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Racismo prejudica produção científica de pesquisadores negros no Brasil

O dia 13 de maio marca a abolição formal da escravatura, mas o Brasil está longe de acabar com o racismo presente nas instituições. Nas universidades, locais de construção do saber, a questão ainda se perpetua na graduação, apesar do sistema de cotas, e mais ainda na pós-graduação e na pesquisa científica, onde são raras as ações afirmativas. Pesquisadores negros relatam à Agência Brasil as dificuldades que enfrentam na academia, desde o ingresso e a permanência até as barreiras para abordar temas que envolvem questões raciais. Para esses especialistas, a tentativa de invisibilidade de negros como protagonistas de processos acadêmicos impacta toda a sociedade.

As trajetórias se repetem em diferentes universidades e ambientes acadêmicos. A mestra em educação Verônica Diano Braga conta que não conseguiu, ainda na graduação, um professor que concordasse em fazer a orientação sobre o tema “O rap para a juventude de periferia”. Por conta própria, ela pesquisou, escreveu e apresentou o trabalho de conclusão de curso.

A doutora em história Ana Flávia Magalhães Pinto tentou ingressar no mestrado em comunicação social com o tema imprensa negra no século 19, mas não foi aceita. A recomendação foi que ela – que tinha graduação em jornalismo – tratasse do assunto no departamento de história, onde foi aceita. Atualmente, Ana Flávia é referência no tema, inclusive, na própria comunicação.

“Uma série de preconceitos levava a restringir [o estudo do tema] e isso acontece em várias áreas. Existe uma incapacidade das pessoas de compreenderem que falar da experiência negra no Brasil é falar sobre a população brasileira [majoritariamente negra]. As pessoas tendem a achar que discutir as relações raciais, discutir sobre as questões da população negra, é falar sobre algo limitado. Não é”, diz Ana Flávia.

“A questão do preconceito, do racismo começa quando eu me declaro mulher negra. Quando eu me declaro mulher negra, pós-graduada e professora universitária, ele aumenta muito mais”, diz Verônica, que trabalha em uma instituição privada onde, segundo ela, de 300 professores, três são negros, sendo ela a única mulher.

“Já houve situações em que fui a eventos e a secretária disse: ‘senhora, não posso te atender, estamos muito ocupados’, e eu era a palestrante principal. Eu deixo. Quando a pessoa que me convidou chega e pergunta porque eu não me apresentei, eu digo que tentei, mas não consegui. Há discriminação estética. As pessoas não estão preparadas para que uma mulher negra e jovem seja a doutora ou a mestre”, acrescenta Verônica, também conhecida no hip hop como Vera Veronika.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, mais da metade da população brasileira (52,9%) é negra (soma daqueles que se declaram pretos e pardos). A porcentagem, no entanto, não se repete em espaços como a academia. A Pnad mostra que 0,19% da população do país cursa mestrado ou doutorado. De um total de 387,4 mil pós-graduandos, 112 mil são negros – menos da metade dos 270,6 mil brancos.

“A pós-graduação é estratégica, pois é da pós-graduação que saem aqueles que vão dirigir o nosso país, os órgãos governamentais, as empresas brasileiras. São todos mestres e doutores os que ocupam os espaços de poder”, explica o presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), Paulino Cardoso. “É um espaço onde a produção de conhecimento é reatualizada e, sem a presença dos estudantes afros, essa diversidade não é incorporada como um tema de pesquisa. E isso vai para todas as áreas”, acrescenta.

A dificuldade de ingresso aliada à escolha do tema de pesquisa são dificuldades dos pós-graduandos negros. Faltam linhas de pesquisa que contemplem questões étnico-raciais e faltam orientadores que se interessem pelos temas, analisam os especialistas entrevistados pela Agência Brasil.

O mestre em antropologia social e doutorando em transportes Paíque Duques Santarém avalia que os estudantes negros sofrem na academia quatro tipos de segregação. A primeira, já no processo de seleção, quando são feitas entrevistas orais por professores majoritariamente brancos. A segunda é o financiamento, a dificuldade em se manter em cursos que pedem, na maior parte das vezes, dedicação exclusiva, sem o auxílio financeiro da família. Ele cita ainda a convivência com colegas majoritariamente brancos e a necessidade de lidar com uma ciência que historicamente excluiu os saberes negros.

“São normais os casos de ser o primeiro, o segundo, o décimo estudante negro em um curso de pós-graduação. O isolamento ocorre no tempo presente, em que você está ali com poucos pares para compartilhar as suas angústias do ponto de vista racial. Além disso, não há pessoas que passaram por essa experiência e que possam te repassar vivências. E ainda tem a sensação de que talvez não vá ter ninguém ali posterior a você”, diz Santarém.

Texto: Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil
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Manifesto Contra a redução da maioridade penal

Se prender pessoas resolvesse os problemas da segurança pública seríamos o quarto país mais seguro do mundo. Isso porque temos a quarta maior população carcerária do planeta. De 1990 até hoje o Brasil aumentou em seis vezes o número de pessoas presas e esta realidade, em vez de diminuir a criminalidade, só fez aumentar a violência. Por mais que o fracasso desta medida seja óbvio, vemos agora uma proposta que quer que crianças e adolescentes sejam submetidos ao mesmo erro.

Isso não é coincidência. Vivemos um momento político em que posições ultrapassadas se fortalecem em diversos setores da sociedade. Trata-se de uma campanha de retirada de direitos e de conquistas históricas. A proposta de redução da maioridade penal é apenas mais uma destas ações equivocadas.

A juventude vem sendo apontada como a grande culpada pelos problemas de insegurança no país. Isto porque os jornais, as revistas, o rádio e a TV somente dão atenção às crianças e aos adolescentes quando eles entram em conflito com a lei. Os meios de comunicação nunca tratam com a mesma importância as dificuldades diárias que meninas, meninos e seus familiares passam em razão da falta de investimento em educação, saúde, moradia, lazer e cultura.

A mesma Constituição que diz que todos temos esses direitos, também diz que as pessoas com menos de 18 anos não serão tratados como adultos. Isto nunca significou que as crianças e os adolescentes estejam impunes quando cometem algum ato infracional. Ao contrário do que muitos têm falado, a lei garante a sua responsabilização. A grande diferença, assegurada também por acordos internacionais, é que crianças e adolescentes sejam tratados considerando sua fase de desenvolvimento.

É bastante contraditório que deputados e senadores, em vez de agir para garantir que todos tenham acesso a educação, saúde, moradia, lazer e cultura, queiram mudar a Constituição para retirar direitos de crianças e adolescentes. Sabemos que eles não fazem isto pensando em seus próprios filhos, que têm acesso a tudo isto e muito mais. O alvo da medida são os filhos daqueles que já estão abandonados pelo Estado e pela sociedade.

Como qualquer pessoa que se importa com crianças e adolescentes, somos contra a redução a maioridade penal formalizada na PEC 171/93. Dados da ONU apontam o Brasil como o segundo país que mais mata adolescentes no mundo, enquanto menos de 1% dos crimes são praticados por crianças ou adolescentes, segundo dados do Ministério da Justiça. Se separarmos apenas os homicídios, este dado cai para 0,5% do total de crimes praticados no país. Portanto, sugerir que a redução da maioridade penal trará maior segurança aos brasileiros é uma aposta da desinformação.

Sabemos que o Brasil só poderá resolver a questão da insegurança, quando as pessoas se sentirem seguras quanto a seus próprios direitos. Temos a certeza de que não serão as armas e as prisões que mudarão nossa realidade. Acreditamos que o lugar de nossas crianças, adolescentes e jovens são as escolas e as universidades.

É preciso mudar o foco da discussão, pois não adianta fazer políticas para crianças e adolescentes que praticam infrações se não oferecermos oportunidades para que eles vivam uma vida digna. Reduzir a maioridade penal é tapar o sol com a peneira, tratando os efeitos em vez de cuidar das causas dos problemas sociais.

Os signatários deste manifesto convidam todas as pessoas, entidades e movimentos sociais a integrar a construção e organização de uma ampla mobilização em defesa das crianças e dos adolescentes. Venha fazer a sua parte!

Paraná Contra a Redução da Maioridade Penal Curitiba, abril de 2015.

Assinam este manifesto:

ANEL Paraná – Assembleia Nacional dos Estudantes Livre
Associação de Moradores do Jardim Universal – Sarandi
Associação dos Blogueiros e Ativistas Digitais do Paraná – ParanáBlogs
Associação Fênix – Curitiba
Associação Novo Amanhã – Sarandi
Blog do Tarso
Bolinha de Sabão – Produtos Infantis
CALC/CAB – Coletivo Anarquista Luta de Classes
CAPSY PUC-PR – Centro Acadêmico de Psicologia – Gestão Os Pulsos Ainda Pulsam
Cáritas Brasileira – Regional Paraná
Casa da Juventude do Paraná
CASS PUC-PR – Centro Acadêmico de Serviço Social – Gestão Quebrando as Correntes
CEDCA Paraná – Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente
CEFURIA – Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araujo
Centro Acadêmico Alexandre Vannucchi – Filosofia PUC-PR
Centro de Estudos da Mídia Democrática Baronesa de Itararé – Barão de Itararé
Centro de Referência em Direitos Humanos Dom Élder Câmara – Curitiba
Centro Educacional Marista Enfermeira Anita Cordeiro – Paiçandu
Centro Educacional Marista Irmã Beno – Maringá
Centro Educacional Marista Irmã Eunice Benato – Curitiba
Centro Marista de Defesa da Infância – Curitiba
Centro Social Marista – Marcelino Champagnat Cascavel
Centro Social Marista Ecológica – Almirante Tamandaré
CEPAT – Centro Jesuíta de Cidadania e Ação Social – Curitiba
CESPDH – UFPR – Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos
Coletivo Anália – Coletivo de Gênero e Raça da UTFPR
Coletivo da Luta Antimanicomial do Paraná
Coletivo Feminista Saia na Rua
Coletivo Iara – UFPR
Coletivo Maio – Direito UFPR
Coletivo Marias da Boca Maldita
Coletivo Quebrando Muros
Coletivo Tarifa Zero
Comunidade de Assistência Bom Pastor
Consulta Popular – Paraná
CRESS-PR – Conselho Regional de Serviço Social – Paraná
Crime no Logos – Grupo de Estudos em Criminologia
CRP-PR – Conselho Regional de Psicologia – Paraná
DCE UFPR – Diretório Central dos Estudantes
Deputado Estadual Tadeu Veneri – PT Paraná – Pres. Comissão de Direitos Humanos e Cidadania – ALEP
Dr. Olympio de Sá Sotto Maior Neto – Ministério Público – Procurador de Justiça – Coordenador do CAOP de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos
Equipe Multiprofissional do Centro Médico Comunitário Bairro Novo – Curitiba
Falange Feminista Dandara – Sarandi
FASPP-TJPR – Fórum dos Assistentes Sociais, Psicólogos e Pedagogos do Tribunal de Justiça do Paraná
FEDDH-PR – Frente Drogas e Direitos Humanos – Paraná
FEMOTIBA – Federação Democrática das Associações de Moradores – Curitiba
FEPAMAR – Federação Paranaense das Associações de Moradores Entidades Beneficiente e Sociais
FETSUAS-PR – Fórum Estadual d@s Trabalhador@s do SUAS
Fórum DCA – Curitiba e Região
Fórum DCA-PR – Fórum Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – Paraná
Fórum DCA/PR – Macrorregional Norte Central/Regional de Maringá
Fórum Popular de Mulheres
FRENTEX-PR – Frente Paranaense pelo Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão
Grupo de Estudos Raciais – Direito UFPR – Curitiba
Guarda Mirim – Foz do Iguaçu
ICPC – Instituto de Criminologia e Política Criminal
IFPR – Curitiba – Instituto Federal do Paraná
Instituto Democracia Popular
Instituto Salesiano de Assistência Social
Jornal Germinal
Levante Popular da Juventude
MAJUP Isabel da Silva – UFPR
Maracatu Aroeira – Curitiba
Marcha da Maconha – Curitiba
Marcha das Vadias – Curitiba
Marcha Mundial de Mulheres
MOB – Movimento de Organização de Base
Movimento Nacional da População em Situação de Rua
Movimento RUA – Juventude Anticapitalista
Mulheres pelas Mulheres – Curitiba
Observatório das Juventudes da PUC-PR
PAJUPA – Pastoral da Juventude da Paróquia Santa Terezinha de Lisieux – Colombo
PAR UFPR – Partido Acadêmico Renovador
Pastoral do Menor – Regional Sul II
Pastoral Juvenil Marista – Cascavel
PJ – Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Curitiba
Portal Livre Pensamento
Promotoras Legais Populares de Curitiba e Região
Propulsão – Curitiba
PSOL Paraná – Partido Socialismo e Liberdade
Rede de Integração Vila Torres – Curitiba
Rede Marista de Solidariedade
Rede Mulheres Negras
REI Curitiba – Rede de Estudantes em Intercâmbio
Sindijus-PR – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Estado do Paraná
SINDIURBANO-PR – Sindicato dos Trabalhadores em Urbanização do Estado do Paraná
SindSaúde – Sindicato dos Trabalhadores da Saúde do Estado do Paraná
SINDYPSI-PR – Sindicato dos Psicólogos – Paraná
SISMMAR – Sindicato dos Servidores do Magistério de Araucária
Terra de Direitos – Organização de Direitos Humanos
USIR – Unidade Sarandiense pela Igualdade Racial
Vereador Anderson Prego – PT Colombo
Vereadora Professora Josete – PT Curitiba

Sua entidade, movimento social, grupo, coletivo ou instituição quer assinar o Manifesto? Envie sua assinatura para paranacontraareducao@gmail.com com o título “Assinatura do Manifesto”.

Fonte: Paraná contra a redução

cientistas

Ditadura militar brasileira perseguiu centenas de cientistas

A história de 471 cientistas perseguidos durante a ditadura militar foi pesquisada e, a partir de hoje (31), pode ser consultada no site do Projeto Ciência na Ditadura. Esta é a primeira fase do trabalho feito pelo pesquisador titular da Coordenação de História da Ciência do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) Alfredo Tiomno Tolmasquim e pelos professores Gilda Olinto e Ricardo Pimenta, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).

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Direito ao livre aborto na Suécia: 40 anos de lutas e mitos derrubados

Fernanda Favaro*

Muito se fala na Suécia como um exemplo de país onde o aborto é legalizado e tratado como deve ser – uma questão de respeito à liberdade e à saúde da mulher. O que pouco se sabe é que, por trás da legalização, que em 2015 completa 40 anos, há uma longa história de julgamentos morais, abortos clandestinos, mortes de mulheres e abandono de bebês que muito se assemelha ao cenário medieval que ainda vivemos no Brasil de hoje. Uma realidade que só se transformou após um longo e teimoso ativismo de feministas, militantes de direitos humanos e reprodutivos, políticos, jornalistas, estudantes de esquerda e classe médica.

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O que acontece quando a educação vira mercadoria

A Anhanguera Educacional tornou-se uma empresa S.A., com ações na bolsa de valores e uma agressiva política de compra de outras instituições. Depois de gastar R$ 800 milhões com a compra de 12 redes de ensino, o grupo tornou-se a maior rede de ensino do país. Só no ABC a Anhanguera já adquiriu a Faenac, em São Caetano, a Anchieta e a Uniban, em São Bernardo, a UniA e a UniABC, em Santo André.

Com a aquisição de tantas faculdades, era de se esperar que houvesse mudanças no quadro de professores, promovendo assim um alinhamento com as diretrizes do grupo. No entanto, o que acabou acontecendo foi muito mais que isso.

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