A gênese do materialismo: Necessidade de uma Reforma da Filosofia

Este é o segundo texto que publico sobre a gênese do materismo para compreendermos o nascimento do pensamento materialista.

Mais uma vez, trago um texto de Ludwig Feuerbach. Filósofo alemão do século XIX, grande influenciador da filosofia materialista.

Leia também as Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia.

Porantim


Necessidade de uma Reforma da Filosofia

Ludwig Feuerbach (1842)

Uma nova filosofia que se situa numa época comum às filosofias precedentes é algo de inteiramente diverso de uma filosofia que incide num período totalmente novo da humanidade; isto é, uma filosofia que deve a sua existência apenas à necessidade filosófica como, por exemplo, a de Fichte em relação à kantiana, é uma coisa; mas uma filosofia que corresponde a uma necessidade da humani­dade é outra coisa inteiramente diferente; uma filosofia que se ins­creve na história da filosofia e só indiretamente, por meio dela, se relaciona com a história da humanidade é uma coisa; mas uma fi­losofia que é imediatamente a história da humanidade é outra coisa de todo diversa.

Pergunta-se, pois: é urgente uma transformação, uma reforma e uma renovação da filosofia? E, nesse caso, como pode, como deve ela constituir-se? Far-se-á esta transformação no espírito e no sen­tido da filosofia tradicional ou num sentido novo? Trata-se de uma filosofia como a que até agora existiu ou de uma essencialmente diversa? Ambas as questões dependem de outra: encontramo-nos no limiar de uma nova época, de um novo período da humanidade ou prosseguimos em caminhos já batidos? Continuamos agarra­dos ao homem velho, só com as modificações que inevitavelmente têm lugar com o progresso do tempo? Se encarássemos a ques­tão da necessidade de uma transformação apenas do ponto de vista filosófico, encará-la-íamos de um modo demasiado restrito, mais, permaneceríamos no campo de uma banal querela de escola. Nada mais vão.

A reforma da filosofia só pode ser a necessária, a verdadeira, a que corresponde à necessidade da época, da humanidade. Em períodos da decadência de uma concepção do mundo de alcance histórico, há certamente necessidades contrárias — para uns é, ou parece, necessário conservar o antigo e banir o que é novo; para outros, é imperativo realizar o novo. Em que lado reside a verdadeira necessidade? Naquele que tem a exigência do futuro — o futuro antecipado: naquele que é movimento para a frente. A necessi­dade de conservação é somente uma necessidade artificial, criada — é apenas reação. A filosofia hegeliana foi a síntese arbitrária de diversos sistemas existentes, de insuficiências — sem força positiva, porque sem negatividade absoluta. Só quem tem a coragem de ser absolutamente negativo tem a força de criar a novidade.

Os períodos da humanidade distinguem-se apenas por transfor­mações religiosas. O movimento histórico só obtém um funda­mento onde ele penetra no coração do homem. O coração não é uma forma da religião, como se ela houvesse também de residir no coração; é a essência da religião. Surge, pois, a questão: teve já lu­gar em nós uma revolução religiosa? Sim; já não temos coração, já não temos religião. O Cristianismo é negado — negado mesmo por aqueles que ainda parecem sustentá-lo; mas não se quer dizer em voz alta que é negado. Não se diz isso por razões de política, faz-se disso um segredo; alimenta-se a este respeito, de modo intencional ou não, uma ilusão; mas faz-se passar a negação do Cristianismo por Cristianismo, faz-se do Cristianismo um simples nome. Vai-se tão longe na negação do Cristianismo que se rejeita todo o critério positivo e não se exige como critério do cristão nem os livros sim­bólicos, nem os Padres da Igreja, nem a Bíblia: como se não fora verdade que toda a religião só permanece religião enquanto pos­sui um determinado critério do religioso, um determinado centro e um princípio determinado. Tal é a conservação sob a forma da negação. Que é, pois, o Cristianismo? Se não temos mais nenhum testamento, por onde reconhecemos a vontade, o espírito do fun­dador? Isto significa apenas que já não existe Cristianismo algum. Semelhantes manifestações são apenas revelações da decadência interna, mais, a decadência do Cristianismo.

O Cristianismo já não corresponde nem ao homem teórico nem ao homem prático; já não satisfaz o espírito, nem sequer satisfaz ainda o coração, porque temos outros interesses para o nosso cora­ção, diferentes da beatitude celeste e eterna.

A filosofia prevalente pertence ao período da decadência do Cristianismo, da sua negação, mas que pretendia ser ao mesmo tempo ainda a sua posição. A filosofia hegeliana dissimulava a negação do Cristianismo sob a contradição entre representação e pensamento: isto é, negava o Cristianismo ao povo, e à sombra da contradição entre o Cristianismo das origens e o Cristianismo acabado. Nas origens, o cristianismo teria sido necessário; aqui, todos os laços foram rejeitados. Uma religião só se mantém se ela se preservar no seu sentido inicial, originário. Na origem, a religião é fogo, energia, verdade; toda a religião começa por ser estrita e incondicionalmente religiosa mas, com o tempo, esgota-se, torna-se laxa, infiel a si mesma, indiferente, submete-se à lei do ato. Para reconciliar com a religião esta contradição da prática, esta apostasia da religião, para a dissimular, recorre-se à tradição ou à modificação do antigo livro da Lei. Assim os Judeus. Os cristãos conseguem dar às suas Escrituras sagradas um sentido ra­dicalmente contraposto a esses textos.

O Cristianismo é negado — negado no espírito e no coração, na ciência e na vida, na arte e na indústria, radicalmente, de um modo irrevogável, sem apelo, porque os homens de tal modo se apropri­aram do verdadeiro, do humano, do antissagrado, que se roubou ao cristianismo toda a força de oposição. Até agora, a negação era uma negação inconsciente. Só hoje é que ela é, ou se torna, uma negação consciente, querida, uma negação visada diretamente, e tanto mais quanto o cristianismo se aliou aos inimigos do impulso fundamental da humanidade presente, o impulso da liberdade polí­tica. A negação consciente funda uma época nova, funda a necessi­dade de uma filosofia nova, franca, não mais cristã, resolutamente acristã.

A filosofia toma o lugar da religião; mas é justamente por isso que também uma filosofia de todo diversa entra para o lugar da antiga. A filosofia prevalente não pode substituir a religião; ela era filosofia, mas nenhuma religião, era sem religião. Deixava fora de si a essência peculiar da religião, pretendia unicamente a forma do pensamento. Para substituir a religião, a filosofia deve tornar-se religião enquanto filosofia, deve introduzir em si mesma, de um modo a ela conforme, o que constitui a essência da religião, o que constitui a vantagem da religião sobre a filosofia.

A necessidade de uma filosofia essencialmente nova dimana ainda do fato de termos diante dos olhos o tipo já acabado da fi­losofia antiga. É, pois, supérfluo tudo o que se lhe assemelha; tudo o que se possa produzir em conformidade com o seu espírito, por mais longe que dela possa estar nas suas determinações particula­res. Por mais que se conceba ou se demonstre o Deus pessoal de tal ou tal maneira — nada mais disso queremos saber, não queremos mais nenhuma teologia.

As diferenças fundamentais da filosofia são diferenças funda­mentais da humanidade. Para o lugar da fé entrou a descrença; para o lugar da Bíblia, a razão; para o lugar da religião e da Igreja, a política; a terra substituiu o céu, o trabalho substituiu a oração, a necessidade material o inferno, o homem o cristão. Homens que já não estão cindidos entre um senhor no céu e um senhor na terra, que se arrojam à realidade com a alma indivisa, são homens di­ferentes dos que vivem na desarmonia. O que para a filosofia é resultado do pensamento é, para nós, certeza imediata. Necessi­tamos, pois, de um princípio conforme a esta imediatidade. Se, na prática, o homem entrou para o lugar do cristão, então também no plano teórico o ser humano deve substituir o divino. Em suma, devemos resumir num princípio supremo, num vocábulo supremo, aquilo em que queremos tornar-nos: só assim santificamos a nossa vida, fundamentamos a nossa tendência. Só assim nos livramos da contradição que, presentemente, envenena o mais íntimo de nós mesmos: da contradição entre a nossa vida e o nosso pensamento e uma religião radicalmente contrária a esta vida e a este pensa­mento. Devemos, pois, tornar-nos novamente religiosos — a polí­tica deve tornar-se a nossa religião — mas ela só pode tornar-se tal se tivermos na nossa intuição um princípio supremo que consiga transformar a política em religião. Pode, por instinto, fazer-se da política uma religião, mas trata-se aqui de um último fundamento declarado, de um princípio oficial. Este princípio, expresso ne­gativamente, é apenas o ateísmo, isto é, o abandono de um Deus distinto do homem.

A religião, no sentido ordinário, não é tanto o vínculo quanto a dissolução do Estado. Deus, no sentido da religião, é o pai, o conservador, o providenciador, o guardião, o protetor, o regente e o senhor da monarquia mundial. Por isso, o homem não precisa do homem; tudo o que ele deve receber de si ou dos outros recebe­ o imediatamente de Deus. Confia em Deus, não no homem; dá graças a Deus e não ao homem, por conseguinte, o homem só por acidente está vinculado ao homem. Na explicação subjetiva do Estado, os homens reúnem-se pela simples razão de que não creem em nenhum Deus, porque negam inconscientemente, de modo ins­tintivo e prático, a sua fé religiosa. Não é a fé em Deus, mas a desconfiança em Deus que funda os Estados. É a crença no ho­mem como deus do homem que explica subjetivamente a origem do Estado.

No Estado, as forças do homem separam-se e desenvolvem-se para, através desta separação e da sua reunificação, constituírem um ser infinito; muitos homens, muitas forças, constituem uma só força. O Estado é a soma de todas as realidades, o Estado é a providência do homem. No Estado, os homens representam-se e completam-se uns aos outros — o que eu não posso ou sei, outro o pode. Não existo para mim, entregue ao acaso da força da natureza; outros existem para mim, sou abraçado por um círculo universal, sou membro de um todo. O Estado [verdadeiro] é o homem ili­mitado, infinito, verdadeiro, completo, divino. Só o Estado é o homem — o Estado é o homem que a si mesmo se determina, o homem que se refere a si próprio, o homem absoluto.

O Estado é a realidade, mas ao mesmo tempo também a refu­tação prática da fé religiosa. Mesmo nos nossos dias, o crente em aflição busca apenas ajuda no homem, contenta-se com a “bênção de Deus”, que deve estar em toda a parte. Sem dúvida, o sucesso não depende da atividade humana, mas muitas vezes, acidental­mente, das circunstâncias favoráveis; a “bênção de Deus” é ape­nas poeira nos olhos com que a descrença crente dissimula o seu ateísmo prático. O ateísmo prático é, pois, o vínculo dos Estados; os homens estão no Estado porque estão sem Deus no Estado, o Estado é o deus dos homens, por isso, reivindica justamente para si o predicado divino da “majestade”. Tornou-nos conscientes daquilo que faz o fundamento e o vínculo inconscientes do Estado: o ateísmo prático. Os homens lançam-se presentemente na polí­tica, porque reconhecem no cristianismo uma religião que destrói a energia política dos homens. O que o pensador, antes da consciência, tem no conhecimento, o homem prático tem-no no seu impulso. Mas o impulso prático na humanidade é o impulso político, o impulso para participar a­tivamente nos negócios do Estado, o impulso para a supressão da hierarquia política, da insensatez do povo, o impulso para a ne­gação do catolicismo político. A Reforma destruiu o catolicismo religioso, mas os tempos modernos puseram em seu lugar o catoli­cismo político. Pretende-se agora, no domínio da política, o que a Reforma quis e projetou no domínio da religião.

Assim como a transmutação de Deus em razão não elimina Deus, mas somente o desloca, assim também o protestantismo des­locou apenas o Papa para o rei. Trata-se agora do papado político; as razões que tornam necessário o rei são as mesmas que tornam necessário o Papa religioso.

A chamada era moderna é a Idade Média protestante em que só com meias negações e expedientes conservamos a Igreja ro­mana, o direito romano, o direito criminal penal, as universidades de estilo antigo etc. Com a dissolução do cristianismo protestante, enquanto poder e verdade religiosa que determinam o espírito, entramos na nova era. O espírito desta era, ou do futuro, é o do realismo. Se concebemos um ser diferente do homem como prin­cípio e ser supremos, então a distinção do abstrato e do homem permanecerá a condição permanente do conhecimento deste ser; então jamais chegaremos à unidade imediata conosco mesmos, com o mundo, com a realidade; reconciliamo-nos com o mundo mediante o outro, um terceiro, temos sempre um produto em vez do produtor, temos um além, se já não fora de nós, pelo menos em nós; encontramo-nos sempre numa cisão entre a teoria e a prática, temos na cabeça uma outra essência diferente da que está no co­ração; na cabeça o “espírito absoluto”, na vida o homem; além, o pensamento, que não é nenhum ser; aqui, seres que não são noú­menos, que não são pensamentos; em cada passo na vida, estamos fora da filosofia, em cada pensamento da filosofia, fora da vida.

O Papa, cabeça da Igreja, é homem como eu; o rei, homem como nós. Ele não pode, pois, impor ilimitadamente as suas fan­tasias; não está por cima do Estado, por cima da comunidade. O protestante é um republicano religioso. Por isso, na sua dissolução, quando o seu conteúdo religioso desaparece, ou seja, é descoberto e desvelado, o protestantismo leva ao republicanismo. Se suprimir­mos a cisão do protestantismo entre o céu, onde somos senhores, e a terra, onde somos escravos, se pois reconhecermos a terra como lugar do nosso destino, então o protestantismo leva diretamente à república. Se, em tempos passados, a república se aliou ao protes­tantismo foi, sem dúvida, casualmente — não todavia sem signifi­cado — porque o protestantismo apenas liberta no plano religioso; e daí uma contradição, enquanto se conservou ainda a fé religiosa do protestantismo. Só quando tiveres suprimido a religião cristã é que tu, por assim dizer, terás direito à república; pois na religião cristã tens a tua república no céu; por isso não precisas de uma aqui. Pelo contrário, aqui deves ser escravo, para que o céu não seja supérfluo.


Tradução: Artur Morão
Fonte: Ateus.net
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