporados a nós tanto inconscientemente, quanto conscientemente aceitamos um determinado valor por acreditarmos ser possível tirar alguma vantagem dele. Ao final, isso tudo acaba incorporado à cultura de cada povo ou tradição familiar.

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    • Concordo com o Mauricio.
      Eu aceito as premissas principais do autor, de que o religião e valores morais não são necessariamente ligados e de que podemos definir valores morais através do materialismo e raciocínio lógico.
      Porém, não fiquei convencido de que um metódo científico possa ser usado estritamente em algumas questões morais, e acabo sempre voltando a minha mente de volta para as demarcações discutidas no texto anterior.
      O bem estar das criaturas consciente é um assunto plausível apenas para filosofia e psicologia?
      Psicologia e filosofia consistem meta-física, mas não pseudo-cência?
      Enfim… ainda tenho demarcações mas não posso dizer que eu próprio siga uma definição concreta nas demarcações.

      Como disse, ainda acredito que a ciência consiga tratar de assuntos morais, e que a religião acaba é mais por distorcê-los, mas não considero o assunto tão preto VS branco, como senti no autor.

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